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Autárquicas: o que se passa em Oeiras?

Vistas ganhou com quase 30 por cento, o que significa que houve mais de 13 mil almas a achar que Isaltino podia continuar a governar atrás das grades

Tenho amigos e conhecidos a morar em Oeiras e nem eles percebem o que se passa por lá, por estes dias. Em noite de Autárquicas, além da vitória de Rui Moreira, a que mais surpreendeu foi a de Paulo Vistas, o homem que beijou o anel de Isaltino e foi abençoado com o nome do padrinho no cartaz eleitoral. E ganhou.

Muitos portugueses podem não estar a perceber bem o que aconteceu. Então é assim: a justiça prova que há um tipo que se meteu em falcatruas ao longo dos mandatos que teve enquanto presidente da Câmara Municipal. Até aqui, tudo normal por cá. Mas o povo, do alto da sua sagaz mas arrogante sapiência, não quer saber e acredita no que vê: obra feita (sabe-se lá a que custo). A justiça manda o dito sujeito para a cadeia. E, ainda assim, o povinho diz que a justiça, parva, não percebe nada disto e que é uma vergonha estarem a pôr um político tão honesto e trabalhador na prisão.

O dito governante, conhecendo bem o concelho que governou, manda chamar um camarada da sua confiança e diz-lhe para se candidatar à Câmara. Em noite de eleições, Paulo Vistas vence. Fosse isto um filme de comédia e a cena melhorava: os eleitores vencedores gritam e resplandecem, festejando a alegre vitória, e rumam à cadeia para lhe dar a conhecer esse sucesso. À cadeia!, como se fosse um hotel.

Só uma pergunta: andam a pôr LSD na água da rede de Oeiras? O país parece estar estarrecido perante a eleição. Vistas ganhou com quase 30 por cento, o que significa que houve mais de 13 mil almas a achar que Isaltino podia continuar a governar atrás das grades. Hilariante. Ainda mais do que as 1.079 pessoas que puseram uma cruzinha no PTP, em Gaia, apoiando Manuel Almeida, o candidato "superstar" de 2013.

Tudo isto significa que há um ex-governante que vai ter novo mandato a partir da prisão, como se vê naqueles filmes sobre a máfia. Qualquer dia vamos ver gajos da Camorra ou da Cosa Nostra a tirar notas ao observar os mestres portugueses. Porque sim, foi de mestre: o mais ridículo foi ver meia dúzia de malta a gritar “I-sal-ti-no!” em frente a um Vistas de sorriso amarelo que garantia ser uma honra suceder a um criminoso. É impressão minha ou estamos a viver numa "sitcom"?

Eu ainda confio na Justiça e, se Isaltino está lá dentro, é porque tem razões para estar. Como tal, não tem qualquer espécie de legitimidade para governar. Mas há um concelho em que a maioria da malta que se dignou a levantar o traseiro do sofá para ir votar acha que sim. Isto é como diz uma amiga minha: o pior cego é o que não quer ver. Felizmente, há um País de queixo no chão e olhos arregalados com o que aconteceu em Oeiras. Espero eu.