Os álbuns de família são agora um novo objecto de culto

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Fotografias de álbuns de família apresentadas nas exposições de Duarte Amaral Netto (em cima e ao lado) e de Matías Costa (em baixo) nos Encontros da Imagem, em Braga (até ao final de Outubro) Fotos: DR

O Amor e a Família é o tema dos Encontros da Imagem, que decorrem em Braga até ao final de Outubro. Em várias das exposições, a intimidade dos álbuns de família transforma-se em objecto de arte - e de culto.

Quem, por estes dias, percorra as ruas de Braga, vai encontrar uma curiosa mistura de imagens para além daquelas com que habitualmente nos deparamos nos centros urbanos. Os cartazes e fotografias da campanha para as eleições autárquicas e vários painéis com exposições dos Encontros da Imagem são as novidades no espaço público bracarense. Na Avenida da Liberdade, encontramos três painéis com fotografias de grande formato: são as Tribos da espanhola Lucia Herrero, retratos de famílias captados nas praias da costa mediterrânica, e que são uma espécie de actualização antropológica dos velhos álbuns de família.

Este é, de resto, um dos temas em destaque na 23.ª edição dos Encontros da Imagem, que tem como mote O Amor e a Família - mesmo se sob um título genérico pouco optimista, roubado a canção dos Joy Division: Love will tears us apart (O amor vai-nos separar).

O tema dos álbuns de família, que nos remete para um outro tempo e outros modos de usar a fotografia, está principalmente contemplado nas exposições The Family Project, do também espanhol Matías Costa (Casa dos Crivos), e Do que Nos Lembramos quando Nos Lembramos de Nós, de Duarte Amaral Netto (Museu Nogueira da Silva). E vai estar ainda - na extensão que os Encontros este ano fazem ao Porto (e também a Lisboa) - na nova exposição que Nelson D"Aires fará do seu projecto Álbum de Família, no Espaço Mira.

Nesta era de sobrevalorização da imagem e da comunicação instantânea, estamos a afastar-nos cada vez mais desse mundo em que os álbuns de família eram sobretudo "o registo de um tempo feliz", diz Ângela Ferreira, a nova directora dos Encontros da Imagem de Braga. Em volumes de capa almofadada e letras douradas, laboriosamente compilados ao longo de décadas e gerações, documentavam as histórias da família: o nascimento, o baptizado e o casamento, mas também as partidas para a tropa e as viagens, as festas de aniversário e as férias...

"Porque o tempo acelerou, a constituição de um álbum de forma artesanal, que se tornava num tesouro no seio de uma família, foi desaparecendo. Há menos tempo para a sua composição, e ele é substituído por outras técnicas, pelos ficheiros digitais", acrescenta a fotógrafa e professora bracarense.

"Podemos dizer que, hoje, as redes sociais já sintetizam, numa cronologia que integra a própria imagem, os vários momentos da vida de cada um. Do género: "Eu estive aqui", ou "Eu casei neste dia", ou simplesmente "Fui jantar com alguém a este lugar..."", diz Ângela Ferreira.

Perdida a função simultaneamente documental e afectiva de outros tempos, "o velho álbum de fotografias foi-se tornando um objecto de culto, numa tentativa de recuperar as memórias ou, talvez, de se opor à tecnologia que hoje disponibiliza imagens para todos", comenta, para o PÚBLICO, Paula Figueiredo, coordenadora do Serviço Educativo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.

Esta investigadora da história da fotografia faz uma curiosa analogia com o que se está a passar na música com o vinil, que "está novamente na moda, talvez por essa persistência em preservar, em guardar a memória".

Esta mudança do estatuto dos álbuns de família vem acompanhando, de resto, a própria mudança do conceito de família, "que se vai renovando, adaptando aos novos tempos e criando novas tipologias", nota Ângela Ferreira, chamando a atenção para o facto de o programa dos 23.º Encontros da Imagem de Braga permitirem, precisamente, um acompanhamento dessa realidade nova e multifacetada.

"A imagem continua a ter muito impacto nas pessoas, e tudo aquilo que cria uma analogia com os observadores, mais ainda. Por isso é que as fotografias de família continuam a ter interesse na produção fotográfica, apesar das grandes mutações sociais. A família ainda é uma estrutura forte na sociedade", diz Paula Figueiredo, que, com o fotógrafo Luís Pavão, está a preparar uma exposição sobre uma colecção de álbuns de fotografia de família, a apresentar em Outubro no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.

Estatuto de arte

Na visita que guiou para o PÚBLICO às exposições dos Encontros da Imagem que abordam especificamente o tema do álbum de família, Ângela Ferreira destacou os trabalhos de Matías Costa e de Duarte Amaral Netto. "Estes trabalhos dão ao álbum de família um estatuto de arte, algo que nunca se imaginou que viessem a ter. Antes dizia-se que a fotografia de família não entrava nas galerias de arte", diz a directora.

Um bom exemplo desta entrada das velhas fotografias e álbuns de família nas galerias e museus é o trabalho do holandês Erik Kessels, que apresentou, na edição deste ano dos Encontros de Fotografia de Arles (França), a instalação Album Beauty. Coleccionando, desde há anos, esses volumes e velhas imagens em feiras de rua e leilões em vários países, Kessels faz com eles inventivas montagens propondo uma nova "antropologia visual" desses objectos tornados anacrónicos pelas técnicas digitais.

Ângela Ferreira diz que a instalação do artista holandês chegou a integrar o projecto dos Encontros de Braga deste ano, mas que a ideia foi abandonada porque a instalação tinha "custos incomportáveis" para a organização.

A exposição de Duarte Amaral Netto - que já foi apresentada em Lisboa, na Galeria Baginski, em 2010 - ocupa também em Braga uma galeria normalmente vocacionada para as artes plásticas. No Museu Nogueira da Silva, o fotógrafo procede à diluição da ideia de álbum com uma intervenção estética sobre velhas fotografias do quotidiano: uma família na praia, no jardim ou na piscina; uma criança a brincar com o pai, uma adolescente a subir a uma árvore... "É um trabalho muito plástico sobre a imagem, que quase deixa de ser fotografia para passar a ser pintura", nota Ângela Ferreira.

No centro da galeria, Duarte Amaral Netto expõe em mesas-vitrinas uma colecção de cadernos Moleskines em cujas páginas imprimiu fotografias, quase como num livro de artista. "No digital, as imagens ficam numa espécie de poço sem fundo. Como arquivá-las?", pergunta-se a directora dos Encontros, vendo uma interessante resposta para essa questão neste dispositivo do artista nascido em Lisboa.

No caso de Matías Costa, o jornalista e fotógrafo madrileno trabalha sobre a sua própria memória familiar, alternando imagens dos seus avós com as memórias dos grandes acontecimentos do século XX, desde a migração europeia para a América e das duas Guerras Mundiais até às ditaduras na Alemanha, Rússia e América Latina.

"É uma missão pessoal à qual decidi dar a forma de projecto criativo para lhe garantir a distância necessária e posteriormente partilhá-lo com outros que podem não estar propriamente interessados na história da minha família, mas sim na forma de a contar", escreve Matías Costa sobre o seu Family Project.

O autor "baralha o jogo do tempo e do espaço para lhe dar um tom de autoria", diz Ângela Ferreira, sobre esta montagem em que Matías Costa acrescenta, e mistura, as fotografias históricas com novas imagens sem tempo e sem espaço, como uma escada, uma porta, uma árvore rarefazendo a luz do sol... Toda uma nova narrativa sobre o espaço da intimidade a que a Casa dos Crivos dá o cenário certo com as suas janelas crivadas, que permitem ver para fora sem se ser visto...

RYSA and other stories, do polaco Jakub Karwoski, sobre a sua mulher e o seu filho; Picturing Family, da finlandesa Elina Brotherus, retrato sociológico da família moderna no seu país; e Shvilishvili, da russa Jana Romanova, também uma viagem ao tempo dos seus antepassados, entre a Rússia e a Geórgia, através do expediente do livro-objecto e também do vídeo, são três outras exposições (todas no espaço GNRation) que permitem ao visitante uma aproximação aos novos formatos e significados dos álbuns de família.

Para ver até 27 de Outubro.