O trunfo de Paris é não se ter esvaziado dos seus jovens, das suas crianças

Anne Hidalgo A candidata socialista à Câmara Municipal de Paris quer manter a cidade como um local agradável para viver como trunfo face às outras grandes capitais. Os desafios são enormes

Nasceu em Espanha, mas tornou-se parisiense. Aliás, faz questão de se confundir quase com Paris, esta mulher elegante de 54 anos que fala baixo mas com firmeza e que tem boas hipóteses de ser a primeira mulher a presidir à Câmara Municipal de Paris. Braço direito do socialista Betrand Delanoë, o actual presidente do município, desde 2001, a discreta Anne Hidalgo, como a descrevem os jornais franceses, lançou a sua candidatura há um ano, e está determinada a não perder nas eleições autárquicas de Março de 2014. Esteve em Lisboa na semana passada, juntamente com uma embaixada de artistas franceses, nas comemorações dos 15 anos do Acordo de Amizade e Cooperação entre Paris e Lisboa e conversou com o PÚBLICO sobre a sua candidatura à presidência de Paris, uma das cidades-mundo do planeta.

É candidata à presidência da Câmara de Paris, um cargo nunca ocupado por uma mulher. Quais são as suas ambições para Paris?

É verdade que nunca houve uma mulher presidente da Câmara de Paris, que é uma das grandes cidades europeias. A minha ambição para Paris prende-se com a ligação que tenho a esta cidade. Poderia ter entrado no Governo de François Hollande, mas preferi continuar ligada à minha cidade, como faço desde 2001 com Bertrand Delanoë [o actual presidente da câmara]. Paris é uma cidade que se transformou muito nestes últimos anos. Conseguiu renovar-se, retomar uma dinâmica criativa, económica. Hoje Paris é verdadeiramente uma cidade-mundo que está em competição com as outras grandes capitais do planeta. Somos uma cidade que atrai criadores e investigadores do mundo inteiro. Quero estimular esse poder de atracção.

Mas também quero que em Paris se viva bem, porque Paris é uma cidade jovem, de 2,3 milhões de habitantes, onde vivem muitas famílias. É uma cidade jovem, onde a média de idades é 38 anos, onde há uma maioria de mulheres (53%), e são muito activas: 87% das mulheres de Paris que têm entre os 20 e 50 anos trabalham. E ao mesmo tempo a natalidade é mais forte em Paris do que no resto de França. Quero que esta dinâmica, ligada às características dos parisienses, marque o meu programa. Creches, escolas de boa qualidade, política municipal para apoio às pessoas idosas, para as mulheres articularem a vida profissional com a vida pessoal, coisas que fazem de uma cidade um espaço onde se viva bem, ao mesmo tempo que se garantem as condições para Paris ser uma cidade-mundo.

E quais são os trunfos de Paris face a outras grandes capitais europeias?

O trunfo de Paris é precisamente não se ter esvaziado dos seus jovens, das suas crianças. Quando vou a Manhattan, não vejo famílias e crianças. Esta é uma particularidade de Paris. Quero valorizar isto e melhorar as condições de vida. Por exemplo, a questão da habitação. Ter casa em Paris continua a ser muito difícil. Com Bertrand Delanoë construímos muitas habitações sociais, mas hoje é necessário ter programas também para a classe média e para os jovens, porque os preços do imobiliário em Paris são extremamente elevados.

Tenho uma outra prioridade que é a da circulação, um problema de todas as grandes cidades. A mobilidade deve ser facilitada, mas em causa não está apenas o automóvel; é preciso continuar a apoiar os transportes públicos. Mas é preciso incitar novas formas de mobilidade que virem as costas à viatura poluente. Por exemplo, o programa de partilha de automóveis, o Autolib, que pusemos em prática depois do de partilha de bicicletas, o Velib. Damos a escolha de alugar uma viatura eléctrica e não-poluente para circular em Paris. A cidade pode ainda incentivar o seu uso autorizando estes carros a circular nas vias prioritárias como as dos transportes públicas e permitir recarregar a bateria gratuitamente nos postos municipais.

Ainda sobre a habitação, o Governo aprovou na semana passada um pacote de medidas para o alojamento de emergência, porque há 141.500 pessoas sem habitação em França. Que impacto pode ter em Paris?

Paris é sobretudo uma cidade de arrendatários. E os alugueres são muito elevados. O Governo decidiu fazer uma lei para enquadrar o arrendamento urbano, impor limites máximos no preço por metro quadrado. Mas para lá desta medida, que considero boa, tenho outras propostas.

Primeiro, que se continuem a construir alojamentos sociais (Paris tem 20% de habitação social). Mas é preciso envolver também o sector privado para elevar a oferta no mercado para a classe média. Quero dar a possibilidade ao sector privado de construir edifícios de escritórios, claro que dentro dos regulamentos municipais, com a contrapartida de construírem habitação a preços acessíveis para a classe média, inferiores ao preço actual de mercado. Isto pressupõe a criação de uma agência imobiliária pública, onde estariam representados bancos e agentes imobiliários. O objectivo seria construir 10 mil novos alojamentos por ano, 60 mil em seis anos.

Há prédios vazios em Paris, porque os proprietários preferem não os alugar mais baratos?

Justamente, há entre 140 mil e 200 mil casas vazias. Pedi a um deputado socialista parisiense que fizesse um estudo sobre as razões que impedem o aluguer destas casas e parece que parte dos proprietários prefere deixar o seu apartamento vazio a alugá-lo por um valor mais baixo, e eventualmente sofrer danos. A agência imobiliária pública que quero criar poderia mobilizar estes apartamentos para o mercado, dando confiança aos proprietários

A sua adversária, Nathalie Kosciusko-Morizet, da UMP (centro-direita), põe o acento muito forte na segurança. É um assunto muito importante para os franceses.

Para já, a questão da segurança é demasiado importante para que seja usada como motivo de gesticulações políticas. Considero que a segurança é um direito. Em Paris, o Governo a que pertenceu Nathalie Kosciusko-Morizet [durante a presidência de Nicolas Sarkozy, de cuja campanha para a reeleição ela foi porta-voz] suprimiu 1500 postos de trabalho na polícia em Paris. Com menos 1500 agentes, evoluiu o número de assaltos, de furtos, de delinquências de rua, sobretudo nos sítios turísticos. Pedi ao ministro do Interior, Manuel Valls, que repusesse estes 1500 polícias; está em curso, mas demora dois anos a formar novos polícias.

Mas há um grande papel da prevenção da delinquência, em que quero continuar a investir. Uma forma é o financiamento dos educadores de rua, que propõem actividades para evitar que os jovens sejam atraídos pela delinquência. A cidade de Paris criou também "correspondentes de noite", agentes sobretudo de mediação que vão aos bairros mais difíceis à noite. Constatámos um fenómeno particular: há organizações dos antigos países de Leste que exploram jovens ciganos, que foram comprados às suas famílias, para serem inseridos numa criminalidade de rua, muito agressiva, mendicidade ou furto nas zonas turísticas de Paris. Temos há alguns anos uma parceria com polícias e serviços de justiça europeus, que leva polícias romenos a actuar ao lado de polícias franceses em Paris. Até agora, conseguimos desmantelar cinco redes que exploravam jovens para mendicidade e roubo, e teremos condenações em breve. É importante dar este sinal mas também recuperar os jovens apanhados por estas redes, estamos a trabalhar para tentar a sua reintegração.

As sondagens, por ora, dão-na à frente, embora Nathalie Kosciusko-Morizet não esteja assim muito atrás...

Estou confortável, mas sei que será uma eleição renhida. Não subestimo o impacto da crise da situação internacional nas eleições parisienses. Foi por isso que lancei a candidatura cedo, há um ano, para reunir os apoios à minha volta de forma ampla. A direita parisiense não consegue fazer isso. O meu objectivo é fazer uma modernização, aplicar a proibição de acumular mandatos...

Sei que a eleição será difícil. O elo de confiança que terei de estabelecer com os parisienses passa pela renovação e pela minha ligação à cidade. Paris, para mim, é em si uma ambição. Não é um trampolim. Os parisienses não são parvos, vêem onde há uma ambição sincera por eles e onde há uma ambição pessoal.

Nunca pensa em alcançar postos políticos para além de Paris?

Não. Há quem me diga: "Tens o direito de ter uma ambição nacional". Claro que tenho direito a ter ambições nacionais, não se podem é confundir. Acho que a ambição de ser presidente da Câmara de Paris é já muito grande, é enorme. Hoje onde os políticos podem fazer política e ao mesmo tempo ser úteis aos seus concidadãos é à escala das cidades-mundo. Não é dar provas de uma ambição menor querer ser presidente da Câmara de Paris.

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