Renata F. Oliveira/Flickr
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A má praxe não é praxe

Discutir se a praxe deve ou não fazer-se parece-me uma questão de segundo plano. Antes de tudo, deveria discutir-se a praxe que temos, se ela serve os objectivos a que se propõe

O assunto é recorrente. No início de cada ano lectivo, recoloca-se a questão: deve ou não pôr-se termo às praxes académicas? Falo da praxe académica que pode ser sucintamente definida como um conjunto de práticas, usos e tradições a que se sujeitam os estudantes que acabam de ingressar na universidade (vulgo "caloiros") por imposição de um Código aplicado pelos alunos que já lá andam (vulgo "doutores").

Começo por fazer uma declaração de interesses: fui estudante universitária em Coimbra, fui "pela praxe" e praxei (ainda que apenas em "trupe"), mas já que se impõe a verdade absoluta dos factos, importa ainda dizer que apesar de ter sido "pela praxe", nunca fui praxada. Valeu-me a sempre providencial "protecção de sangue" da minha irmã ou, quando não foi isso, a minha distinta lata que me levava ao atrevimento de me fazer passar por "doutora" quando ainda era caloira. Porém, nunca menti dizendo ser o que não era; limitei-me a responder duas ou três vezes um "O que é que tu achas?" em tom intimidatório a algumas "doutoras" que queriam saber se eu era caloira com intenção de me recrutarem. Mal percebi que era remédio santo para me deixarem em paz, adoptei a estratégia, admito.

Ainda assim, se tivesse sido praxada, não teria alterado a minha posição em face da praxe. Não querendo parecer parcial, mas estando consciente de que, aos olhos alheios, corro esse risco, continuo ainda hoje a defender que a praxe coimbrã é diferente. Aponto as minhas razões. Em primeiro lugar, em Coimbra há segregação de géneros na praxe: "doutor" só praxa caloiro e "doutora" só praxa caloira. Em segundo lugar, há um Concílio de Veteranos muitíssimo atento ao que se vai fazendo (no meu tempo, assim era) e que não tem (no meu tempo, não tinha) pejo nenhum em punir "doutores" que violem o Código da Praxe. Em terceiro lugar, há naquela Academia um profundo respeito pelo caloiro, a quem o "padrinho" ou a "madrinha" devem proteger de todas as tentativas de humilhação, punição desmesurada e abusos. E vigora até a proibição de pintar os caloiros, sob o lema "os caloiros não são palhaços".

Desconfio que se tivesse estudado em Guimarães, seria anti-praxe. E quem diz Guimarães, diz Bragança e umas quantas outras cidades onde a praxe não é praxe nem é nada. E por um simples motivo: defendo quem é anti-praxe — e eu mesma seria anti-praxe — em todas as academias em que não há respeito pela dignidade humana e onde a praxe é vista como um "free pass" para humilhar o outro e provocar-lhe sofrimento físico e psicológico. Em face disto, os argumentos sempre prontos da tradição e da integração são facilmente rebatíveis.

A verdadeira — e única — praxe nada tem que ver com subjugação, humilhação e desrespeito, mas antes com acolhimento, boa-disposição e, acima de tudo, liberdade de adesão, sem represálias. Quanto à integração, diga-se já que ela não se faz, certamente, recorrendo a indescritíveis rituais de gosto discutível, para não lhe chamar soez, como sejam o rastejar na lama, beber urina, simular orgasmos ou andar pela rua com palavras ordinárias escritas nas camisolas e na cara.

As tradições não podem ser estáticas e o costume não pode ser invocado para legitimar aquilo que nem sequer corresponde aos usos praxísticos, como temos vindo a observar em Portugal. Há cem anos já havia praxe, mas não havia sete noites de Queima das Fitas, nem milhares de litros de cerveja para consumir sem regro, nem concertos em níveis sonoros muito acima do que a lei permite e o bom-senso dita e, no entanto, ninguém parece importunado com as alterações que a festa de Maio sofreu, com óbvio sacrifício da tradição. Se assim é, parece-me claro que não pode invocar-se a manutenção da tradição para umas coisas, dispensando-a para outras.

A verdade, sem mais, é que o tempo passa e as coisas, felizmente, mudam (o que não é novidade nenhuma, pois Camões já o disse com brilhantismo há quase cinco séculos: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades."). Não pode comparar-se a pressão existente hoje sobre os estudantes universitários com aquela que existia no tempo em que um Hilário estudante de Medicina conseguia conciliar o curso com os fados e as guitarradas à janela das donzelas. O mercado de trabalho (ou de desemprego?) pressiona, a família pressiona, a economia pressiona, a auto-estima pressiona. O mesmo se diga em relação ao tempo de estudo. Quantos foram os que fizeram o curso "por correspondência", deslocando-se às faculdades apenas para realizar os exames? Inúmeros, como se sabe. E depois de Bolonha, continua a ser assim? Claro que não. A avaliação contínua obriga a abandonar a concepção do ano lectivo em picos de produtividade e estudo (as épocas de frequências) e arrasta consigo um modelo de aplicação a tempo inteiro. Cabe, então, perguntar: e a praxe, o que fez para se adaptar a estas mudanças? A resposta é óbvia: nada.

O assunto dava pano para mangas e não se compadece com o espaço de uma crónica, mas é incontornável dedicar umas palavras à tão falada integração. Longe vão os tempos em que os caloiros eram o fiel retrato do saloio que chegava à cidade universitária montado num burriquito e com uma malinha na mão, ignorante sobre tudo o que se passava fora da sua aldeia e ávido de descobrir um novo mundo que se abria com o ingresso na faculdade. Os caloiros de hoje não precisam de quem os leve a correr a cidade cantando e dançando, não precisam de quem os leve às tascas para apanharem a primeira bebedeira (que aconteceu já nos tempos de liceu, ou melhor, da EB 2+3) e precisam ainda menos de meios de integração que se limitem a desconsiderá-los e a sujeitá-los a tratamentos degradantes. A integração de que tanto se fala deveria passar pela praxe para aqueles a quem ela satisfaça e por alternativas à praxe, com diversas vertentes (cultural, académica, desportiva ou de mero lazer) para aqueles que a ela não queiram aderir — e neste ponto, em particular, deixo uma crítica também aos que se proclamam anti-praxe: não basta que nos queixemos do que existe porque não nos agrada, também é necessário criar alternativas e contribuir activamente para a mudança.

Discutir se a praxe deve ou não fazer-se parece-me uma questão de segundo plano. Antes de tudo, julgo, deveria discutir-se a praxe que temos, se ela serve os objectivos a que se propõe, se ela tem de facto as vantagens que se arroga. Depois desta reflexão cumprida, então sim, talvez estejamos em condições de optar por mantê-la ou não, consoante se conclua que a sua existência continua, de facto, a valer a pena. Porque as tradições também se rompem, também se transmutam, também dão lugar a outras tradições. É, de resto, assim que elas nascem. Nas tradições nada é perene, a não ser o dever de respeitarmos o outro e o direito a que nos respeitem também. 

Nota da autora (acrescentada às 18h47):

No que respeita a este aspecto, importa esclarecer que quando digo que “nunca fui praxada” me refiro apenas à praxe “por mobilização”. Se afirmo que “fui pela praxe”, tive de ter uma “madrinha” e de ser “baptizada”, passando então a integrar a Academia coimbrã. Não creio que isso me torne mais habilitada para falar sobre o tema, pois em lado algum do Código da Praxe de Coimbra se lê que só pode praxar aquele que tenha sido praxado. O que as regras praxísticas ditam é que não pode praxar aquele que se tenha declarado "contra a praxe", mas nem a esses, claramente, está vedado o direito de expressarem a sua opinião sobre um assunto que diz respeito a todos os que por ele se interessarem.