Manter acesa a chama da vida

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Depois de Cópia Conforme, rodado na Toscana, Abbas Kiarostami rumou ao Japão para Like Someone in Love, com título tirado a uma canção popularizada por Ella Fitzgerald. NUNO FERREIRA SANTOS

Se Abbas Kiarostami se torna um cineasta "do mundo" - Like Someone in Love foi rodado no Japão - continua a "manter acesa a chama da vida".

Depois de Cópia Conforme, rodado na Toscana, Abbas Kiarostami rumou ao Japão para Like Someone in Love, com título tirado a uma canção popularizada por Ella Fitzgerald. A noite de Tóquio, uma estudante universitária que se desdobra em call girl e falha uma visita da avó para atender a um encontro com um velhote, antigo professor universitário. Na manhã seguinte, e perante o aparecimento do namorado da rapariga, é a vez de o velhote assumir o papel de avô. Nada no filme lembra que Kiarostami, 73 anos, vem do Irão, mas também nada desperta uma impressao de desenraizamento. Mas se Kiarostami se torna - até mais ver - um cineasta "do mundo", continua a jogar com elementos característicos do seu cinema, ao mesmo tempo que o abre elementos novos ou pouco explorados: uma maneira de "manter acesa a chama da vida".

Like Someone in Love foi filmado no Japão, só com actores japoneses. Não é, em termos de produção, um filme cem por cento japonês mas é quase como se o fosse. Creio ter lido algures, no entanto, que inicialmente a sua ideia era rodar no Irão. É verdade isto?

Não, nunca me passou pela cabeça fazer o filme no Irão. E não tem nada a ver com a questão da censura, não podemos estar sempre a atirar as culpas para a censura. A razão é que, simplesmente, este tipo de história nunca se podia passar no Irão. São razões culturais, têm a ver com os costumes, com as práticas. Desde o princípio que pensei que seria um filme para rodar numa cidade europeia, escrevi o argumento com esse cenário em mente, que era onde a história fazia sentido. A dado momento o filme esteve mesmo para ser feito na Europa. Depois apareceu um produtor japonês, e foi nessa altura que se tornou de facto possível arrancar com o filme. Mas rodado no Japão, o que me obrigou a algumas pequenas alterações à história original.

E esta história é um produto da sua imaginação, ou como em tantos dos seus filmes iranianos baseia-se nalguma anedota ou nalgum fait divers que tenha lido ou ouvido?

Digamos que a minha imaginação está sempre enraizada na realidade. A primeira imagem que vi foi a da rapariga, no princípio do filme. A rapariga é a primeira imagem do filme. Depois, talvez tenha um modelo para a personagem do professor, talvez ele seja parecido com alguns amigos que conheço dos meios intelectuais do Irão. E a rapariga que vem do campo para a cidade e perde a inocência que trazia é uma história universal. Assim como em qualquer sítio do mundo se podem encontrar pessoas como o namorado, que não percebe ou não quer perceber o que se passa com ela. E finalmente a avó: todos tivemos avós, sabemos como se comportam as avós. Portanto, mesmo sem nenhum fait divers, penso que toda a história e todas as personagens têm origem na vida real.

Os actores são todos extraordinários, e desconhecidos mesmo para o cinema japonês. Como fez para os desencantar?

São não-profissionais, ou enfim, lá perto. Fizemos casting e, de facto, para os papeis do professor e da rapariga foram inicialmente escolhidos dois outros actores, ambos profissionais e um pouco mais conhecidos. Mas começámos a preparar e a ensaiar, e rapidamente percebi que aquilo não batia certo, que não era o tipo de actores que eu queria. Excelentes profissionais, sem dúvida, mas a minha sensação era de que estavam sempre em overacting. Resolvi prescindir deles e aproveitar outros que tínhamos visto no casting.

Tadashi Okuno, que faz o professor, não é actor profissional?

É figurante profissional. Entra em filmes, como figurante, há mais de quarenta anos. Mas creio que nunca tinha tido sequer um diálogo para dizer em nenhum dos filmes em que entrou. Vou contar-lhe um detalhe engraçado. Nunca dei aos actores o argumento completo, só as cenas em que entravam e no momento em que as íamos filmar. De modo que Tadashi Okuno nunca percebeu a dimensão da sua personagem. Passou a rodagem convencido de que tinha um pequeno papel, e só depois de ver o filme pronto é que descobriu que era o protagonista... Já a rapariga [Rin Takahashi] tinha mais experiência, sobretudo em séries de televisão, mas ainda assim só pequenos papeis.

Não sabendo falar japonês, como trabalhou com os actores? Li algures, e agora espero que seja informação correcta, que achou isso libertador porque se pôde concentrar nos rostos.

Sim, isso é verdade... Penso que a medida da representação precisa [accurate acting foi a expressão inglesa usada por Kiarostami] não é o diálogo mas a expressão facial. Trabalhei com um intérprete durante a rodagem, que traduzia as minhas indicações mas também me traduzia todo o dialogo no momento em que estava a ser dito. Portanto, estava sempre a par. E podia, de facto, concentrar-me nos rostos, porque eram eles que me diziam se podia ou não acreditar no que estava a ser dito.

Por falar em "acreditar", as mentiras abundam no filme. As personagens escondem alguma coisa das outras, assumem identidades falsas, são sempre like someone, constantemente a ocultarem o someone que são. Este jogo com o labirinto entre verdades e falsidades é algo de muito característico no seu cinema, e desde há muito.

Concordo consigo, mas não tenho muito a dizer sobre isso. É um facto que os meus filmes são assim, mas não tenho nenhuma explicação. Preciso da minha coerência, como qualquer artista, a coerência é importante.

E no entanto, e juntado a este filme o seu anterior, Cópia Conforme, também rodado no estrangeiro, há um dado novo. São filmes onde as relações entre homens e mulheres, o "amor romântico" se não achar uma expressão idiota, tomam a proeminência, duma maneira que me parece incomparável com qualquer dos seus filmes iranianos.

Sou a pessoa errada para responder a essa pergunta, porque não escolho os meus temas, sou escolhido por eles... Portanto, devia perguntar a esses temas, e não a mim, a razão de me escolherem... Mas é verdade o que diz, eu é que não tenho resposta. Talvez trabalhar estes temas seja a minha maneira de manter acesa a chama da vida.

Isso é uma grande resposta... Projecta-se especialmente nalguma das personagens?

Em todas. No professor, na rapariga, na avó, no namorado, na vizinha. Em todas elas há uma parte de mim.

Fiquei com a sensação de que a "moral da história" do filme é aquele momento em que o professor conversa com o rapaz, no carro, sobre a noção de "experiência", e diz mais ou menos isto: "quando a resposta pode ser uma mentira não se faz nenhuma pergunta, isto foi o que a experiência me ensinou". Estou a dar um tiro muito ao lado?

O filme já não é meu, é seu e de quem o vir. Portanto, se essa foi a sua sensação ela só pode estar certa porque é o seu filme, é a sua visão. Mas posto isto, deixe-me dizer-lhe que partilho, e confirmo, a sua visão.

O final é intrigante. Não pela situação narrativa, que parece bastante lógica, mas pela forma abrupta como o filme se desliga da situação e das personagens, e corta para o genérico de fecho numa altura em que parece que a cena ainda está incompleta. Isto amplifica o "choque" do espectador. Este final tem alguma explicação especial?

Por acaso, tem. Bom, queria que o tom fosse este, como nalguns clássicos americanos em que o final não vem resolver nada, antes prolongar uma atmosfera terrificante. Mas quando estava a escrever o argumento não encontrei nenhuma inspiração especial e deixei o final assim, seco e descritivo, com a ideia de pensar nalguma alternativa durante a rodagem. Mas acontece que nem então encontrei ideia melhor, e resolvi filmar o final tal e qual como estava escrito. Tenho desafiado toda a gente a sugerir-me um final melhor, e ninguém consegue. Você tem algum final melhor a propor-me?

Eu não, está perfeito como está... Só mais uma pergunta: é o seu segundo filme consecutivo fora do Irão, não pensa voltar a filmar no seu pais?

Eu quero, e espero que sim. Mas as coisas têm que melhorar por lá. As condições e o ambiente. Oxalá melhorem.

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