A democracia na União Europeia está a andar para trás em vários países

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As manifestações contra o Governo e a corrupção duram há mais de cem dias na Bulgária STOYAN NENOV/REUTERS

Há preocupação no Leste, na Hungria, na Bulgária. Mas o sonho europeu fraqueja também no Mediterrâneo. Os políticos não sabem falar com os eleitores e a corrupção mina a confiança de todos

A democracia na União Europeia está a andar para atrás? Um estudo sobre sete países europeus mostra que sim. A corrupção em grande escala, a crise do euro e a insatisfação com os partidos políticos tradicionais estão a produzir uma Europa onde os media são menos livres, os sistemas judiciários perdem independência e as sociedades se tornam mais intolerantes, incapazes de respeitar os direitos humanos e as minorias, raciais, religiosas ou sexuais.

O estudo divulgado ontem é do think tank britânico Demos, e chama-se ADemocracia já não é um dado adquirido (Democracy can no longer be taken for granted). A Grécia e a Hungria são os países onde a qualidade da democracia surge mais deteriorada, através da análise dos vários indicadores usados pelos investigadores (do Banco Mundial, do Estudo Europeu dos Valores e da base de dados de direitos humanos Cingranelli-Richards-CIRI, entre outros). Juntando todos estes dados, os investigadores da Demos elaboram um índice próprio.

A Bulgária e a Roménia são os países que piores resultados atingem nas cinco dimensões da análise: democracia eleitoral, direitos fundamentais, tolerância das minorias, cidadania activa e satisfação com a democracia. Os Estados analisados são França, Itália, Grécia, Bulgária, Roménia, Letónia e Hungria.

São testemunha dessa insatisfação geral os mais de 100 dias de protestos nas ruas de Sófia contra o Governo socialista liderado pelo economista independente Plamen Oresharski, após ter feito uma nomeação que cheirava fortemente à corrupção que mina a Bulgária.

Em causa esteve a nomeação para dirigir a agência de segurança e espionagem interna de Delyan Peevski, um dos oligarcas búlgaros - os milionários resultantes das reformas económicas, que incluíram "uma terapia de choque neoliberal, combinada com um Estado fraco e um sistema judicial corrupto", como se relata no estudo da Demos. Peevski, além de mandar nos espiões, o que seria uma posição de grande poder, é também proprietário, aos 33 anos, de um grande grupo de media.

Os protestos foram tantos que o Governo voltou atrás e Peeski retirou-se, mas as manifestações, que começaram em Junho duraram todo o Verão - a revista The Economist chamou-lhes o nascimento de "uma sociedade civil" búlgara.

Mas este é só um exemplo do que se passa na Europa dos 28. A evolução da Hungria é preocupante porque o partido maioritário, o Fidesz, e o seu líder, Victor Orbán, têm usado o poder de forma autoritária para redigir abundante nova legislação limitadora das liberdades, contra a qual a Comissão Europeia e outras entidades têm protestado.

Uma sondagem feita em 2011 revelava que 54% dos húngaros simplesmente não confiam nos partidos políticos mas que 45% apoiariam um Governo autoritário, em vez de um democrático, se este garantisse crescimento económico. A juntar-se a isto há o crescimento da intolerância em relação à extrema-direita populista, através do Jobbik - o terceiro maior partido húngaro.

O índice do Banco Mundial que mede a eficácia do controlo à corrupção tem vindo a diminuir, entre 2000 e 2011 (de 1,130 para 1,127). A Grécia, como seria de esperar, foi um dos países onde mais caiu esse índice, e foi também um dos países onde mais aumentou a abstenção nas eleições. Aliás, a Grécia é um dos exemplos extremo de como a corrupção pode levar à desconfiança em relação aos partidos tradicionais. Em 2012, foi o Estado mais corrupto da UE, surgindo na posição 94 entre os 176 países que constam da lista da organização Transparency Internacional. Em 2011 estava em 80.º lugar, e estimava-se que a corrupção tivesse custado ao país 554 milhões de euros.

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