Grécia declara guerra ao Aurora Dourada mas pode ser tarde de mais

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Manifestação antifascista ontem em Atenas para denunciar o aumento do extremismo neonazi na Grécia YORGOS KARAHALIS/REUTERS

Autoridades detêm um agente por suspeitas de colaboração com os neonazis e renovam a liderança da polícia, mas alguns analistas advertem que a situação é ainda mais complicada do que parece

A bomba que as autoridades de Atenas pensavam poder desarmar sem muito alarido acabou por explodir nos últimos dias na sociedade grega. Ao fim de um ano de crescente popularidade, responsáveis e simpatizantes do partido de extrema-direita Aurora Dourada vêem-se agora no meio de um cerco popular e mediático, que começou a apertar após o homicídio de um músico conhecido pelas suas posições de esquerda, na semana passada.

Forçado a reagir contra uma realidade violenta "que todos quiseram ignorar", como escreveu a jornalista Dimitra Kroustalli no diário To Vima, o primeiro-ministro, Antonis Samaras, ordenou operações relâmpago em várias representações do Aurora Dourada um pouco por todo o país.

Na terça-feira à noite, em Agrinio, no Oeste, um agente da polícia foi detido pelos colegas por suspeitas de trabalhar como guarda-costas para um deputado do partido neonazi, cuja direcção tem negado qualquer envolvimento nos inúmeros casos de violência contra imigrantes - e agora contra um grego, o músico de hip-hop Pavlos Fyssas, de 34 anos. Durante a operação, as autoridades apreenderam bastões de madeira e munições de caçadeira nas instalações do Aurora Dourada.

Há muito que a polícia é acusada de tolerar ou até mesmo de ser cúmplice dos grupos de neonazis que ameaçam e espancam imigrantes e activistas da esquerda radical, mas a morte de Pavlos Fyssas - esfaqueado na madrugada do dia 18 por um confesso simpatizante do Aurora Dourada - funcionou como o despertador que desencadeou uma operação de repressão contra o partido.

Na segunda-feira, o Governo de coligação - formado pela Nova Democracia, de centro-direita, e pelos socialistas do Pasok - substituiu sete responsáveis da polícia grega, entre eles os chefes das forças especiais, da segurança interna, do crime organizado e da unidade de explosivos, com o objectivo de assegurar uma "objectividade absoluta" nas investigações. Houve operações de busca em três esquadras nos arredores de Atenas e dois dos mais importantes responsáveis da polícia apresentaram a demissão, alegando "razões pessoais" - para além das saídas do inspector-geral no Sul da Grécia e do director-geral no centro do país, outros nove agentes foram detidos por suspeitas de ligações ao Aurora Dourada.

"É um momento crucial. Não é claro se a Grécia irá ficar mais ou menos estável em resultado desta repressão. Há sempre o risco de uma resposta mais violenta, mas é preciso fazer isto", disse Harry Papasotiriou, director do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Panteion em Atenas, citado pelo jornal The New York Times.

No diário grego I Khatimerini, o jornalista Pantelis Boukalas sublinhava que, "de um momento para o outro, toda a gente - o Estado grego, a sociedade, o sistema judicial, a polícia e os media - parece estar a mexer-se com muito mais rapidez", numa crítica à relativa passividade com que as autoridades têm lidado com o crescimento dos movimentos extremistas na Grécia, principalmente nos últimos anos de grave crise económica e financeira.

"As pessoas que acompanham de perto a situação já tinham visto o monstro há muito tempo, já tinham ouvido o apavorante cântico Sangue, honra, Aurora Dourada e tinham lançado os seus próprios alertas: quando os neonazis pedem sangue, pouco lhes importa a pureza da raça. Estão a demonstrar a sua sede de sangue. É por isso que organizaram um exército", escreveu o jornalista. E termina com uma crítica à reacção das autoridades, que considera tardia: ""É melhor que seja tarde do que nunca" não se aplica a este caso. Afinal, o que há de "melhor" em ser morto?"

Mesmo assumindo o receio de que a possível ilegalização do partido possa resultar num aumento da violência, o Presidente da República, Karolos Papoulias, disse que chegou a hora de dar um murro na mesa. "Desde a minha juventude que lutei contra o fascismo e o nazismo. Como Presidente da República, é meu supremo dever defender a democracia e o povo grego da tempestade que se aproxima", disse Papoulias, à entrada para uma reunião com o líder da coligação de esquerda radical Syriza, Alexis Tsipras.

Nos últimos dias, as acusações de que uma parte da polícia e das forças armadas gregas não se limita a simpatizar com a ideologia do partido neo-nazi têm sido materializadas em páginas de vários jornais. Na segunda-feira, o Ethnos escrevia que milhares de apoiantes do Aurora Dourada têm recebido treino de elementos das forças de elite do país; um dia antes, o To Vima citava um dos elementos do pequeno exército que estará em preparação: "No Aurora Dourada temos uma estrutura militar completa, com pelo menos 3000 pessoas preparadas para tudo."

Mas a morte do músico Pavlos Fyssas já abalou o trajecto ascendente do Aurora Dourada: de acordo com uma sondagem para o site grego NewsIt, o partido desceu nas intenções de voto de 10,8% em Junho para 6,8% - ainda assim um valor muito próximo dos 6,9% que lhe valeram a eleição de 18 deputados nas eleições legislativas de Junho de 2012 e à frente do segundo partido do Governo, o Pasok, com 6%.