Edgar Cardoso: o inventor de pontes

Edgar Cardoso dizia que em todos os rios há um sítio que foi feito para ter uma ponte e que é preciso encontrá-lo. Uma homenagem hoje, em Lisboa, relembra-nos o seu legado.

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A Ponte da Arrábida (em cima) e a Ponte de S. João (ao lado) tornaram-se marcas icónicas do Porto e são duas obras centrais no percurso de Edgar Cardoso (imagem à esquerda) Fotos: FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Passados 13 anos sobre o seu desaparecimento, a 5 de Junho de 2000, a obra do engenheiro Edgar Cardoso mantém todo o seu encanto, mas talvez ainda não tenha tido o reconhecimento devido em Portugal.

No ano em que se comemora o centenário do seu nascimento, a Ordem dos Engenheiros promove hoje (17h30, no Auditório da Região Sul, em Lisboa) uma cerimónia de homenagem ao controverso professor. A iniciativa inclui a exibição de um filme biográfico e a inauguração de uma exposição intitulada Edgar Cardoso - Ingenium Criativo, comissariada pelo arquitecto João Santa-Rita. A 22 de Junho, comemoraram-se os 50 anos da Ponte da Arrábida, classificada também este ano como monumento nacional.

Famosa por ter, à altura, o maior arco de betão do mundo (270m de vão), a inauguração, em 1963, criou o suspense de uma eventual tragédia, mas a ponte permanece de pé e transformou-se num ícone do Porto moderno, novecentista. O último projecto de Edgar Cardoso, a Ponte de S. João, inaugurada a 24 de Junho de 1991, é, no outro extremo da cidade do Porto, provavelmente a sua obra-prima, e uma das mais belas pontes construídas do mundo.

Tem-se, no entanto, a sensação de que Portugal não prestou ainda a devida atenção à obra e vida deste homem singular, que merece a tantas vezes desbaratada designação de "génio". Também no lendário modo impetuoso, temperamental, como se relacionava com os outros. Como escreveu Luís Lousada Soares, responsável por uma monografia sobre Edgar Cardoso publicada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, o "Mestre" era capaz de "afirmações enérgicas, frontais, cruas, despidas de quaisquer adornos diplomáticos, sem qualquer cerimónia". Era também, nas palavras de António Adão da Fonseca, "duro, trocista, até mordaz". Mas é evidente, para todos os seus admiradores, o extraordinário desassombro perante as dificuldades e uma excepcional capacidade inventiva, que remetia, com aparente modéstia, para a etimologia de "engenheiro". "O engenheiro", dizia Edgar Cardoso, "é o homem que tem engenho".

O tempo que passou desde o seu desaparecimento não tem sido suficiente para apagar a marca das polémicas em que se envolveu, diz-nos o engenheiro Carlos Ferraz, do Gabinete de Engenharia Edgar Cardoso, que realiza projectos de pontes em Portugal e no estrangeiro, mantendo vivo o legado do professor.

É bem evidente que Edgar Cardoso atravessa o ofício de engenheiro e a paisagem portuguesa como nenhum outro no século XX. As "pontes" são o seu objecto de trabalho central, e o belíssimo pretexto para exercitar a sua inteligência em vários sentidos: inovação e experimentalismo, mas também apropriação e pertença aos lugares.

A ponte sobre o rio Mondego, na Figueira da Foz, que tem o seu nome, é, seguramente, das mais exaltantes. As duas pontes sobre os rios Cávado e Caldo são especialmente curiosas. Mas talvez o centro nevrálgico da sua obra esteja no rio Douro. Da ponte da foz do rio Sousa (projecto de 1948), que se reflecte no Douro, e é considerada um teste para a Ponte da Arrábida, com um maravilhoso cimbre (armação) de madeira que podemos observar em fotografias, até à Ponte da Arrábida propriamente dita e à Ponte de S. João, que são testemunhos de uma época, avanços importantes da engenharia a nível mundial, e ícones do Porto, uma cidade muito ciosa da sua imagem.

As fotografias do fecho do arco de betão da Ponte da Arrábida são, em si mesmo, prodigiosos testemunhos do engenho humano.

Dimensão arquitectónica

Mas há também muito de "arquitectónico" na obra de Edgar Cardoso, se podemos dizer assim, o que aliás perpassa nos belos desenhos de Aristides Fernandes, colaborador de cinco décadas.

Podemos ligar a Ponte da Arrábida (um projecto de 1955) ao modo como a arquitectura moderna se revela finalmente nas cidades e na cultura portuguesa nos anos 1950; e a Ponte de S. João (um projecto de 1983) ao modo como nos anos 1980 e 1990 há um reinvestimento nas formas puras ou minimalistas de certa arquitectura da primeira metade do século XX. Não é que Edgar Cardoso tivesse estas preocupações, certamente que não as teria; mas é um facto que estas duas obras encaixam bem na atmosfera arquitectónica dos respectivos anos.

Assim como a Ponte de Santa Clara, em Coimbra (um projecto de 1950), nos remete para as obras de Oscar Niemeyer, como se sabe muito marcadas pelo trabalho dos engenheiros e pela nova plasticidade possibilitada pelo uso do betão.

Por outro lado, há também uma lógica telúrica muito arquitectónica nas suas obras. "Em todos os rios existia um local que fora feito para fazer uma ponte. Era preciso encontrá-lo", escreveu Edgar Cardoso. O que é muito reminiscente das teorias do genius loci, do "espírito do lugar", caras à cultura arquitectónica dos anos 1960 e 1970. E, de facto, nos lugares, ou em fotografias áreas, podemos verificar o impressionante acerto topográfico e sentido de pertença das suas pontes. É por muitos dos seus alunos relatada a preocupação e a insistência do professor com a "escala" e a "ordem de grandeza", que são também temas eminentemente arquitectónicos.

Edgar Cardoso pertence a um tempo em que a engenharia, como tudo o resto, podia ser praticada com maior romantismo e maior liberdade face ao cumprimento de regras ou regulamentos em vigor. A Ponte de S. João é disso um exemplo, e também por isso a execução da obra está cheia de peripécias que culminarão com a ausência do projectista na inauguração. Os sete anos em que decorre a construção são dignos de um filme, com a permanente dúvida quanto ao fecho da ponte, que depende da boa saúde de Edgar Cardoso, a polémica quanto aos métodos estruturais e orçamentos, até à discórdia quanto à inauguração, que considera prematura.

Como acontece muitas vezes entre nós, a vida e a obra de Edgar Cardoso cruzam-se também com a própria história do final do império. É um homem de uma globalização avant la lettre, construindo em Angola, Moçambique, Guiné, Goa, Macau, Brasil e Costa Rica. Agora, que os investigadores das escolas de arquitectura estão a fazer importantes levantamentos sobre o período colonial, nomeadamente nas últimas décadas do império, seria interessante cruzar essa informação e levantar também as obras de Edgar Cardoso, e de outros engenheiros, nesse contexto.

Há também a faceta do inventor: do "Autoinfluenciógrafo Mecânico-electrónico" (1968) - cujo nome é já uma invenção assinalável - ou a Máquina Fotográfica Panorâmica (1973), que permite fotografar continuamente, sem distorção de verticais, ou os famosos ensaios em "modelos reduzidos".

Hábitos rigorosos

Edgar Cardoso, conta-nos Carlos Ferraz, tinha um horário intenso de trabalho com intervalos para as refeições que eram escrupulosamente cumpridos, e foi assim sempre nas várias décadas em que trabalhou entre os anos 1930 e anos 1990.

Pernoitava na casa que tinha em Goa, de onde a família tinha origem, pelo lado dos Cardosos, a caminho de Macau onde estava a construir a ponte Macau-Taipa (inaugurada em 1974); anos antes, a caminho de Moçambique, onde construía, entre outras, a ponte sobre o rio Zambeze, em Tete, aproveitava a escala da TAP em Angola para acompanhar alguma obra. Era um homem cosmopolita, que se sentia intensamente português.

O Gabinete de Engenharia Edgar Cardoso, diz-nos Carlos Ferraz, mantém o projecto de pontes como o core business da empresa. No tempo do projecto da Ponte de S. João não havia naturalmente a tecnologia computacional que hoje existe. E, por isso, os "modelos reduzidos" que Edgar Cardoso já era conhecido por usar foram essenciais para a condução da obra. Mas ainda hoje a sensibilidade física que o uso de "modelos reduzidos" potencia não é negligenciável.

Fala-se de Edgar Cardoso como o maior engenheiro português do século XX; Carlos Ferraz conta-nos que o professor foi auscultado para construir uma ligação entre a Itália continental e a Sicília, ou no estreito de Gibraltar.

Em qualquer dos casos, o "diálogo" entre a Ponte de Maria Pia e a Ponte de S. João é uma das marcas mais eloquentes da urbanidade portuguesa. Entre a filigrana de ferro e a "pintura" de betão, entre o sombrio metálico e uma luz branca e esguia, são duas pontes terrivelmente elegantes, aparentadas na inteligência aliada à beleza, embora distantes de um século.

Chegando ao Porto pela Ponte de Arrábida, podemos perscrutar o edifício da Faculdade de Arquitectura, de Álvaro Siza, lá em baixo. Nestas duas obras de engenharia com arquitectura e arquitectura com engenharia, estamos perante o melhor da urbanidade alcançada na paisagem portuguesa na segunda metade do século XX.

Carlos Ferraz fala-nos ainda da estrutura "lindíssima" projectada por Edgar Cardoso para a réplica do Padrão dos Descobrimentos, com a arquitectura de Cottinelli Telmo e escultura de Leopoldo de Almeida. A engenharia, especialmente a de Edgar Cardoso, decorrendo do engenho, da economia e da matemática, não deixa de ter muitos segredos por descobrir.