Na sua última assembleia, Rio falou de um Porto que a oposição não encontra

Balanço positivo feito pelo autarca foi contestado pelo PS, CDU e Bloco de Esquerda. Rio começou por dizer que nem queria falar

Foram precisos 40 minutos e a ameaça da CDU de abandonar a sessão de anteontem à noite da Assembleia Municipal do Porto (AMP) para que o presidente da câmara, Rui Rio, concordasse em fazer o habitual balanço trimestral da actividade e situação económica da autarquia.

Naquela que terá sido a última assembleia a que assistiu como presidente, Rio descreveu um Porto que PS, CDU e Bloco de Esquerda (BE) não conseguem descortinar.

"Há com certeza dois Portos. Um onde vive o doutor Rui Rio e outro onde vivo eu", disse ao presidente de câmara o líder da bancada socialista, Gustavo Pimenta.

Rio tardou em iniciar o seu discurso - alegando que preferia responder a perguntas dos deputados, por não ter nada de novo a dizer -, mas, depois, falou durante 45 minutos.

Nas contas, Rui Rio realçou a queda da dívida bancária (que se situa nos cem milhões de euros), a redução no prazo de pagamento a fornecedores, a diminuição dos encargos com horas extraordinárias (que desceu de 5,5 milhões, em 2002, para 250 mil euros, dez anos depois) e a redução do número de funcionários, que passaram de 3431 em 2002, para 2556, em 2013.

Sem se impressionar com os números, José Castro, do BE, instou o presidente a falar dos dados "escondidos". "Fala em cortes de pessoal, mas os custos estão sempre, sempre nos 62, 63 milhões de euros. Como é que isto se explica?", questionou. Castro acusou ainda Rio de ter um orçamento curto (178 milhões, em 2013, contra 250 milhões, em 2002) e de não realizar investimento. "Sem investimento não há progresso", proclamou.

Num balanço que foi muito para lá do trimestre, Rui Rio destacou o trabalho desenvolvido na reabilitação dos bairros e escolas, na animação e na mobilidade. Revelando que, em breve, estará nas livrarias uma obra com o cunho camarário sobre as transformações do Porto no início do século XXI, o autarca disse aos deputados: "A transformação que a cidade teve é brutal. Não há na história da cidade nenhum momento em que tenha havia uma transformação tão grande em 14 ou 15 anos", disse.

Pode ser, admitiu Artur Ribeiro, da CDU, mas não por mérito do autarca. "O senhor reduziu a dívida num terço, mas quais foram os investimentos? Obra sua, nos últimos 12 anos, não há nada", disse o comunista, rematando: "O senhor fez uma gestão miserável do Porto".

A avaliação do PS não foi mais benevolente. Gustavo Pimenta disse que onde Rui Rio via casas reabilitadas ele só via "prédios entaipados", dezenas dos quais "propriedade da câmara". O socialista acusou ainda o autarca de se ter "conformado" com a sentença do Parque da Cidade e criticou-o por dizer que, se tivesse mais tempo na câmara, reabilitaria primeiro o Palácio de Cristal e não o Mercado do Bolhão. "O Palácio não está a cair e o Bolhão está em ruínas. Aliás, foi o senhor que o mandou escorar. E é preciso ter em conta quem trabalha naquelas condições", disse.