João Sousa: Chegou ao top para ficar

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João Sousa tem 24 anos e é, neste momento, o tenista português mais bem classificado no ranking ATP (77.º) ENRIC VIVES-RUBIO

O melhor tenista português continua a progredir no circuito mundial e a confirmar que a decisão de, há dez anos, trocar Portugal por Espanha foi a mais acertada.

Tudo começou quando tinha sete anos e começou a acompanhar o pai. "O João ia comigo para o clube, pegava na raqueta e pu-lo a ter aulas com Luís Miguel Coutinho e... pegou o vício", explicou Armando Marinho de Sousa, juiz de profissão e tenista autodidacta. O pequeno João foi evoluindo e em 2001 conquistou o Campeonato Nacional de menores de 12 anos. "A pretensão era que ele jogasse o mais possível, com a ideia de entrar na universidade, na área de Ciências da Saúde, e estou convencido de que se ele não tivesse seguido a carreira de tenista iria ser médico", frisou o pai. Mas, aos 14 anos, veio a decisão peremptória de ser jogador profissional. E hoje, com 24 anos, João Sousa faz parte da elite do ténis mundial.

Nesse campeonato nacional sub- 12, João ganhou, na meia-final, a Gastão Elias, de quem já toda a gente falava e que era uma referência para todos os da sua idade. "Ele aí percebeu que tinha capacidade e começou a treinar mais um bocadinho", adiantou o pai. Não concordando totalmente, João admite: "É óbvio que foi uma vitória muito importante porque ninguém me conhecia e toda a gente conhecia o Gastão como futura promessa do ténis nacional! Lembro-me que depois de vencer o Gastão todas as pessoas que lá estavam presentes me olhavam de forma diferente, como se tivesse feito alguma coisa impossível!"

Mais tarde, foi incluído no Centro Nacional de Treino, na Maia. Com o encerramento do centro e a falta de jogadores de bom nível no Norte do país com quem treinar-se, veio a decisão de emigrar. João, fã de Juan Carlos Ferrero, Pete Sampras e Roger Federer, mudou-se para Barcelona, para a Federação Catalã de Ténis, em regime de internato. Um ano depois, seguiu o treinador Álvaro Margets para a Academia BTT (Barcelona Total Tennis) - de onde tinha boas referências, através de Rui Machado, antigo "inquilino" - sob a supervisão de Francis Roig (que pontualmente viaja com Rafael Nadal em substituição do seu treinador e tio, Toni Nadal) e foi viver para casa de uma família espanhola.

"Foi muito difícil, por tudo. Claro que a dificuldade financeira pesou, mas quando se quer, tudo se consegue e nós empenhámo-nos. Mas, essencialmente, por ele ter apenas 15 anos e ir viver sozinho para outro país. A mãe ficou muito chorosa. Eu fui com o João e o Luís Miguel Coutinho a Espanha e ver onde e como ele podia ficar. Começámos a preparar a ida, mas pensámos que daí a 15 dias voltava, tínhamos essa esperança. O Margets era como o pai dele, estávamos seguros nessa parte, não lhe ia faltar nada. Fizemos umas recomendações e impusemos que continuasse os estudos; se chumbasse, fazia as malas. Não só foi regular, como foi um brilhante aluno", lembra o pai.

Com 16 anos, viveu com mais dois jogadores num apartamento onde a mãe deixava a comida para 30 dias, dividida em Tupperwares. Emprestaram-lhe uma bicicleta para ir até ao comboio, no qual percorria 20km até à academia. As saudades da família eram atenuadas com algumas visitas do pai, da mãe, Adelaide (bancária), e do irmão, Luís (estudante).

"Íamos com relativa frequência, de carro (ainda não havia "low costs") e falávamos todos os dias. Andava satisfeito, mas mais tarde confessou que chorava muitas vezes. Mas nunca havia uma lágrima quando estávamos juntos. Gostava muito de ténis e foi isso que o aguentou", frisou Armando Sousa, também ele campeão nacional, de veteranos, pelo Clube de Ténis de Guimarães, nos escalões etários de +35 e +45.

Apesar das dificuldades iniciais, João não está arrependido da decisão. "Era consciente de aquilo com que me iria deparar e obviamente a distância da minha família e dos meus amigos foi muito dura! Até me habituar à língua e começar a conhecer algumas pessoas foi muito difícil para mim! Hoje em dia atrevo-me a dizer que existem poucas coisas que me possam surpreender".

A ligação à família é mantida todos os dias, por Skype ou SMS. Só raramente é que tem os familiares a visitá-lo num torneio no estrangeiro. "Quando ele ganhou a primeira ronda do Open dos EUA, fui logo ver os aviões, mas o preço colocou-me no sítio. No ano passado, fui a Roland Garros, com o Luís...", revelou o pai.

Até aos 14 anos, João estudava, jogava ténis e futebol, à esquerda, no Vitória de Guimarães e Os Sandinenses. Mas mesmo antes de ir para Espanha, decidiu apostar no ténis a 100%, já que ambos eram difíceis de conciliar. No entanto, a paixão pela modalidade e pelo seu clube mantém-se bem acesa, ajudando-o a manter uma forte ligação à terra natal. "Sigo o meu Vitória de Guimarães esteja onde estiver e sempre que posso acompanho os encontros pela Internet! Penso que a nova incorporação do Maazou foi uma opção acertada pelo clube", adiantou o adepto vimaranense, que tem como outros passatempos ler, ir ao cinema e estar com os amigos.

Empréstimo bancário

O esforço familiar implicou um empréstimo bancário e, embora sem falar em números concretos, Armando Sousa sempre adiantou que uma "academia que custe menos de três mil euros não tem qualidade". "A pior coisa que me podia acontecer era não ter capacidade financeira para fazê-lo cumprir o seu sonho. Ele pagava menos que qualquer atleta, mas tinha direito a treino personalizado, além de viagens, alimentação, estadia..."

Este ano, com a entrada em muitos torneios do circuito principal, as receitas aumentaram e João Sousa já ganhou mais de metade dos prémios monetários auferidos em toda a carreira, cerca de 408 mil euros - brutos, pois, em média, 30% ficam no fisco do país onde se realiza o torneio, além das outras despesas inerentes, como viagens, treinadores, etc. "Quando ele andava nos challengers ainda tinha prejuízo e tínhamos de o ajudar. É que o João não tem um patrocínio que seja e só assim é que poderia ter uma equipa técnica própria", explica o pai.

A vida diária ficou mais fácil quando João partilhou o apartamento com Frederico Marques, três anos mais velho, e que, desde Maio, é o treinador que o acompanha no circuito. "Quando cheguei ao BTT, o Frederico era mais um jogador que aspirava a ser profissional de ténis. Mais tarde, optou por dedicar-se ao ensino. Já conhecia o Frederico de Portugal, mas foi no BTT que a nossa relação se aproximou e nos fizemos muito amigos! Mais tarde optámos por trabalhar juntos e estou muito contente", conta o tenista.

Cumprindo o desejo parental, João prosseguiu os estudos até terminar o ensino secundário. E o seu ténis, que já tinha como pontos fortes o serviço e a direita, foi ficando cada vez mais completo, graças ao trabalho físico e mental. "Quando ele estava aqui, eu exigia muito e pressionava-o com o comportamento e não estou arrependido. Quando tinha nove anos, jogou um torneio na Foz. Cheguei um pouco mais tarde e observei-o: abanava a cabeça. Perguntei o resultado e disseram-me que estava a ganhar por 6-0 e que estava sempre a zangar-se... Ainda hoje, não é um atleta para estar calado no campo", garante o pai.

Pedro Cordeiro, capitão e seleccionador da Taça Davis desde 2005, conhece João Sousa há muitos anos. "Lembro-me de o ver nos campeonatos mais jovens e já se destacava. Notava-se uma vontade enorme, era muito competitivo, mesmo noutros jogos, um pouco emotivo também". Após uma conversa com o pai sobre a sua disponibilidade para viajar com o João, o seleccionador passou a acompanhá-lo a algumas provas. "Sempre o vi com uma enorme vontade de trabalhar, numa altura em que estava a amadurecer, fruto do desenvolvimento e de mais experiências nos challengers. Hoje, está mais adulto, experiente, o que também se repercute no jogo dele, enerva-se muito menos, tem mais confiança e está mais tranquilo. Ainda por cima, está numa idade com grande margem de progressão", frisou Cordeiro.

Sempre que foi chamado para a Taça Davis, Sousa nunca desiludiu. "Na minha selecção não há líderes, é uma equipa, mas ele tem dado sempre o máximo, como é, aliás, a sua forma de estar e na Davis não foge à regra", acrescentou Pedro Cordeiro.

Pressão sentiu também João quando, em Julho, foi o cabeça de cartaz do Guimarães Open, um evento criado à volta do seu prestígio. Sousa actuou sempre com as bancadas do court central do Open Village Sports Hotel & Spa Club totalmente cheias, mas terminou a semana invencível, somando um quinto título challenger - a juntar aos sete futures. "Portugal não me dava aquilo que Espanha me deu, mas não esqueço as minhas origens, nem as minhas raízes aqui em Guimarães", disse, após erguer o troféu.

O histórico Open dos EUA

Em 2012, Sousa entrou no top 100 (Outubro), foi quarto-finalista de um ATP World Tour, no Portugal Open, estreou-se na selecção da Taça Davis e acedeu ao quadro principal de um torneio do Grand Slam, ao ultrapassar o qualifying em Roland Garros.

Já este ano, entrou directamente noutro major, na Austrália e - depois de estar parado todo o mês de Abril devido a uma fractura do pé esquerdo (bateu contra o poste de suporte da rede no aquecimento do treino da selecção) - no último Open dos EUA, conseguiu o feito inédito de ganhar a dois adversários bem cotados (29.º e 41.º), ambos em cinco sets, antes de ceder diante do número um mundial, Novak Djokovic.

"Penso que todas as vitórias da minha carreira foram bons momentos para mim! As vitórias em torneios importantes ou contra jogadores favoritos sabem sempre melhor e atrevo-me a dizer que a vitória sobre o [Grigor] Dimitrov este ano no US Open foi um motivo de muito orgulho para mim, pelo facto de ter jogado espectacularmente bem e por ter vencido o meu primeiro encontro em cinco sets! Por outro lado, o encontro frente ao Djokovic no Arthur Ashe Stadium completamente cheio foi algo inédito! É algo que fica marcado na memória para sempre!", garantiu Sousa.

Na semana passada, cumpriu uma nova etapa ao chegar pela primeira vez às meias-finais de um torneio do ATP World Tour, em São Petersburgo. Esta semana surge no 77.º lugar do ranking ATP, a sua melhor classificação de sempre. Mas como tem somente 40 pontos a defender até final da época, a sua ascensão na hierarquia mundial pode não ficar por aqui.

"O meu principal objectivo para este ano é figurar no top 100, jogando os melhores torneios e defrontando-me com os melhores do mundo! Uma vez que, em princípio, mesmo não defendendo os 40 pontos, estaria nesse lote dos 100 primeiros, o objectivo passa, numericamente falando, por poder permanecer no top 80", disse.