Gás natural mais caro inibe investimentos e exportações na indústria de cerâmica

Associação do sector aponta críticas aos preços praticados pela Galp mas também à actuação da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos.

Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

A associação representativa das indústrias de cerâmica (APICER) afirma que os preços do gás natural têm subido continuamente desde a "pretensa liberalização" do mercado, pondo em causa investimentos e exportações.

"Estamos a pagar o gás natural mais caro que a Espanha, Itália e França, tem sido sempre a subir depois da pretensa liberalização do mercado. Isto é absolutamente decisivo, sei que há investimentos estrangeiros que podem estar em causa por causa disto", disse à agência Lusa Duarte Garcia, presidente da APICER.

O dirigente aponta críticas aos preços praticados pela Galp mas também à actuação da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

"Os senhores da Galp enchem os bolsos à custa do sacrifício da economia portuguesa e a ERSE não devia permitir que haja um comercializador que tem 95,7 por cento do mercado. Eles vão dizer que não mas é o que consta das estatísticas da União Europeia", acusou Duarte Garcia.

"E Portugal tem comprado gás natural mais barato que os nossos concorrentes, aí há mérito da Galp. Mas vende mais caro. Pelo menos deixem-nos estar em linha com os países que são nossos concorrentes", pediu Duarte Garcia.

O presidente da APICER deu o exemplo do subsector da loiça utilitária e decorativa - em que o nosso país é líder europeu e segundo classificado a nível mundial - que emprega "muita mão-de-obra" e onde o volume de exportações cresceu.

"O que não teria acontecido se o gás natural estivesse mais barato? E em seis anos fecharam várias fábricas que representavam mais de mil postos de trabalho. Se os preços do gás descessem talvez fosse possível recuperá-las", disse.

Adiantou ainda que a associação tem falado "insistentemente" com o Governo, "desde há dois anos a esta parte", e também com a ERSE e outras entidades no sentido de resolver o problema.

"Ainda há 15 dias falámos com o novo ministro da Energia. Gostei da abordagem dele, entusiasmou-me, é um profundo conhecedor do dossier, mas ainda não teve tempo de fazer nada", frisou.

Por outro lado, segundo Duarte Garcia, o preço do gás natural é uma "componente decisiva" na atracção de investimento estrangeiro.

"O que acontece é que, com estes níveis de preços, os estrangeiros vêm cá comer amêijoas mas não vêm fazer negócio", ironizou.

O dirigente da APICER frisou ainda que o subsector da loiça decorativa ganhou, recentemente, uma queixa anti-dumping contra a China nas instituições europeias, o que faz com que a importação de produtos chineses passe a ser taxada nos próximos 10 anos.

"A oportunidade de comprar loiça barata da China acabou. Há aqui uma janela de oportunidade para as nossas exportações, mas tem de ser agora", alegou Duarte Garcia.