Um lançamento exemplar

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Há notícias que passam tristemente despercebidas, e no entanto dizem mais sobre este país do que uma resma de relatórios do FMI. Veja-se o caso do lançamento do livro Bragaparques: A Hora da Verdade (edição Alêtheia), ocorrido na semana passada, em Lisboa. Por uma imperdoável distracção, as televisões estiveram ausentes, tal como a maior parte dos jornais, mas o Diário de Notícias fez um pequeno artigo de rodapé sobre o evento, sintomaticamente intitulado "Bloco central ao lado de Domingos Névoa". Começava assim: "Foi numa sala do Hotel Plaza recheada de figuras ilustres, entre os quais Fernando Seara, candidato social-democrata à Câmara Municipal de Lisboa, e João Soares, ex-presidente da autarquia, que se deu o lançamento do livro de Domingos Névoa, Bragaparques - A Hora da Verdade."

É uma pena o artigo não ser mais detalhado sobre quem eram essas "figuras ilustres". Nas fotos vislumbrei Zita Seabra (editora da Alêtheia); João Soares, responsável pela apresentação do livro; Fernando Seara, que interrompeu a sua campanha de abraços de rua para ir dar um abraço indoor a Domingos Névoa; e o padre Vítor Melícias, que continua a ter o círculo de amigos menos franciscano do planeta. Mas havendo por ali um empresário condenado, uma antiga militante comunista que virou à direita, um ex-autarca do PS, um candidato a autarca do PSD, e um sacerdote, já conseguimos compor uma espécie de painéis de São Vicente do centralismo nacional, cada um ajoelhado ao respectivo interesse.

O prémio "Domingos Névoa É o Maior" vai, contudo, para João Soares - ele que a páginas 98 de Bragaparques - A Hora da Verdade é classificado como "o melhor presidente da Câmara de Lisboa da sua geração" e "um trabalhador incansável e um político com uma visão de Portugal e do Mundo como existem poucos". Como amor com amor se paga, João Soares não se limitou a meras palavras de ocasião e a fazer aquela favorzinho meio embaraçoso de apresentar um livro que não teve coragem de recusar. Nada disso. Soares levou a tarefa a peito: segundo o relato do DN, o ex-presidente da câmara classificou Névoa como "um homem de honra, de família", "um trabalhador incansável" (é preciso um trabalhador incansável para reconhecer outro trabalhador incansável) e - a minha parte favorita - uma pobre vítima da "sociedade de espectáculo", ao qual foi colocado "um labéu difamante".

Ora, se calhar convém recordar que este "labéu difamante" foi colocado a Domingos Névoa em 2012 por uma instituição chamada Supremo Tribunal de Justiça, que o condenou por corrupção activa. Não sei se João Soares classifica os acórdãos dos supremos tribunais como fazendo parte da "sociedade do espectáculo", nem que nome dá ao facto de uma figura pública da sua dimensão, que fechou avultados negócios com a Bragaparques enquanto autarca de Lisboa, vir agora apresentar um livro que mais não é do que uma tentativa de branquear, ainda por cima de forma canhestra, um acto que a justiça considerou criminoso. Soares, Seara ou Melícias têm todo o direito de serem amigos de Domingos Névoa, que por sua vez pode perfeitamente ser um encantador "homem de família". Mas há actos públicos que têm consequências, e andar pelas televisões a protestar contra as injustiças nacionais e depois ir para hotéis de charme fazer a apresentação de livros de milionários condenados por corrupção é uma hipocrisia que dá a volta ao estômago a qualquer um.

Jornalista [email protected]