António Ramos Rosa e a liberdade da palavra poética

Gastão Cruz, poeta e crítico, analisa a importância do seu mestre de Faro

Convém, nestes tempos de relativa amnésia, começar por dizer que a intervenção de António Ramos Rosa no quadro da poesia portuguesa, quer como poeta, quer como crítico e ensaísta, o coloca na primeira linha dos que marcaram de forma absolutamente decisiva a segunda metade do século XX.

Afirmá-lo não é coisa pouca, quando pensamos num período em que existe a forte presença de algumas das figuras maiores de toda a nossa literatura, particularmente no âmbito da poesia.

Na verdade, surgindo de forma fulgurante em 1951, nas "folhas de poesia" Árvore (1951-1953), com o emblemático poema "Viagem através duma nebulosa", um pequeno ensaio sobre René Char e várias traduções de poemas deste autor, e ainda com recensões de livros acabados de sair, entre os quais As Palavras Interditas, de Eugénio de Andrade, Corpo Visível de Mário Cesariny e Coral de Sophia de Mello Breyner, Ramos Rosa tornou-se, de imediato, aos vinte e sete anos, um autor central na poesia portuguesa.

O modo como entendeu a grande mudança que se passara, e estava a passar, na poesia, fez dele o crítico e ensaísta mais agudo e influente do seu tempo.

A defesa daquilo que ele designaria como "poesia moderna", numa época em que eram ainda frequentes as polémicas sobre o assunto, e muitos se recusavam a aceitar as importantes inovações aparecidas, sobretudo, a partir do Modernismo, deu-lhe um lugar proeminente e tornou-o numa espécie de exemplo para as novas gerações, quer a dos poetas que se foram afirmando no final dos anos 50, quer a dos que surgiram no começo da década seguinte.

Uma parte substancial desse pensamento poético inovador e de toda uma teorização feita no sentido de explicar a evolução da linguagem da poesia, ao longo do século XX, foi reunida, em 1961, no volume de ensaios Poesia, Liberdade Livre, porventura o mais importante livro, no domínio ensaístico, para se compreender a nova visão da poesia que vinha a impor-se, no panorama pós-presencista.

António Ramos Rosa instaura, aí, um conceito de linguagem que altera, por completo, a perspectiva conservadora que se tinha reinstalado no mundo poético e crítico, propondo a substituição da obediência a uma lógica convencional por uma "liberdade livre", que permitisse ao poeta privilegiar a "significação poética". O sentido do poema não teria, portanto, que ver com quaisquer normas que inviabilizassem o pleno uso da imaginação.

Passando a um plano mais pessoal, o facto de António Ramos Rosa ser, como eu, natural de Faro, e nessa cidade termos convivido algum tempo, até à minha partida para Lisboa, onde vim frequentar a Faculdade de Letras, teve, evidentemente uma enorme importância na minha vida. Entre 1958 e 1960, ele esteve no centro de uma intensa actividade poética, dirigindo, com Casimiro de Brito, os Cadernos do Meio-Dia, em cujos cinco números foram publicados poemas de quase todos os principais poetas em actividade, e também a colecção A Palavra, uma série de plaquettes, a primeira das quais foi O Grito Claro, conjunto de poemas com que o próprio Ramos Rosa se estreou. A Tipografia Cácima, em Faro, onde tudo isso foi impresso, seria igualmente o local da produção gráfica de Poesia 61.

Quando, na Faculdade de Letras, em 1958, conheci a Fiama e a Luiza Neto Jorge, elas quiseram ir comigo a Faro conhecer o poeta com quem tanta afinidade tínhamos, ou desejávamos ter. No velho Café Aliança, por onde também andava o Zeca Afonso, então professor na Escola Comercial, tivemos esse encontro.

Se havia um mestre de poesia, ele estava ali, com a sua imensa modéstia e generosidade. Assim o víamos e assim o líamos, o persistente defensor de uma nova e mais livre palavra poética.