A festa de despedida de Breaking Bad aconteceu uma semana antes nos Emmys

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A equipa de Breaking Bad: Emmy de melhor série dramáticaAaron Paul (Jesse Pinkman) e Bryan Cranston (Walter White): os protagonistas de Breaking Bad Jason Merritt/AFP

A série venceu o prémio de melhor drama numa cerimónia que premiou Uma Família Muito Moderna, Stephen Colbert, Jeff Daniels ou Soderbergh

Uma semana antes de se despedir para sempre, Breaking Bad (Ruptura Total), a série sobre um professor de liceu tornado fabricante de metanfetaminas, recebeu domingo à noite em Los Angeles o seu primeiro Emmy de melhor série dramática. Se alguns prémios foram episódios repetidos, como mais uma vitória na comédia para Uma Família Moderna, para Jim Parsons (melhor actor), Julia Louis-Dreyfuss (melhor actriz) ou, no drama, para Claire Danes, a noite teve surpresas q.b.: Stephen Colbert venceu Jon Stewart, Jeff Daniels bateu Bryan Cranston e a própria vitória de Breaking Bad foi inesperada.

O pequeno canal por subscrição norte-americano AMC e a equipa de Breaking Bad (foi exibida em Portugal no Mov e na SIC Radical e esta última temporada é um exclusivo TV Series) foram os grandes homenageados na noite dos 65.ºs Emmys pelo facto de, cinco anos depois da sua estreia e de tantos elogios da crítica e do público (detém o recorde Guinness de série mais bem cotada de sempre pela classificação de 99 em 100 no agregador de críticas profissionais e de espectadores Metacritic), ter finalmente sido reconhecida pela Academia de Artes e Ciências Televisivas.

Com o último episódio a ir para o ar no próximo domingo nos EUA, Breaking Bad não teve o habitual Emmy de melhor actor que Bryan Cranston recebera três vezes antes - perdeu-o para Jeff Daniels pelo seu papel como pivot televisivo na série de Aaron Sorkin The Newsroom (série da HBO, em Portugal exibida no canal TV Séries), para grande surpresa da sala, que deixou escapar uns "O quê?!". Mas teve o prémio maior, que o criador e showrunner da série, Vince Gilligan, pôs em contexto: "A televisão mudou muito em seis anos", disse nos bastidores à Variety, defendendo que "uma grande parte do que mudou é o streaming de vídeo on demand, particularmente com operações como as do Netflix, iTunes e Amazon Prime. Acho que o Netflix nos manteve no ar" - as temporadas anteriores de Breaking Bad estão disponíveis no serviço e este ano foram das mais requisitadas por quem queria pôr-se a par da série que ia terminar. "É uma nova era na televisão e tivemos muita sorte em colher os proveitos disso".

O serviço de streaming on demand Netflix foi um dos grandes protagonistas mudos da 65.ª cerimónia dos "Óscares da televisão", muito pelo facto de a sua série House of Cards, visão mordaz dos jogos de poder e de vingança na Casa Branca protagonizada por Kevin Spacey, ter feito história ao ser nomeada na categoria de melhor série dramática quando nasceu na Internet e não passou na televisão norte-americana - noutros países sem acesso ao Netflix, a série chegou aos ecrãs convencionais de televisão, como foi o caso de Portugal, via TV Séries. O Netflix lançou-se na produção de programação original no formato televisivo mas sem a plataforma "televisor" e foi reconhecido por isso - e o silêncio depois de não ter sido considerado a melhor série quebrou-se com um Emmy de melhor realização de uma série dramática para David Fincher.

Televisão e telemóveis

Em palco, Gilligan dissera já estar surpreendido porque "pensava que [o vencedor] ia ser House of Cards, ou podia ter sido Homeland (Segurança Nacional, exibida na Fox e na TVI), Mad Men (canais Fox), Guerra dos Tronos (em Portugal, no SyFy) ou Downton Abbey (Fox Life)". Voltou a falar numa "era dourada da televisão" que se continua a viver nos EUA e que o mundo continua a consumir. Claire Danes (segundo Emmy consecutivo pela segunda temporada de Homeland) continuou também a ser premiada pelo papel da agente da CIA Carrie Mathison, deixando para trás aquela que parecia ser a sua maior concorrente, Kerry Washington (Scandal, Fox). Julia Louis-Dreyfuss repetiu o Emmy de melhor actriz de comédia pelo seu papel de vice-presidente dos EUA em Veep e Jim Parsons fez o hat trick com a terceira estatueta pelo papel do físico Sheldon Cooper em A Teoria do Big Bang (AXN White).

A vitória de Uma Família Muito Moderna (Fox Life) na comédia equipara-a agora a títulos históricos da área como Cheers, aquele bar, Uma Família às Direitas ou The Dick Van Dyke Show com quatro Emmys. Esta família bateu Veep, Girls, Rockefeller 30, Louie e A Teoria do Big Bang. Nem tudo foi repetição: o Daily Show de Jon Stewart viu dez anos de hegemonia na categoria de série de variedade quebrar-se às mãos do seu congénere Colbert Report (ambos passam na SIC Radical).

Um outro produto que simbolizou mudança, Behind the Candelabra, o biopic sobre Liberace que em Portugal se estreou já nas salas de cinema mas que era "demasiado gay" para o cinema nos EUA e foi parar à HBO, foi premiado três vezes: Steven Soderbergh foi considerado o melhor realizador de uma mini-série ou telefilme, Michael Douglas o melhor actor e Behind the Candelabra foi considerado o melhor na sua categoria.

Não por acaso, na cerimónia que só premiou House of Cards numa categoria mas que celebrou a série como um marco histórico na forma como a indústria está a reagir às alterações no consumo de televisão, o anfitrião da noite, Neil Patrick Harris, lembrou que tudo está a mudar: explicou aos jovens telespectadores que televisão "é aquilo que vêem nos vossos telemóveis".