O escritor, os arquitectos e o tempo de sermos todos políticos

Gonçalo M. Tavares foi o convidado de Carlos Vaz Marques para um jantar com o tema Voltar a Ter Tempo. Falou-se de arquitectura, de privacidade, da escrita e da cidade. E da nossa liberdade de escolha. Crónica de um jantar bastante louco

Reunimo-nos no salão do marquês para ouvir o escritor falar sobre o tempo. A ideia do jogo partiu da Trienal de Arquitectura de Lisboa: ocuparmos o antigo Palácio do Marquês de Pombal, na Rua do Século, em Lisboa, jantar como no século XVIII ele terá jantado ali, discutir a cidade como ele terá discutido quando lá fora Lisboa estava ainda arrasada pelo terramoto.

Vieram muitos arquitectos para ouvir o "marquês" convidado dessa noite, o escritor Gonçalo M. Tavares. E falaram tanto quanto ouviram. A certa altura foi o escritor que ficou a ouvir, mas disse que gostava disso. "Ouvir é uma forma de observar." Serviram-nos alimentos preparados das formas mais lentas e ineficazes possível para que pensássemos no tempo. Comemos rabo e orelha de porco, habitualmente desperdiçados, provámos favos de mel feitos longamente por abelhas, e gaspacho de alcachofra, porque ela demora muito tempo a crescer. Falou-se muito - e não é fácil contar num texto tudo o que ali aconteceu.

No início as 18 pessoas naquela sala apresentaram-se, o escritor notou que havia mais do que um jornalista e confessou: "Tenho cada vez mais vontade de falar para grupos pequenos. Parece que hoje um grupo pequeno é sempre uma forma de chegar a um grande." E propôs que a cidade criasse "espaços mais fechados, limitados a todos os níveis", para que as conversas possam ser pequenas.

Falou-se da tecnologia e da atenção. "Dezoito pessoas concentradas em dar atenção umas às outras - é um mundo. Há um lado, quase afectivo, de estar apenas atento, sem projectar para outras pessoas e outros tempos." Com o telemóvel, por exemplo, há um "potencial de ausência a qualquer momento", disse o escritor. Hoje estamos presentes não onde estão os nossos pés, mas onde está a nossa atenção.

Os arquitectos ouviam o escritor, atentamente. Serviram-nos caldo verde desconstruído, com cada elemento tratado com uma técnica diferente de preservação de alimentos. Falou-se das máquinas.

Um arquitecto, Pedro Campos Costa, explicou como o aparecimento do frigorífico tinha alterado a vida nas cidades e, em parte, matado os mercados. Mas não tinha afectado a nossa atenção. Esta, disse, "é uma qualidade que a tecnologia não pode destruir". Pode não parecer - porque 18 pessoas que não se conhecem a falar à volta de uma mesa é sempre uma conversa que se vai desenhando por tentativas, avanços e recuos - mas estávamos a falar sobre o tempo.

A tecnologia liberta-nos de tarefas perigosas, manuais, repetitivas e deixa-nos mais tempo. Uma arquitecta, Ana Vaz Milheiro, falou na "utopia da tecnologia" e da criação de uma sociedade em que as pessoas seriam libertadas de determinadas funções, e lembrou como é recente "a noção do futuro como algo luminoso". E o escritor contou a história do aprendiz de feiticeiro que aprende a palavra para fazer a magia, mas esquece-se de aprender a palavra para fazer parar a magia.

Ou talvez a tecnologia não nos tenha libertado. Afinal, não dizemos todos que não temos tempo para nada? O que fizemos ao tempo que libertámos? Não é verdade que os nossos avós perdiam horas a cozinhar e nós não? Será que temos menos tempo porque temos mais ambição?, perguntou Carlos Vaz Marques, o moderador. Porque queremos mais coisas? E porque queremos mais não sabemos exactamente o que queremos e no final aborrecemo-nos.

Pensar que somos mais ambiciosos e que as nossas expectativas são mais altas do que as dos nossos avós é cometermos uma injustiça, comentou Ana Vaz Milheiro. "O homem sempre teve grandes expectativas. A arquitectura é de uma ambição total." A diferença talvez, tentou o escritor, é que hoje contactamos com muito mais imagens e muito mais pessoas durante a vida. "Vemos uma imagem e sabemos que vamos ver outra a seguir, conhecemos uma pessoa e sabemos que vamos conhecer outra. E pensamos que é sempre a imagem seguinte, a pessoa seguinte, a que vai salvar-nos."

E, afinal, queríamos mesmo libertar-nos do trabalho? "Há pessoas que querem ser comandadas, que não querem decidir", disse o escritor-marquês. As decisões humanistas nem sempre o são. Contou a história da lei que no Texas proibiu o lançamento de anões por canhões e de como foram os próprios anões que se opuseram a ela. E depois disse uma frase que provavelmente o marquês de Pombal não teria dito: "O humanismo extremo é perguntar: o que é que tu queres?"

E a arquitectura é sempre humanista? Pergunta sempre aos outros: "O que é que tu queres?" O escritor ficou a ouvir porque os arquitectos tinham opiniões diferentes. Alguns falaram da importância do trabalho com as comunidades, com os bairros, ouvir as pessoas que vão habitar a arquitectura (porque esta, por natureza, é impositiva, não podemos evitá-la como fazemos, por exemplo, à literatura de que não gostamos - embora, reflectiu o escritor, uma montanha seja impositiva, mas aceitamos melhor as imposições da natureza do que as de outros sujeitos).

Quem decide o que é boa literatura?, perguntou Vaz Milheiro ao escritor. Ele disse que confiava nas escolhas das gerações anteriores, no cânone formado ao longo do tempo. Ela sorriu, porque falava de literatura, mas na verdade estava a falar de arquitectura e queria dizer que temos de olhar e ouvir os grandes arquitectos do passado para saber o que é arquitectura.

Todos reconhecemos que se há alguma coisa verdadeiramente lenta é a arquitectura. Mas depois os arquitectos discordaram outra vez. A arquitectura pode ter uma visão, projectar um futuro, disse Pedro Campos Costa. Podem-se antecipar pequenas mudanças, concordou Mariana Pestana, curadora da Trienal. "Querem que a arquitectura seja uma redenção social. Não pode ser", rebateu Ana Vaz Milheiro.

O escritor, Gonçalo M. Tavares, falou de novo para contar que as páginas que escreve a correr - e escrever é cada vez mais uma actividade física para ele - são as melhores. Há uma velocidade primeiro, e um tempo lento que vem depois ao trabalhar o texto. Trabalha isolado várias horas todos os dias. Para isso tem de dizer não a muitas coisas. Quem diz que não tem tempo hoje é porque está baralhado, não sabe o que escolher e dispersa-se por mil coisas. "Há sempre urgências, uma sedução do dia. Se a pessoa não tem a cabeça forte ou é arrasada, ou passa 20 anos a fazer coisas tontas." E não é preciso estar sempre a dizer que não. "Basta dizer um sim", revelou o escritor. Os mil nãos a todas as outras pequenas seduções estão contidos nesse sim.

Outro arquitecto, Pedro Bismark, disse, para terminar, que precisamos de tempo para sermos políticos. "O tempo que está em falta é o tempo da política, o tempo da cidade, que usamos para falar dos nossos destinos comuns." Dizer que não temos tempo é enganarmo-nos. É não fazemos uma escolha. O café deste jantar foi um elogio da lentidão: demorou sete horas a fazer. E, no entanto, bebemo-lo.

Nota:Os jantares da Trienal de Arquitectura realizam-se todas as 5ª, 6ª e sábados, até 15 de Dezembro. Aos sábados o anfitrião é o jornalista Carlos Vaz Marques, que tem sempre um convidado diferente para falar sobre Lisboa. Os menus são concebidos pelo Center for Genomic Gastronomy e são preparados pelas escolas de Hotelaria e Turismo de Lisboa, Setúbal e Estoril.