António Mosquito recebe hoje luz verde para dominar a Soares da Costa

Assembleia geral do grupo nortenho vota esta tarde a aquisição de 67% do capital da construtora pelo empresário angolano, que tem outros interesses em Portugal, nomeadamente nos media

A assembleia geral extraordinária do Grupo Soares da Costa (GSC) que se realiza hoje ao início da tarde, no centro do Porto, tem apenas um ponto na agenda: a entrada de António Mosquito no capital da construtora.

A partir desta segunda-feira, o empresário angolano tem o caminho aberto para dominar a empresa de construção, principal fonte de rendimentos do grupo nortenho, pagando 70 milhões de euros em troca de 66,7% do capital. A Investifino, de Manuel Fino, que comprou o GSA à família Soares da Costa em 2006, ficará com a sua posição diluída (passa a minoritária, contra os actuais 71%), tal como a Parinama, de Ana Maria Caetano (filha de Salvador Caetano), e os pequenos accionistas.

Em troca, ganham, por via de um aumento de capital, a liquidez necessária à sobrevivência da construtora Soares da Costa e do próprio grupo. Com esta operação, há também uma divisão das áreas de negócio. António Mosquito passa a dominar a construtora nos mercados onde esta opera, à excepção dos Estados Unidos, e o grupo mantém os 100% que já detém na área imobiliária, concessões e energia.

De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO, até ao momento, António Mosquito ainda não deu indicações sobre que empresa é que irá utilizar para entrar no capital da construtora. Para já, e antes que o negócio esteja formalmente concluído, falta ainda a assinatura do contrato (que irá ter lugar pouco tempo após a assembleia geral), e o consentimento dos bancos que estão ligados ao processo de recuperação financeira do grupo, como é o caso do BCP, CGD, Banif, Banco Popular e Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo. O aumento de capital, a ser realizado por António Mosquito, era, aliás, uma das condições inerentes ao acordo que o GSC celebrou com seis instituições financeiras em Novembro do ano passado, e que permitiu a reprogramação dos respectivos endividamentos bancários. Agora, com a mudança de controlo accionista na construtora, os bancos também têm de ser consultados sobre o negócio.

Depois disso, falta ainda saber se operação precisa ou não de passar pela análise da Autoridade da Concorrência. Todas estas fases deverão ser resolvidas rapidamente, já que as partes envolvidas esperam que tudo esteja concluído antes do final do ano.

Mercado africano

Até agora, o empresário angolano ainda não tem grandes negócios em Portugal, não obstante ser dado como interessado na Controlinveste (dona do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF). Mas mesmo a partir do momento em que controle a Soares da Costa (a marca fica com a construtora), é em Angola que está a principal fonte de receitas.

Em 2012, a construção teve um peso de 78% no volume de negócios do grupo. E, na construção, Angola (na qual a empresa entrou em 1980, ainda durante a guerra civil), teve um peso de 44,1%, atingindo os 353,5 milhões de euros (mais 8% do que em 2011). Quanto a Portugal, o segundo maior mercado, valeu 236,5 milhões (o que representou uma queda de 28% face ao ano anterior).

No final do primeiro semestre deste ano, Angola valia metade da carteira de encomendas da empresa (que tem no seu portfólio obras como as Torres Atlântico, a sede da Sonangol e a nova marginal de Luanda), num país onde a construção tem vindo a aumentar o seu peso no produto interno bruto (PIB). Outro mercado com potencial é Moçambique, onde a Soares da Costa tem também uma presença expressiva, além da expectativa de crescimento em outros países deste continente.

Enquanto accionista da Soares da Costa, António Mosquito não poderá ter outras operações que concorram na área da construção em Angola. Até agora, o empresário, através da sua empresa CCL-Construção Civil, tem feito negócios com os brasileiros da Odebrecht, como o condomínio residencial Riviera Atlântico e o Belas Shopping (ambos em Luanda). Nada o impede, no entanto, de continuar ligado ao imobiliário, ou quaisquer outros negócios. E são muitos os investimentos de António Mosquito em Angola.

Visto como independente, ao nível político, do MPLA e da UNITA, o empresário, que chegou até à Soares da Costa por via do BCP (banco mandatado para encontrar um novo investidor, e onde a Sonangol é o principal accionista), está presente em cinco instituições financeiras neste país africano.

No Banco Caixa Geral Totta de Angola, dominado pela CGD e pelo Santander Totta, detém 12%, tendo a seu lado a Sonangol (dona de 25%) e Jaime Freitas (da Cosal, representante da Hyundai, com 12%). No Banco Comercial do Huambo (província onde começou os seus negócios) tem 20%, sendo a instituição dominada por Natalino Lavrador, da família de Sebastião Lavrador (accionista com 5,5%), ex-governador do Banco Nacional de Angola e parceiro de Américo Amorim e Isabel dos Santos no Banco BIC.

Já no Banco Sol, orientado para as PME e inaugurado por José Eduardo dos Santos em 2001, Mosquito detém 2,92% do capital. Sebastião Lavrador também surge na lista de accionistas, com 10,4%, mas o principal accionista é a Sansul, da holding GEFI, criada pelo MPLA, com 45%. Outros 10% são da Fundação Lwini, presidida pela mulher de José Eduardo dos Santos, Ana Paula Lemos dos Santos. Segue-se o Banco Comercial Angolano, onde Mosquito é dono de 1,82%. Aqui, a estrutura de accionistas é uma autêntica lista de notáveis ligados ao MPLA. Além da GEFI, surgem nomes como os de Salomão Xirimbimbi (ex-ministro das Finanças e antigo responsável pela pasta das pescas), Fernando Van Dunen (antigo primeiro-ministro), Lopo do Nascimento (foi primeiro-ministro e é accionista da COBA), Augusto da Silva Tomás (ex-ministro das Finanças) e Marcolino Moco (também ele antigo primeiro-ministro, agora afastado de José Eduardo dos Santos). No caso do banco Keve, criado em 2003 e orientado para as PME, focando-se principalmente na província de Luanda, a participação de Mosquito deverá ser inferior a 5%.

Além da banca e da construção e imobiliário, o empresário angolano, dono do Grupo António Mosquito, está também presente na agricultura (com a Odebrecht), no petróleo (é accionista da Falcon Oil, com participações em blocos de exploração petrolífera), nas tecnologias de informação (é sócio da Novabase em Angola), nos automóveis (é importador das marcas Audi e Volkswagen via Mbakakky Veículos) e negociou com a Endiama ser seu sócio na exploração de diamantes, em substituição da portuguesa SPE (que está em litígio com as autoridades angolanas). Além disso, criou recentemente um fundo de capital de risco, a António Mosquito Capital Partners, para novos investimentos.