Morreu o escritor colombiano Álvaro Mutis

Mutis, que recebeu o Prémio Cervantes em 2001, tinha 90 anos. Não publicava desde 1993

Mutis na Cidade do México a 6 de Março de 2003
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Mutis na Cidade do México a 6 de Março de 2003 Jorge Uzon/AFP

Álvaro Mutis descreveu um dia Maqroll, a personagem errante e multifacetada que se diz representá-lo a ele: “A atitude de Maqroll poderia resumir-se numa frase assim: ‘Não aceito as coisas que me acontecem tal e como me são dadas pelo destino; quero descodifica-las instantaneamente e submete-las à minha vontade e delírio, a ver no que dão.’”

Mutis, que vivia no México há quase seis décadas, morreu este domingo às 22h20, hora de Lisboa, num hospital da capital do país. Tinha 90 anos. Pouco depois de conhecida a notícia, o seu amigo Gabriel Garcia Márquez, que o descrevia como “um dos maiores escritores do nosso tempo”, deixou no Twitter uma única palavra: “Mutis”. “Toda a Colômbia o chora”, disse o presidente Juan Manuel Santos.

Nascido em Bogotá em 1923, Mutis, que era filho do diplomata Santiago Mutis, passou parte da sua infância em Bruxelas, na Bélgica, onde o pai foi embaixador da Colômbia. Começou a sua carreira literária em 1948 com a publicação do volume de poesia La Balanza, seguido, em 1953, de Los Elementos del Desastre.

Foi antes de se tornar conhecido que viajou para o México, em 1956. Chegou ao país com cartas de recomendação do realizador espanhol Luis Buñuel e do prodotor de televisão mexicano Luis de Llano Palmer.

Três anos depois da chegada viu-se acusado de fraude pela multinacional norte-americana Standard Oil Co., onde trabalhava como relações públicas, e acabou por passar 15 meses encarcerado na prisão de Lecumberri, na Cidade do México, experiência de que nasceu o seu primeiro romance, Diário de Lecumberri, publicado em 1959.

Foi, disse o escritor, “uma lição que nunca esquecerei nas mais intensas e profundas camadas de dor e fracasso”.

Duas décadas depois, com a publicação, em 1986, do primeiro volume das aventuras de Maqroll, Mutis ganhou a popularidade que o acompanhou até ao fim, apesar de ter deixado de publicar em 1993.

Numa grande homenagem, o diário colombiano El Tiempo publica na sua edição online o que diz ser o mais recente poema conhecido do escritor, precisamente de 1993. Nele Mutis explica acreditar “ter chegado a hora de calar as palavras”, “as pobres palavras usadas”. “Penso às vezes que chegou a hora de calar”.         

Entre outros, Mutis foi Prémio Cervantes (em 2001), Príncipe das Astúrias e Reina Sofia (ambos em 1997) e Médicis Étranger (em 1989).