No país dos minijobs, a oitos euros à hora

No país dos minijobs, a oitos euros à hora Alemanha, 2013. Um país onde nem tudo o que parece é

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Juan Paulo Guzman, acabou de se formar em Design de Comunicação e recebe apoio enquanto não arranja emprego Nélson Garrido, em Berlim

Alemanha, 2013. Um país onde há subsídios para quem acabou o curso e ainda não encontrou emprego, mas onde um em cada cinco trabalhadores tem um minijob de 450 euros. Um país onde muito é planeado e cada um sabe quanto vai receber de reforma com o salário actual. Mas onde pode demorar semanas ou mesmo meses a ter Net em casa. Um país onde nem tudo o que parece é

Wanja Saatkamp recebeu a carta há três dias. É uma carta que chega todos os anos, mas, nos últimos tempos, Wanja dá-lhe mais atenção.

"É uma espécie de relatório anual do departamento de pensões", que todos os trabalhadores recebem, todos os anos (não só os freelancers como Wanja, que é artista), explica. "Dizia que neste momento descontei o suficiente para ter uma reforma de 88 euros por mês. Se continuo com o mesmo rendimento até à idade da reforma, ou seja aos 65 anos, receberei 336 euros por mês." Wanja (o nome não é tão difícil como parece, lê-se quase como Vânia) suspira. "É uma verdade brutal, que vem numa carta aparentemente tão neutra."

Ou seja: "Posso sobreviver agora, mas depois não sei", diz, enquanto toma um café no Kotti, um café político como só há em Berlim (para quem não repare logo, tem um aviso dizendo que não são toleradas atitudes homofóbicas, racistas ou violência verbal em geral). Wanja diz que para já vive bem com o que faz: "Procurar fundos para o que aprendi e o que sei fazer - música, teatro, filmes"; serão 10 a 20 projectos por ano, conforme o tamanho e a duração.

"Há um ano ou dois, tornou-se óbvio que tenho de tomar uma decisão" - as cartas não a deixam esquecer. Wanja tem 38 anos. "Ou deixo Berlim ou deixo o sector da cultura." Nenhuma lhe agrada. "Não quero ser pobre quando for mais velha", continua, mas logo contrapõe: "Não quero fazer outra coisa, é isto que eu sei fazer e que gosto", desabafa Wanja, de blazer cinzento a desafiar o estereótipo da artista - o pretexto da conversa com ela era a sua vinda a Lisboa (é onde está agora) com a sua banda de performance-grupo de teatro Maiden Monsters para um projecto de investigação artística, que tem como tema a crise.

A abordagem deste projecto vai ser um pouco "ingénua", confessa. Mas é a que mais lhe agrada. "Aqui toda a gente tem medo da crise, mas ninguém sabe na verdade nada sobre ela." Com um carro-estúdio de som e vídeo, Wanja e as outras Mainden Monsters estarão a andar por estes dias pelas ruas de Lisboa a fazer as tais perguntas ingénuas.

"Queremos saber como é que lidam com a crise." Que na Alemanha não há, "mas só à superfície; temos muitas pessoas pobres", aponta. "E a dinâmica está a extremar-se, entre pessoas com trabalhos bons a ganhar muito bem e pessoas com trabalhos muito precários a ganhar muito mal."

No centro da polémica sobre a precariedade, estão as reformas da Agenda 2010 de Gerhard Schröder, incluindo a famosa Hartz IV, que tem o nome do director de recursos humanos da Volkswagen que a definiu. Peter Hartz, que tinha negociado uma descida de salários na empresa de automóveis contra menos despedimentos, foi o escolhido por Schröder para ajudar o país a mudar o panorama do trabalho.

A ideia por trás da reforma pode resumir-se assim: tornar a vida mais difícil a quem recebe subsídio de desemprego (de longa duração), para que haja um incentivo para encontrar trabalho. Não só o pagamento foi diminuído, como as pessoas têm de fazer uma série de coisas para conseguir o subsídio: provar que não têm património, por exemplo.

O que fazes? “Hartzen”

Juan Paulo Guzman pede para se alterar ligeiramente o nome porque não quer que este artigo apareça numa pesquisa ao seu nome no Google. É um alemão de Aachen (perto da fronteira com a Bélgica e com a Holanda), de 27 anos, licenciado em Comunicação e Design e ainda fotógrafo. Recebe actualmente este subsídio, que tanto é dado aos desempregados de longa duração como a quem acabou de estudar mas ainda não encontrou trabalho.

Elogia o apoio - "tenho noção de que noutros países não há", diz (o seu projecto de fotografia foi justamente sobre os países da crise, já que tem alguns amigos espanhóis e gregos). Mas também nota que não é tudo fácil: "Tens de ir ao centro de emprego e mostrar todos os papéis e mais algum, extractos de conta dos últimos meses, etc. Faltava sempre alguma coisa. E estarem a ver todos os teus passos não é uma sensação boa", comenta. "Por exemplo, tinha uma transferência de 350 euros da minha irmã, que me ajudou a dada altura. Ela teve de escrever uma carta ao centro de emprego a dizer que tinha sido ela e justificar", conta.

Entre ir buscar papéis à faculdade, da casa e de um apoio social anterior que recebeu para estudar (foi elegível para este apoio, em que o Estado paga metade e outra metade é um empréstimo feito ao estudante), foram três semanas. Mas já está tudo tratado, e desde Julho recebe 390 euros de subsídio principal e 245 euros para pagar a renda de casa (poderia ter uma renda até a um máximo de 350 euros, diz).

Agora tem de provar que está à procura de emprego: "É preciso enviar entre cinco a dez candidaturas por mês, no meu caso são cinco." O centro de emprego ajuda - dá dois euros para cada candidatura enviada por email e cinco por cada enviada por correio normal.

A cada duas, três semanas, Juan Paulo tem uma conversa com o seu consultor no centro de emprego, onde avaliam a estratégia de procura de trabalho. "Às vezes oferecem empregos de treta", comenta. "A mim, ainda não aconteceu", diz, aliviado. "Há pessoas que põem os seus currículos um pouco pior para tentar escapar" a estes maus empregos, conta, com um sorriso. O subsídio é renovável a cada seis meses. "Não sei bem quando acaba, conheço pessoas que estão a receber há muito tempo", diz. "Até há um verbo para isto entre os jovens. "O que estás a fazer?", pergunta-se. "Hartzen.""

Em jeito de conclusão, é o Hartz IV que lhe permite a busca de trabalho como a que está a fazer agora: "Porque assim posso concentrar-me em procurar emprego na minha área - queria encontrar como assistente de fotografia. Assim posso pesquisar, adaptar as cartas a cada sítio, etc. É quase um emprego", brinca. "Se não tivesse o subsídio, teria de ir trabalhar para um restaurante, ou café, e teria muito menos tempo para fazer isso." Se dentro de alguns meses não encontrar emprego como assistente de fotógrafo, irá tentar na área de design.

Juan Paulo poderia ainda trabalhar ganhando "até 160 euros" e continuar a receber a totalidade do Hartz IV - mais do que isso, seria descontado do subsídio. Para já não tenciona fazê-lo.

Algumas pessoas com este subsídio juntam-no com o chamado "minijob", que já é uma instituição alemã, apesar de ter exactamente dez anos de existência: são empregos com um salário máximo de 450 euros, com valor baixo por hora (entre cinco a dez euros). Não é pago imposto (acima disso já se paga, o que faz com que uma fatia de salários mais altos seja, na prática, um pagamento mais baixo), e inclui seguro de saúde. Um número incrível de alemães (cerca de um em cada cinco trabalhadores) está neste regime.

Caminho ou beco sem saída?

Para Daniela Goller, 25 anos, o seu minijob é o trabalho perfeito neste momento. Está numa loja de roupa em Mitte, no centro de Berlim, em que trabalha dois dias por semana, por oito euros por hora. Não poderia trabalhar mais, porque está a estudar e não teria tempo. Os pais não podem pagar-lhe as despesas com o curso - e ganham 50 euros a mais do que seria possível para a atribuição do subsídio para estudantes sem capacidade económica. Portanto: um minijob é a solução ideal.

Claro que é apenas temporário: "Ao escolher fazer isto, sei que estou a enfrentar três anos sem dinheiro", constata. "Mas depois devo ter um emprego, espero!", diz a rir, a cara bem redonda enquadrada por uma franja, olhos pintados, argola no nariz. "Ainda não sei exactamente em quê. Para já, estou a gostar muito do que estou a estudar, Alemão e Comunicação. Não me estou a preocupar com isso para já, felizmente há muitas alternativas."

Tina Kühnel tem 26 anos, mas apesar da idade semelhante não podia ser mais diferente de Daniela - recebe-nos na sua casa em Friedrichsain onde vive com o marido ("casámos há duas semanas"), o filho de 15 meses e um cão chamado Chef. Tina, que ainda estuda, já teve vários minijobs, como cuidar de crianças, fazer limpezas num albergue de juventude ou trabalhando como empregada de mesa num hotel, nos últimos quatro anos.

"Sem minijobs não era possível a muitas pessoas estudar", diz. Ela recebeu dinheiro de apoio social, mas este não era suficiente. "E agora que sou mãe também é muito importante ter a hipótese do minijob, até por causa da flexibilidade dos horários."

Tina apressa-se no entanto a sublinhar uma coisa: "Nunca aceitei minijobs que pagassem menos de sete a oito euros por hora - e há muitos. Tenho uma prima que trabalhava num imbiss [loja de fast-food] por cinco euros à hora, chegava a casa com a roupa a cheirar horrivelmente mal. Até agora tive sorte, sempre fiz questão de escolher trabalhos que não fossem tão mal pagos, e tenho conseguido."

Torsten Rackoll, 32 anos, não trabalha num minijob mas faz parte do grupo de alemães que tem dois trabalhos. Natural do Norte, licenciado em Ciências de Desporto, por um lado, e Belas-Artes, por outro (ambas em Hamburgo) -, "não é muito normal, mas o que é normal aqui na Alemanha?", pergunta, meio trocista. Torsten reconhece que os dois trabalhos que tem acabam por ser a face destas duas opções de estudos tão diferentes. Um é um estudo sobre recuperação respiratória de doentes que tenham sofrido AVC no prestigiado hospital Charité, em Berlim, e que precisam de fisioterapia. O segundo trabalho: rigger, ou seja, instalador de equipamento de luz e som em espectáculos, normalmente em cima de gruas ou pendurado nas alturas dos tectos.

"Por um lado, é a combinação perfeita", comenta. "Um trabalho de cabeça, e outro físico."

Mas a questão é que o trabalho do Charité é em part time, e assim apenas lhe dá 1100 euros brutos, ou seja, cerca de 890 líquidos. No seu segundo trabalho, é freelance. É um trabalho bem pago - "depende da negociação, mas pode ser 200 euros por dia, brutos", mas com muita variação sazonal. Assim, tem de trabalhar bastante agora para compensar a época baixa. "Em Julho, apenas consegui trabalhar um dia como rigger", diz. "Agora, poderia trabalhar todos os dias se quisesse".

Assim, apesar de gostar de cada um dos seus dois trabalhos, uma coisa é clara: só o faz porque precisa mesmo de ganhar dinheiro. "Estou um bocado cansado porque no último mês só tive dois dias de folga e desde há quatro meses que tem sido sempre assim", conta.

Mas, apesar do presente cansativo, Torsten vê um futuro sem problemas: "Vou fazer o doutoramento no tema em que estou a trabalhar no Charité. E na área da recuperação de AVC haverá sempre bom trabalho, se não for lá, será certamente noutro local." Conclusão: "Daqui a meio ano, não terei de me preocupar."

Trosten não deixa ainda assim de comentar que há muito trabalho mal pago na Alemanha. "Fico doente quando me pedem oito euros por um corte de cabelo. Quanto é que o patrão vai pagar ao cabeleireiro? Estamos numa situação económica muito boa, mas não para todos", sublinha (o salário mínimo tem sido um tema na campanha eleitoral para as eleições deste domingo - não há salário mínimo na Alemanha, mas sim tabelas de pagamento negociadas por sector pelas associações patronais e sindicatos).

Há quem argumente que a flexibilização do trabalho, e em particular o modelo do minijob, está a levar a uma precarização geral do trabalho, embora contribua para a diminuição do desemprego para uma taxa invejável de cerca de 5,3% (Eurostat). Dos 7,4 milhões de alemães que têm este tipo de trabalho, um terço tem-no como complemento a um primeiro emprego. Mas para os outros dois terços o minijob é a única fonte de rendimento - e nem todos são estudantes.

O problema, dizem os críticos, é que o minijob, embora atractivo como solução nestes casos, é demasiadas vezes um beco sem saída e não uma rampa para melhores empregos. O trabalhador não tem grande incentivo para melhorar, nem o empregador para oferecer outro tipo de contrato. Os críticos garantem ainda que este tipo de trabalho contribuiu para a desigualdade social: segundo dados do Instituto do Trabalho citados pelo Wall Street Journal, entre 1999 e 2010, os salários mais altos viram aumentos na ordem dos 25% e os mais baixos de 7,5% (nesse período, a inflação foi de 18%).

Tanto Tina como Daniela estão fora deste retrato do minijobber sem opções. Ainda estão a estudar, mas Daniela já tinha estado no mercado de trabalho "normal". Estudou, teve emprego na sua área, publicidade, mas conta meio a rir que deixou "de conseguir aturar aqueles snobs todos e as suas ideias geniais" e decidiu ir embora e viver para outro país. "Queria trabalhar mesmo para algo que valesse a pena e aprender mais uma língua, que aqui é importante - inglês já praticamente não conta como uma língua estrangeira, toda a gente fala." Inscreveu-se numa ONG suíça e foi participar num projecto relacionado com dança (algo que faz desde os dez anos) na Nicarágua.

Formação à maneira alemã

O anterior curso de Daniela foi feito através de uma instituição alemã, o ensino dual, muito comum e invejado (Portugal tem já colaboração com a Alemanha em alguns sectores, e oferece formação dual em Lisboa, Porto e Faro em áreas como mecânica de automóveis ou hotelaria).

Daniela conta que tinha aulas teóricas duas vezes por semana na escola e o restante tempo era passado a estagiar numa empresa de publicidade. "Este sistema é óptimo. Éramos cerca de 30 pessoas, estávamos juntos nas aulas mas em empresas diferentes e trocávamos experiências e ouvíamos os problemas dos outros", diz.

A formação dual é algo que está profundamente engrenado na sociedade alemã e vem de há muito tempo. A primeira lei a regulá-la foi em 1969. Por isso Yorck Sievers, da Câmara de Comércio e Indústria da Alemanha (DIHK, na sigla alemã), avisa contra tentações de usar o ensino dual como um modelo "pronto a exportar". "Nós aqui fazemo-lo à maneira alemã - vocês terão de encontrar o vosso modo", defende. "Não é possível exportar directamente." Mas contrapõe que nas áreas em que é feito em Portugal "é feito com sucesso".

Também Diana Cáceres Reebs, responsável do BIBB, o instituto que é responsável pela formação dual pela parte do Estado e que monitoriza a formação com relatórios anuais, diz que há que haver alguns factores para que a adopção deste modelo seja um sucesso: uma cooperação estreita entre Estado e empresas, e envolvimento dos sindicatos e associações patronais; a aprendizagem tem de ser feita durante o processo de trabalho na empresa, para além da escola; os currículos têm de ser nacionais para que um padeiro em Berlim tenha o mesmo currículo, número de horas, etc., que um padeiro em Estugarda; na empresa tem de haver formadores qualificados; e tem de haver uma investigação institucionalizada, como a que faz o BIBB - senão, não há base para saber o que pode ser melhorado.

Na Alemanha, há cerca de 1,5 milhões de pessoas a fazer formação dual por ano, para 344 profissões diferentes, que vão desde colocação de janelas a informática ou media, passando por mecânica de automóveis ou padaria. No bolo do total de estudantes na Alemanha, cerca de 60% fazem a formação dual, 30% seguem carreira académica e 10% outros tipos de formação. Apesar de ser um tipo de formação muito respeitada, Sievers fala de uma tentação cada vez maior de os jovens procurarem cursos universitários. "Mas não podemos ter 90% de universitários, se não, vamos ter desemprego ou pessoas sobrequalificadas", comenta. "E quem faz formação dual começa a ter mais dinheiro mais cedo, tem carro, família, férias, tem tudo isso mais cedo", defende.

Aliás, aponta Diana Cáceres Reebs, a partir do primeiro dia, os aprendizes assinam um contrato de trabalho, sendo pagos por tabelas que resultam da negociação entre associações patronais e sindicatos, diferentes conforme o ano de formação em que está.

Sievers repete que a chave da formação dual é o envolvimento das empresas, desde logo na definição dos currículos e na formação de pessoal que irá ensinar os alunos. "O investimento assegura retorno, porque depois têm pessoas a fazer exactamente o que precisam", sublinha. "Se não tivesse retorno, as empresas não iriam investir."

Diana Cáceres Reebs insiste também nesta ideia, dizendo que o retorno para as empresas é praticamente assegurado, e muitas vezes supera o investimento. O ponto principal, defende, é que as empresas vejam esta formação como um investimento e não como um custo ou um castigo. Nota ainda que a empregabilidade é de mais de 90%, e que 66% dos aprendizes ficam logo nas empresas onde tiveram a formação (outros ficam noutras empresas ou continuam para outro tipo de formação, acrescenta).

Na Alemanha, em dois milhões de empresas, 455 mil, ou seja, um quarto, dão actualmente formação dual. Destas, 70% a 80% são pequenas e médias empresas, diz Diana Cáceres-Reebs.

Ainda que seja algo que tem resultado, a Economist alerta para o simplismo de ver esta formação como a base para o bom desempenho económico da Alemanha. Afinal, a formação dual também existia em anos de fraco desempenho económico e desemprego mais alto da Alemanha. Em 2005, por exemplo, o país teve a maior taxa de desemprego desde 1933, cerca de 11,3%.

Pode-se dizer que a formação dual está no ADN alemão. Outra característica que associamos ao país é a produtividade e eficiência. Mas estas já não são o que eram.

Já há algum tempo que os economistas avisam para o problema da produtividade. Estimativas do Instituto de Investigação Económica DIW em Berlim mostram que nos anos 1990 o aumento de produtividade em relação à década anterior foi de 15%. Mas nos anos 2000 a subida em relação aos dez anos anteriores foi de apenas 9,8%.

Torna-se claro que a Alemanha precisa não só de melhorar a produtividade, como de mais pessoas, alerta Ferdinand Fichtner, economista deste instituto. O problema é agravado pela taxa de natalidade - 8,1 nascimentos por mil habitantes, uma das mais baixas da UE.

Mães mal vistas

E porque é que a taxa de natalidade é tão baixa na Alemanha? A média de 1,4 filhos por casal preocupa os políticos, que tentam medidas como subsídios para os pais (tem sido um tema de campanha: a CDU introduziu um subsídio de 150 euros por filho por casal para pais que fiquem em casa, a oposição quer infantários para todos).

Na Alemanha, é normal que as mães tirem um ano de licença de maternidade após o nascimento do filho e que depois passem algum tempo a trabalhar em part-time.

Há, claro, quem comece a trabalhar mais cedo, mas estas mães são por vezes mal vistas e há mesmo um preconceito contra as pejorativamente chamadas Rabenmütter, as mães corvo que não cuidam bem dos filhos, como estas aves têm fama de fazer.

Julia (prefere não dizer o apelido) não encaixa neste estereótipo. Estamos em Prenzlauer Berg, que deverá ser dos bairros com mais mães por metro quadrado (ou de mães trendy por metro quadrado). Enquanto arruma o saco do supermercado bio antes de equilibrar Jesper, o seu filho de três anos, na bicicleta, Julia conta como para ela funcionou bem o sistema previsto para as mães na agência de design onde trabalha como gestora de projecto. Fez a habitual pausa de um ano e quando voltou, fê-lo em regime de part-time, 25 horas por semana. Como está previsto, ganhou durante o ano de pausa 65% do salário líquido e é isso que ganha também no regime de tempo parcial em que está agora.

"Para mim, pessoalmente, este sistema funciona muito bem, porque a agência apoia. Mas tenho amigas que foram despedidas durante ou após a pausa, ou só lhes ofereceram horários completos", diz.

Também diz que teve sorte e conseguiu um infantário onde se paga conforme o rendimento até aos 3 anos (no seu caso, entre 120 e 130 euros por mês) e a partir dos 3 anos é de graça. Muitos pais têm dificuldade em encontrar creches para os seus filhos, afirma.

Apesar de tudo ter corrido bem com o primeiro filho, Julia diz que a carreira é um dos motivos para não pensar em ter um segundo. "Sair novamente mais um ano da agência poderia atrasar a minha progressão", confessa. Mas há outros factores: "Falta de espaço em casa, tudo ser mais difícil de coordenar."

Tina Kühnel, com quem falámos antes por causa dos minijobs, teve uma abordagem diferente em relação à maternidade: assumiu que quer dois filhos e resolveu começar mais cedo. Sim, isso implica desafios, minijobs, estudar, trabalhar e ser mãe. "A maioria das pessoas espera demasiado tempo", diz, não demasiado a sério.

O problema comum que Julia e Tina tiveram foi conseguir um infantário. Tina começou a procurar seis meses antes de o filho nascer e só quando o bebé fez dez meses é que teve a certeza de que teria um lugar. Foi mesmo duas semanas antes de o marido regressar ao trabalho em full time (os pais também têm direito a redução de horário), em Abril deste ano. É um infantário público onde se paga conforme o rendimento e, como o marido é o único a trabalhar, pagam 60 euros por mês.

Estas divisões de pagamento para quem ganha mais ou menos são frequentes na Alemanha. Também há pagamentos diferentes para quem tem emprego e para quem está desempregado. Por exemplo: uma multa algo sui generis (para quem fizer sexo num parque, ou também para quem urinar em público, em Berlim) é diferente para quem tiver emprego ou para quem for desempregado (170 euros no primeiro caso, 70 no segundo).

A sociedade está, no entanto, cada vez mais desigual. Um estudo da Fundação Bertelsmann indicava que a classe média no país diminuiu de 65% em 1997 para 58% no ano passado. E ainda que alguns possam ter subido para a classe alta, a maioria desceu de nível de vida. O número de pessoas que estão em situação de pobreza ou no limite de pobreza aumentou em 400 mil desde 2005 (primeiro ano de Governo de Angela Merkel, na altura numa grande coligação com os sociais-democratas) para 12 milhões no ano passado (Instituto Federal de Estatística). Estima-se ainda que entre 3 a 5 milhões vivam em pobreza escondida, demasiado orgulhosos para pedir ajuda (os dados são do Instituto de Investigação de Emprego).

A Alemanha tem uma imagem de eficiência a toda a prova. Mas nem tudo o que parece é. Há indícios do contrário em pequenas coisas - como a dificuldade de conseguir ter Internet em casa em Berlim: semanas até que se ultrapassem as barreiras burocráticas, isto na cidade das startups, das empresas digitais e num país que tem uma taxa de penetração de Internet de cerca de 83%, entre as mais altas da União Europeia.

Festa de família no aeroporto

Mudando de escala:há de momento, uma série de obras enormes que estão a dar problemas; demorar muito mais do que o esperado, ou custar muito mais do que o previsto: do caso mais gritante do aeroporto de Berlim à Filarmónica de Hamburgo, passando pela estação ferroviária Estugarda XXI, há exemplos de falhanços estrondosos do planeamento e execução.

O aeroporto de Berlim é um caso especial. Neste momento, discute-se a data em que será possível anunciar quando entrará o aeroporto em funcionamento. "A 25 de Outubro poderão dizer quando começará o aeroporto a funcionar?", perguntava o jornalista numa entrevista do responsável pelo aeroporto, Hartut Mehdorn, ao Frankfurter Allgemeine Zeitung. "Não", respondia o responsável. "É uma pergunta muito importante, a resposta tem de estar certa."

A insistência deve-se ao facto de o aeroporto ter sido anunciado com pompa e circunstância como pronto a abrir em Outubro de 2011 - mas um ano antes já havia um adiamento previsto. Foram anunciadas várias datas de abertura, nenhuma foi cumprida.

Parece ter-se juntado todo um catálogo de problemas, culminando na informação de que o aeroporto começaria imediatamente na data de abertura com a capacidade total a uso, o que não é de todo recomendável. Foi de tal modo que já havia quem sugerisse esquecer este aeroporto e fazer um novo de raiz.

No entanto, ele parece quase pronto: há estações para os autocarros que hão-de começar a ir e vir, edifícios a luzir, grandes parques de estacionamento - vazios.

As aparências são muitas vezes importantes. E neste caso a Alemanha depende da imagem de eficiência também nestas obras para exportar produtos de tecnologia. Daniel Lede Abal, um deputado dos Verdes no Parlamento do estado federado de Baden-Würtemberg, diz que muitas vezes estes grandes projectos acabam por servir como showcase para a tecnologia alemã, que pode depois ser exportada para outros países. Ironicamente, nem sempre precisa de ser posta em prática para que isto aconteça. Lede Abal dá o exemplo de um comboio electromagnético que ligaria Berlim a Hamburgo. O projecto andou para trás e para a frente, gastou-se dinheiro, mas acabou por ficar na gaveta; não se ganhava substancialmente tempo e ficava muito caro. "Ainda assim, a Siemens vendeu esta tecnologia à China."

Enquanto não abre, o aeroporto proporciona visitas guiadas, pagas, a quem o quiser visitar. E no fim-de-semana passado houve mesmo uma festa: dois dias em que os habitantes de Berlim e Brandeburgo puderam visitar o local mesmo ao lado de Schönefeld, um dos dois actuais aeroportos de Berlim, que irão ser substituídos pelo novo.

Era uma "festa de família" e havia barracas de currywurst (cachorro com caril), cerveja, waffles e tudo o que era preciso para um dia em cheio ao ar livre. Havia actividades para crianças e visitas guiadas. A organização congratulava-se com ter recebido, apenas no sábado, cerca de 30 mil visitantes.

Famílias com crianças, pares de namorados de mãos dadas, pessoas a passear os cães, muita gente a tirar fotos na placa com as letras gigantes BER, muitos foram ver o novo aeroporto e aproveitar uma oportunidade que poderiam não voltar a ter de descer pela rampa de acesso, como dizia Anje, uma mulher com cerca de 30 anos. Um ambiente de festa, até que se coloca a questão: "O que aconteceu?" Ninguém sabe. Mas todos têm uma opinião forte: "Vergonhoso para todos, muito mau para Berlim", diz.

"Ver-go-nhoso", repete sílaba a sílaba um homem de meia-idade de bigode que não quer dizer o nome. "O que se passou aqui não condiz com a importância, os valores da Alemanha."

Texto corrigido às 23:36 em vez de taxa de desemprego aumenta de 400 mil para 12 milhões. Aumentou em 400 mil.