João Perry? Não sei muito bem quem é

Seria uma espécie de reserva moral, se a houvesse para os actores. É, com 73 anos, um rosto enigmático. "Sei o que sou no momento, mas o que fui no passado já esqueci. Já vivi"

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João Perry no cenário da peça O Preço, onde interpreta a personagem de Salomão, no Teatro Aberto, em Lisboa Enric Vives-Rubio

Seria uma espécie de reserva moral, se a houvesse para os actores. É, com 73 anos, um rosto enigmático, porque a imagem que dele construímos não revela o homem que diz que aquilo que de mais valioso aprendeu foi a esperar. O teatro, ao qual regressou, e a televisão, onde interpreta, por uma vez, uma figura popular, não o aproximam mais de nós. "Sei o que sou no momento, mas o que fui no passado já esqueci. Já vivi"

Tinha 12 anos quando se estreou no elenco do Teatro Nacional Dona Maria II (TNDMII). Mas muito antes disso conhecia de cor os caminhos até à caixa de luz onde se escondia para seguir os espectáculos com aqueles que eram os seus amigos, os actores e as actrizes mais velhos que admirava mais do que os rapazes da sua idade com quem tinha de se dar na escola. Quando quis saber mais, João Perry foi estudar para Nova Iorque, em 1971, e a peça que escreveu, Stolen Words, respondia a algo que mais tarde passou a recusar: a urgência da paixão. Perry nunca quis ser mais do que actor porque, diz, nunca foi altruísta o suficiente para chamar a si a responsabilidade de liderar. Nos poucos espectáculos que encenou - Zerlina, de Broch (1988), A Disputa, de Marivaux (1995), Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare (1996) - quis sempre construir o que nunca teve, momentos de aprendizagem. Com 73 anos, a curiosidade continua a ser o que o move. E por isso, o modo como fala de si escapa aos perfis que dele pudéssemos traçar a partir das personagens que interpreta, como agora em O Preço, até Novembro no Teatro Aberto, onde é Salomão, o sábio comprador de móveis que Arthur Miller pôs a traduzir os desejos dos homens. Está também na televisão: é um taxista na novela Sol de Inverno, da SIC.

Perry gosta do prazer da solidão. E cada regresso aos palcos entende como uma interrupção no longo prazer que tem em contemplar o banal da vida, como o pôr do Sol que vê todos os dias. Mas este homem que recusou por duas vezes ser director do TNDMII, que se entrega a cada papel como se descobrisse nele uma forma de identidade, é o mesmo homem que, se pudesse, abandonava tudo. Não lhe interessa o nome, as honras e os elogios. Não ignora que o olham e que há coisas que esperam dele. Mas o que ele partilha é apenas a intimidade da personagem. Reservado e profundamente empenhado em descobrir-se, João Perry permanece um mistério. Até para si próprio.

Disse um dia que os espectadores não deveriam ter mais intimidade consigo do que aquela que a personagem permitia. De onde vem essa ética pessoal?

A exposição nunca é fácil. Mostrar-me não é um propósito meu, é um acidente. Por isso, não sei se é uma ética, porque não há um propósito determinado. Todos nós somos frutos de uma história anterior, de pequenos acontecimentos [surgidos] aqui e ali, [formados] pelo que se leu, se viu e se viveu.

Começou tão cedo...

Mas eu era inconsciente, soltaram-me ali [no teatro], sentavam-me no colo, davam-me bombons, beijinhos e abraços. Passei da plateia para o palco, mas era tão parvo que acreditava que era edificante e que era só vantagens. Mentira! [risos]. Ia sendo conhecido, ia criando expectativas e havendo expectativas, há utopias e aproximações ao que eu pensava que existia e não existia. E fiquei fechado naquela jaula, depois era tarde de mais...

Não sendo uma estratégia, a rarefacção da sua presença pública é uma questão pessoal?

Eu tenho necessidade de parar, não tanto como actor mas como pessoa, se é que pode ser dissociado o actor da pessoa que sou. Tenho necessidades de convívio, de ver os outros, de estar no meio deles. Não tenho essa capacidade [quando estou num processo criativo]. Não consigo conviver. Não tenho aptidão para isso e não tenho tempo para ler e ouvir música. É assim, foi sempre assim. Fiz sempre o que tinha de fazer nas diversas alturas em que fiz e, provavelmente, continuarei a fazer enquanto puder, pela necessidade de lealdade para com as personagens que vou acrescentando à minha existência. Como actor, como produtor de personagens, vou-me enriquecendo e descobrindo-me através das personagens que vou fazendo. A única coisa que sinto é que não sei onde estou, sei o que sou no momento, mas o que fui no passado já esqueci. Já vivi.

Quem o vem ver encontra o quê?

Aquele não sou eu, é a personagem. Eu só faço aquilo que penso que sou capaz de fazer. Surpreendo-me quando não sei fazer alguma coisa e isso é mais na culinária [risos]. Penso que vou saber fazer, a receita parece óptima, mas eu não consegui. Num espectáculo, é a mesma coisa. Penso que sigo à risca as bases ideais que me forneceram para ser melhor do que consigo, e não consigo. São fragilidades: nunca se sabe o suficiente.

Nas paragens que faz, o que é que aprende?

Estou a formar-me. Esta é uma profissão onde se enriquece muito através dos textos que se aborda porque nos obrigamos a uma exploração que, muitas vezes, não acontece senão na abordagem de determinados autores e épocas. Tem de haver uma motivação. A cultura é uma coisa tão vasta.

É isso que se exige quando se tem uma carreira longa?

O tempo e o conhecimento não me levam a crer que era mais tranquilo hoje do que era no passado. Pelo contrário, porque quanto mais conhecimento se tem, mais se reconhece que o pouco que se sabe não chega. Quando li Herman Hesse, ou o Thomas Mann, com aquelas interrogações de adolescente, li-os como se fossem uma bíblia de comportamentos. E depois [percebi que] é só uma das portas para o corredor. Continua a haver mais portas e mais corredores. Isso é que é divertido na existência. A curiosidade de continuar.

Há uma fábula escrita pelo poeta Paul Éluard onde perguntam a uma centopeia como consegue andar sem tropeçar nas patas, e a partir do momento em que começou a pensar nisso deixou de ser capaz de andar. Em algum momento o conhecimento é inibidor?

O conhecimento nunca é inibidor, é sempre motivador.

Mas nunca se assusta consigo?

Actualmente não. Houve uma época em que não era assim, em que tinha o sentimento romântico de que se não o conseguimos é porque não temos essa capacidade, e então o melhor seria acabar. Pensava-o sem qualquer complacência ou autocompaixão. Não conseguia superar as interrogações. Pensei que nunca mais faria teatro. Faço-o há tantos anos, desde os 12, a coisa fica muito fácil e esta premência de ser visto, de responder a perguntas numa entrevista ou estar em contacto com os outros, cria uma urgência e uma motivação que, se é interessante, como todas as urgências, conduz a erros enormes. A partir de certa altura, cheguei à conclusão de que somos uns tontos. É melhor deixar para amanhã e logo se vê em que estado se está. Se não for no dia a seguir, será no fim da semana. Mas tudo se resolve, tudo se ultrapassa. Prefiro sentar-me pacificamente sem uma pressão interrogativa externa e interrogar-me hoje, ou talvez amanhã, ou talvez nunca. E esperar. E nessa espera eu vejo aquilo que só vejo literariamente nas personagens que leio.

É o quê?

Uma maneira mais religiosa da existência, do quotidiano, de coisas que são banais. As pessoas temem o banal, o que é preciso é resolver situações, comer, pagar contas...

Mas a ideia de que temos o tempo todo é uma ilusão?

Não tenho expectativa nenhuma que o tempo acabe. Só entro em diálogo quando tenho alguma coisa que me interrogue ou [para] interrogar os outros. [Caso contrário] fico vazio de propósitos. Ainda me lembro de quando acabavam as férias lmenede Verão e tinha uma semana para voltar a vestir essa outra urgência do regresso às aulas. Quando sou desafiado, ou chamado à fila da produção [risos], para entrar dentro da máquina, sinto-me como uma vaca no matadouro. Não tenho necessidade nenhuma de começar, cansa-me pensar que lá vou eu para o mesmo. O que gostaria era de ter uma existência mais longa do que aquela que nos é dada.

Para a saber gerir melhor?

Gerir já é um propósito de economia de tempo. É estar. Quando chocalhas um frasco e a poeira se começa a juntar ao fundo e há sedimentos que ficam, dizem: agora tens de chocalhar o frasco outra vez e isso é, para mim, assustador, porque era capaz de estar próximo de encontrar alguma coisa sem a procurar. Interessa-me a interrogação que está subjacente a toda a contemplação. Sou capaz de reduzir as minhas necessidades para controlar a necessidade básica que tenho de saber onde estou ou com quem estou.

Como se convive com os outros?

Aprende-se a sermos melhores, com expectativas e desilusões. Não se repisa tanto, porque se entra calmamente num circuito de desapontamento de si próprio e dos outros. Acho fantástico que as pessoas se satisfaçam com o pouco que têm. Eu estou sempre a querer o infinito com o pouco que tenho. É sempre possível descobrirem-se coisas quando se tem tempo e não se recebem solicitações. Pede-se que a pessoa seja lúcida, clarividente e que responda às expectativas dos outros.

Quando percebeu que o que queria para si era mais importante do que o João Perry que os outros esperavam?

O João Perry não sei muito bem quem é [risos]. Identifico-me com esse nome mas não sou bem eu. É mais o meu pai do que eu [o pai, João Perry, era também actor].

E que memória tem do seu pai?

Eu não sou pessoa de família, não gosto de famílias. Não tenho boa relação com as tribos. Nem com a descendência que se tem, daquilo a que se pertence por código genético. Eu escolho a minha família. É de experiência feita e teria o maior desapontamento da existência se morresse e as pessoas que pertencem ao meu código genético herdassem alguma coisa minha, porque não tenho nada a ver nem quero ter nada a ver com eles. Não quero que me reconheçam nem dialoguem sequer comigo, de todo. A minha avó também foi actriz e nunca a vi representar, felizmente, porque pelo que ouvia contar não deveria ser muito boa [risos]. Era uma personagem cativante fora de cena, mas o afecto, o cheiro, o carinho, o silêncio, a humildade, só conheci da parte da minha mãe.

Não estou extremamente interessado em ser visto como uma coisa, não sou uma marca de relógios nem de perfumes. A minha interrogação para com a existência, para com o que vivo, para com as minhas expectativas, por estar vaidoso por existir, não está no querer possuir. Basta-me estar ao lado, basta-me olhar, por exemplo, para as árvores. Não tenho uma crença ocidental ou oriental, mas tenho imenso orgulho - talvez orgulho não seja a palavra -, exaltação pelo grande espectáculo que é a natureza. Comecei a aperceber-me disso muito cedo.

Como?

Gosto de sentir o espanto, a interrogação, a exaltação deste planeta onde habitamos e se fotografa levianamente como se fosse possível registar uma coisa que está sempre em mutação. Levanto-me todos os dias às 5h30 da manhã e vejo o nascer do Sol. Quando não estou a trabalhar, e porque tenho essa possibilidade em casa, gosto de calmamente ver o pôr do Sol, e não o fotografar, porque sei que amanhã haverá outro que será tão surpreendente como o primeiro.

O comportamento humano não se permite a ser contemplado?

Pela incoerência a que somos obrigados, o comportamento humano é, por vezes, bastante desapontante. Justificamo-nos porque somos muito autocomplacentes ou porque sabemos que, no fundo, somos apenas um fragmento nesta massa. Mas o facto de nos reconhecermos como insignificantes é uma coisa exaltante. Fazemos parte de um todo que é o nosso diálogo com os outros. Por vezes, o nosso diálogo é um monólogo.

Imagino que possa ser profundamente solitário.

A solidão não tem nada de negativo. As pessoas têm imenso medo, e eu não percebo porquê. Entendem a solidão como o abandono ou a rejeição dos outros. Eu tenho a necessidade de ouvir o que penso, e de ouvir o que os outros pensam, através da leitura, do que vejo no cinema, no teatro, na dança e na música. Gostaria de, antes de acabar este circuito de existência, ter a possibilidade de viver uma contemplação longa, longe das solicitações, porque não me atribuo uma grande capacidade de ser utilizável para bem da comunidade. Sou uma formiguinha com um auto-reconhecimento interrogativo sobre o que é existir. O pouco gás que tenho é para alimentar a minha própria chama. A utopia desejável para mim seria ter sempre três ou quatro personagens com uma existência real, para que me pudesse ver com distância. Eu seria estático. Ou para-estático. Mas isto está a ficar muito filosófico [risos].

Talvez. Disse sempre que houve coisas que lhe caíram no colo, que não pediu.

Tive sempre sorte. Esforcei-me pouco por alcançar certas coisas que me foram caindo no prato. Provavelmente algumas delas não as soube utilizar. Fui surpreendido por vezes, desapontado outras, mas não valorizo muito os momentos negativos que tive.

Descobriu uma geração diferente da sua quando esteve nos EUA?

No TNDMII, estava dentro do clã, conhecia aquela selva sem medo dos animais que me eram parceiros. Lá fora era muito diferente. Eu já fui tarde, tinha 31 anos, já tinha vivido muito, e intensamente, com muitos afectos e necessidades de ter objectos onde me projectar, que me rodeassem e aconchegassem. Tinha uma cama confortável. Lá fora, fui posto à prova e tudo aquilo era uma interrogação. Descobri que tinha uma experiência empírica por base, que fazia as coisas de forma organizada, mas que o que sabia, sabia-o de uma maneira que iria durar pouco. Era como saber fazer uma cómoda, mas para fazer um armário mais alto, com alçado, teria de aprender outras técnicas.

Voltou porquê?

Porque não gosto de competir, não gosto de audições. Nasci numa época em que éramos poucos e onde a competição não era exacerbada. Pelo facto de pertencer a um clã tive a vida muito facilitada. Mas também tem os seus vícios. Vivi sempre em teatros. Era na escola que me sentia estrangeiro, porque estava cheia de gente da minha idade, [à qual] não achava muita graça. As minhas interrogações eram de outro nível e os meus professores eram as pessoas com quem convivia num espectáculo. Eram as pessoas que me motivavam a ler, a procurar.

E nas paixões também era assim?

Paixão só tive uma e curei-me. A paixão é como uma doença. É uma confusão dos sentimentos. Normalmente, vemos a pessoa como a queremos ver e não como ela é. E o desapontamento é enorme.

Que idade tinha?

Vinte e tal anos.

E depois disso?

Não, muito obrigado. Não quero nem compreendo. Literariamente, aceito que seja um óptimo motor de arranque, mais do que isso não.

Sem paixão, como se envolveu com outras pessoas?

Por expectativa de amor, que é uma coisa de aceitação e de dádiva múltipla, onde tanto se dá como se recebe. É um conhecimento mais tranquilo. Mas não completamente tranquilo ou seria um fastio [risos].

Mas aos 20 anos é normal a paixão.

Só foi possível porque eu estava num grau de bebedeira de sentimentos levado por um curso que estava a fazer em que acreditava que tudo o que sentia tinha um valor superlativo e que flutuar acima do solo 20 centímetros significava estar em ascensão. Mas depois o trambolhão transformou-se numa queda enorme.

Isso foi quando esteve nos EUA?

Foi antes.

A peça que escreveu [em 1971], Stolen Words, era sobre isso?

Era. [Escrevi-a] para arrumar esse assunto na minha cabeça. Foi roubada de textos do [Fernando] Pessoa.

E arrumou?

Sim, claro.

E amou?

Sim, mas não muitas vezes. Também não tenho muito tempo para essas coisas. Mas amar sim. Compreender ou tentar compreender cautelosa e recatadamente [a outra pessoa] sem grandes envolvimentos ou tempestades.Tive uma pessoa que frequentou essas zonas de excesso, seduzíveis, claro porque os excessos são avassaladores, mas são também um perigo horrível, porque se a pessoa acredita naquilo, corre riscos enormes. Aquilo é só uma representação. Nunca tive muitas pessoas que se apaixonaram por mim. Atirarem-se ao chão e assim? Não.

E seduzia?

Eu acho que nunca fui sedutor. Palavra de honra. Tantos regressos a casa só... Sabe que o espectáculo é uma coisa que nos torna muito frios para nós próprios. Quando se chega a casa e a porta se fecha, quando não há barulho nenhum, fica-se completamente gélido, com as paredes a crepitarem. A pessoa sente que fica por si mesma, mesmo que haja alguém ao lado. Não se pode dizer o que aconteceu porque não tem sentido. Não tem eco. A solidão é capaz de ser isso. Quando há um aplauso, há a comoção de sentir aquela electricidade, aquela comunhão, mas mal se entra no camarim, se despe a roupa ou tira a maquilhagem, começa-se a entrar em espirais de silêncio interno, de vazio. Depois do banho de momentânea aceitação, a pessoa sente que não é a aceitação de si mesma, mas de uma personagem que se idealizou. É uma ilusão. A pessoa é um microrganismo desapossado e sem energia. Geralmente as pessoas protegem-se muito quando se acham importantes. Assumem uma autodefesa, mas há certas pessoas que não têm esse valor nem nunca serão mais do que aquilo que acham que são para si próprias. É tão bom ser frágil. Assumir que se é tangível. Só raros o conseguem.

É o seu caso?

Não sou capaz de falar de mim nesse sentido.

E como se convive com outro diariamente?

Viver ao lado de alguém que tenha "uma vida normal" é uma interrogação para quem tem uma vida ficcionada, como é o caso de um actor. Uma pessoa tem ali o exemplo de quem não se ficciona [e percebe que] é altura de despir a roupa do que foi e ser igual. E, depois, [a pergunta é] o que é que se tem de comprar amanhã para o pequeno-almoço? Ia usar uma palavra que não é bem isso, mas a banalidade é uma coisa muito interessante e importante para um actor, e que as pessoas aceitam pouco. Ser banal é uma inveja.

Acha que corre o risco de acharem que está a representar?

Eu não sei se acreditaria em mim próprio [risos]. Nunca seria capaz de disfarçar. Sou muito cobarde. Tenho imenso medo de interferir na vida dos outros.

É fácil confiarem em si?

Não faço ideia. A partir de uma certa idade, começa a haver uma maior separação da minha relação com os outros, porque as pessoas utopizam uma coisa que nem sequer sou.

Acha que esperam o quê?

Coisas. Tenho 73 anos e há pessoas que falam comigo, e eu penso: "Se eles soubessem." Mas também não lhes vou acrescentar o que não sabem. Para quê? Não me interessa muito um diálogo sobre mim. Já me basta o que penso sobre mim [risos]. Tenho amigos e pessoas que admiro. Quanto mais amigo sou das pessoas, mais penso que se é realmente amigo daquilo que conhecemos de nós próprios. Mas a amizade é algo que valorizo. É capaz de ser uma identificação narcísica de reconhecimento de coisas semelhantes e de ter a pretensão de conhecer o que levou a pessoa a dizer, a pensar ou viver aquilo. Tenho pouquíssimos amigos [pausa], talvez três ou quatro ao longo de todos estes anos de existência. Mas muitos já morreram.

Quem eram?

O [compositor] Alain Oulman, o [artista plástico] António Areal, o [escultor] Ângelo de Sousa, pessoas de quem eu fui admirador da pessoa e da [sua] produção. Se eu hoje não sou muito erudito, na altura então era ignorante. Entrei em muitos autodiálogos interrogativos porque me punham em controvérsia com o que conhecia anteriormente.

Houve pessoas importantes que não eram artistas?

Não, nunca tive. Não sou seduzível por esse tipo de universos. Sou seduzível por pessoas que me ensinam, enriquecem, me ouvem e que eu ouço, pessoas com quem dialogo e me interrogo. Pessoas com quem eu trato da existência e me ponho em bife tártaro. Às quais digo o que penso sem receio de que me rejeitem ou achem que tenho mau feitio.

É possessivo nas suas relações?

Não. Sou possessivo com o que compro. De vez em quando, sou um bocadinho compulsivo nas compras e nas coisas que vou armazenando à minha volta, na tentativa de me explicar a mim próprio, como se fosse encontrar na objectualidade aquilo que não consigo descobrir por mim próprio. Mas eu não compro, eu protejo, adopto. Se tivesse uma vaca, nunca mataria a vaca.

É possível conhecê-lo através do que foi adoptando?

Talvez, mas eu tenho a impressão de que se voltasse atrás para reconhecer tudo o que comprei, duvido de que me reconhecesse a mim próprio. No quotidiano, não sou muito explícito. Mas ninguém é fácil [risos]. Tenho uma colecção considerável de pintura, de desenho e toneladas de livros. Tenho móveis guardados num armazém que não tenho sítio para os pôr, mas sou incapaz de os vender. Seria uma traição horrível. Tenho-lhes afecto. Mas é impossível. Sei que brevemente terei de os vender. Nunca terei o universo que utopizei, um monte no Alentejo, em Grândola, onde sempre pensei que, depois de morto, aquilo servisse a outrem. [Gostava] que as coisas continuassem vivas porque são autónomas. Eu só as adoptei.

Já determinou o que quer que lhes aconteça quando morrer?

Não quis nunca uma fundação e também não quero perpetuar o meu nome. Que façam o que quiserem, já cá não estarei. Gostava apenas que as coisas servissem a outros, porque é egoísta da minha parte não partilhar aquilo de que me privei para as ter. Porque me privei de coisas!

Teve a vida que lhe foi possível?

Sim, a possível sim, mas a desejável não. Tenho muito mais apetite do que aquele que me puseram no prato.

Quando encenou, por exemplo, era em nome desse apetite pela descoberta?

Era para criar momentos que não tive. Eram textos que punham em causa aquilo sobre o qual tinha dúvidas: o amor, a inconstância, a constante transmutação da pessoa, a evolução que se quer. Eu estou num trajecto, ainda estou ligado, estou sempre a acrescentar coisas.

Percebe para onde está a ir?

Eu acho que estou a mudar para uma coisa com a qual me identifico mais, com menos ansiedade. Mas por vezes receio perder o fôlego. Há várias formas de a chama arder e a ansiedade não é necessariamente o melhor combustível. Há outras interrogações que eu ignorava e que o tempo revela. O não recear a desilusão, por exemplo. Numa situação como aquela que estamos a atravessar, num conflito social bélico, mas sem bombas, um momento que não conhecia nem esperava conhecer, não vivo com a mesma inquietação como vejo noutras pessoas que ainda estão a reunir o seu abecedário e para quem a dependência é maior. Eu já reuni bastantes letras e com as que tenho consigo sobreviver.

Faltam-lhe muitas?

Certamente. Tenho as letras grandes, e depois algumas pequenas. Nunca deixarei de ser curioso em relação a todas as coisas que parecem estar esclarecidas. Parecem.

O que fica das várias peças que fez e como se habita o contraditório que é a volatilidade da representação, o seu desaparecimento?

Acho muito higiénico que na nossa profissão o que fique seja a memória oral. Talvez a necessidade de resguardar, de proteger as coisas, venha de uma profissão onde o que acontece acaba logo.

O que é que a torna desafiante?

É saber que amanhã posso voltar a fazer a mesma experiência com a mesma base, mas que vai ser diferente. Para mim, um espectáculo é uma dádiva e um convívio até à altura em que é marcada a estreia, e depois é como ver um barco afastar-se, são lenços brancos do lado de cá e do lado de lá, cada vez mais longínquos.