Divino Sospiro leva ao CCB uma oratória de Avondano que é quase uma ópera

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A orquestra Divino Sospiro está ligada ao centro de estudos setecentistas de Queluz Pedro Diogo Soares

Orquestra apresenta hoje e amanhã um drama sacro assinado por um dos maiores compositores portugueses do século XVIII

Depois de no ano passado ter interpretado Morte d"Abel, a Divino Sospiro continua a explorar o reportório do compositor português Pedro António Avondano (1714-1782), autor de Gioas, Re di Giuda, a oratória que esta orquestra especializada no século XVIII estreia hoje no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, às 21h (o concerto repete-se amanhã, às 17h).

É a Iskrena Yordanova, violinista da orquestra que está à espera de defender um doutoramento sobre Avondano, que se deve a transcrição da partitura desta peça sacra, uma das poucas do compositor a ter chegado à actualidade completa, e cujo original se encontra na Biblioteca de Berlim. É comum que bibliotecas do Norte da Europa tenham nas suas colecções obras de músicos portugueses? "Não", garante Yordanova, explicando por que razão se trata de um caso excepcional: "Avondano é um compositor muito interessante, pela sua música, mas também pelas circunstâncias em que ela é criada e circula. No século XVIII, eram raros os portugueses que conseguiam sair do país... E iam quando muito a Itália, onde tinham estudado. Avondano chega a Londres, Berlim e Hamburgo, que era um importante centro musical. É muito internacional."

Gioas, Re di Giuda é uma oratória, peça musical feita a partir de um enredo religioso que prevê a utilização de cantores solistas, de um coro e de uma orquestra. O seu libreto é da autoria de um prestigiado poeta e dramaturgo italiano, Pietro Metastasio, e conta a história de Gioas, o filho mais novo do rei dos judeus, Ocosia, descendente de David, e o único que escapou à fúria da avó, Athalia, que mata todos os outros netos para poder apoderar-se do trono de Jerusalém. O rapaz é salvo pela mulher de um sacerdote, que o esconde e educa no Templo de Salomão, até que possa ocupar o lugar que é seu por direito.

"Esta oratória parece quase uma ópera, porque tem uma grande riqueza de árias, com muitos coros. Mesmo na óptica da música europeia, é muito mais ambiciosa do que é habitual para o género", diz a violinista. No concerto desta noite estarão, para além da Divino Sospiro e do Coro Gulbenkian, vários cantores líricos, entre eles as sopranos Deborah York e Gemma Bertagnolli, o baixo Nuno Dias e o contralto Filippo Minaccia.

Yordanova não pode garantir que esta obra, que se estreou em Dezembro de 1763 em Hamburgo, tenha sido escrita para a corte portuguesa, onde Avondano trabalhava, mas diz que é "muito provável" que tenha sido tocada no país. Baseia esta hipótese no facto de ter encontrado no Paço Ducal de Vila Viçosa, casa dos Bragança, dinastia a que pertenciam D. João V e o seu filho D. José I (o pai do compositor, também músico, trabalhou para o primeiro, Avondano essencialmente para o segundo), partituras com árias de Gioas, Re di Giuda.

Concertos públicos

Avondano e a sua obra continuarão a ser estudados, como muitos dos compositores que trabalharam para os reis portugueses no século XVIII e que, em particular, criaram obras propositadamente para o Palácio Nacional de Queluz, pelo Centro de Estudos Setecentistas de Portugal, ali instalado. Graças ao trabalho de Iskrena Yordanova e de outros musicólogos, como Ana Caeiro, que com ela transcreveu a partitura original de Gioas, Re di Giuda, o autor da oratória é um dos que recebem mais atenção. Mas o que sabemos sobre Avondano?

O compositor era filho de um músico genovês que se estabeleceu em Portugal em 1711, tornando-se primeiro-violino da capela real de D. João V, e da filha de um médico francês que também trabalhava na corte. Não é por isso de estranhar que do seu círculo de amigos fizessem parte muitos membros da aristocracia e da alta burguesia, resume a investigadora.

Foi no bairro lisboeta de Santa Catarina, onde passou a viver num rico palacete quando era já violinista e compositor da Real Câmara, que Avondano começou a exercer o seu papel de divulgador musical, organizando aquilo a que chamou a Assembleia das Nações Estrangeiras, uma espécie de clube onde se encontrava a elite portuguesa e os negociantes e diplomatas de outros países que passavam pela cidade. Nos bailes e concertos - os primeiros de Lisboa - da Assembleia participavam muitos dos membros do Governo chefiado pelo Marquês de Pombal.

"Estes são os primeiros concertos públicos da cidade e só existem porque Avondano os promove", diz a intérprete búlgara, há anos radicada em Portugal. "É, em parte, pelo seu papel cultural, que ele é uma personagem muito interessante do Iluminismo português."

Avondano teve uma actividade intensa como compositor, escrevendo óperas, música sacra e instrumental, e oratórias. Entre as óperas contam-se Zenobia (completamente desconhecida até hoje), Berenice e Didone (com libretos de Metastasio), e Il Filosofo di Campagna (a partir do texto do escritor Carlo Goldoni) - estas três últimas chegaram à actualidade apenas em cenas soltas. A única que sobreviveu na íntegra foi Il Mondo della Luna, também de Goldoni, escreve a violinista da Divino Sospiro.

Explica esta estudiosa de Avondano que o facto de este ser mencionado em vários dicionários biográficos estrangeiros, de haver referências à impressão de partituras suas em Paris e Amesterdão e de algumas das obras que assinou fazerem parte do acervo de bibliotecas alemãs vêm provar que se trata de um dos mais internacionais compositores portugueses.

Com os seus contactos na corte e entre as elites estrangeiras de Lisboa, o compositor contou com uma rede de mecenas que assegurou a divulgação do seu reportório também em Inglaterra e em Itália, acrescenta Yordanova. Ouvir Gioas, Re di Giuda hoje e amanhã permitirá, garante, perceber até que ponto Avondano era um "pintor de histórias", capaz de grandes "efeitos dramáticos", sublinhando com a música o que as palavras de Metastasio contavam.