A Bairrada mostra a sua raça

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Os espumantes sempre tiveram forte tradição na Bairrada: na foto as Caves Aliança PAULO PIMENTA

Vinhos frescos e saborosos e com forte identidade. No Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada foi possível comprovar que a região está a produzir vinhos de grande qualidade. Tintos, brancos e espumantes que, em muitos casos, têm a marca distintiva da casta Baga

A cena teve lugar num prestigiado restaurante alemão, em Dusseldorf. A crítica e master of wine Caro Maurer levou para um almoço com o director da revista Vinum, Stephan Reinhardt, um vinho que particularmente apreciava. O desafio passava por o identificar e o experimentado jornalista logo concluiu que, apesar da aparência, seguramente não seria um Bordéus. A cor rubi aberta, aromas maduros e uma frescura atlântica para aí apontavam, mas a sua transparência, acidez e estrutura de taninos lembravam antes um Nebbiolo da velha escola. A questão era que tinha também um sabor seco e um final fresco, dinâmico e marcadamente mineral, que nem aqueles famosos - e caros - vinhos italianos alcançam.

O jornalista confessa que chegou a pensar num Bairrada, mas afastou a ideia por lhe parecer altamente improvável que tivesse chegado até àquele restaurante.

O certo é que se tratava mesmo de um vinho bairradino. Um Baga, da Casa de Saima, de 1995, que Reihardt classifica como grandioso. "Não era um vinho perfeito, antes algo muito melhor: tinha algumas arestas, mas sobretudo um estilo próprio, com uma personalidade fresca, vivaz e consistente", conclui.

O relato está na última edição da revista - que não é editada no nosso país - e não vem sequer a propósito dos vinhos portugueses, nem muito menos da Bairrada. Serve para expressar a preferência do jornalista por vinhos autênticos, com carácter e identidade, mas ao mesmo tempo elegantes e prazerosos. O contraponto estava nuns vinhos australianos, de grande prestígio e preços a condizer, que lhe tinham sido dados a provar. De fruta e cor intensas, quase negros, e com muitas condecorações, mas pesados, cansativos e incapazes de dar prazer. Têm demasiado de tudo: calor, concentração, tanino e álcool, remata o especialista alemão.

Este tipo de crónicas bem pode atestar o apreço e prestígio com que os vinhos da Bairrada são considerados entre a elite especializada, mas a questão é que vai faltando o reconhecimento do consumidor comum. E o vinho desta história alemã nem sequer é um caso raro. Na região multiplicam-se hoje as produções de grande qualidade, como ficou bem evidente na mostra Encontro com o Vinho e Sabores que no último fim-de-semana teve lugar em Sangalhos, Anadia, durante três dias. Presentes mais de três dezenas de produtores, com vinhos modernos e elegantes e que concentram características que raramente se encontram juntas em qualquer outra região do mundo. Mesmo nas mais prestigiadas e conceituadas.

Vinhos marcados por uma identidade muito própria, onde a tradição se conjuga com as condições de clima e de solo. As vinhas arejadas pela frescura do Atlântico que por ali é retida pelas serranias do Buçaco; terrenos argilosos que fornecem alimento às cepas mesmo em tempo árido, assim permitindo excelentes maturações sem perder a vivacidade da acidez; e a casta Baga, que constitui talvez o principal factor diferenciador para os excelentes tintos da região. Tintos e não só, já que são cada vez mais os produtores que a utilizam para espumantes de grande qualidade e aptidão gastronómica, na sua esmagadora maioria vinificados em branco. Ou seja, excelentes espumantes brancos da casta tinta que é a grande marca de qualidade da Bairrada. Nada de novo, afinal, já que assim acontece também em Champagne, onde o grosso dos vinhos são feitos a partir da tinta Pinot Noir.

A par da identidade, tradição e condições de solo e clima claramente favoráveis, a Bairrada apresenta também a singularidade de ter uma aptidão alargada, para tintos, brancos e espumosos, coisa que praticamente não encontramos em qualquer das outras mais conhecidas regiões do mundo. A tudo isto há que juntar o esforço de renovação e modernização, humana e tecnológica, que nos últimos tempos se alargou a praticamente todas as vinhas e adegas da região.

Com a evolução tecnológica e os cuidados na enologia, a Bairrada produz hoje vinhos e de grande qualidade e capazes de fazer figura em qualquer parte do mundo, com a evidente mais-valia que lhes é dada pela forte marca identitária e, na grande maioria dos casos, a pujança da casta Baga, que não existe em qualquer outro lugar.

Diversidade e riqueza

Isso mesmo foi sublinhado com as provas temáticas que tiveram lugar durante os três dias do Encontro com o Vinho e Sabores da Bairrada. Comece-se pelos tintos, cuja modernidade se expressa também com a incorporação das mais famosas castas estrangeiras, que aqui se parecem adaptar particularmente bem. É o caso evidente do Nelson Neves Reserva 2009, um vinho com Merlot (93%) e um pouco de Cabernet Sauvignon e Petit Verdot, ou do Calda Bordalesa, da Casa Campolargo, do mesmo ano e com as mesmas castas.

Mas a grande riqueza da região está na diversidade de estilos e concepções que proporcionam vinhos tão excepcionais como o Kompassus Private Selecion, um portento de concentração, intensidade e frescura, o Quinta das Bágeiras Garrafeira ou o Luís Pato Vinha Barrosa, onde a Baga se expressa em todo o seu esplendor. A prova de "tintos de excelência" incluiu ainda o Regateiro 2011, Quinta da Dona 2009, Caves S. João 92 anos de História, Principal Grande Reserva 2009, e o Aequinotium Grande Reserva 2009, tudo vinhos de grande qualidade e à venda por preços que variam entre os 9,50 e os 37 euros. Verdadeiras pechinchas na maioria dos casos.

É nos brancos, talvez, que a evolução é mais evidente, já que se em relação aos tintos sempre houve grandes vinhos na Bairrada, isso não era assim tão verdadeiro quanto aos brancos. Não era mas agora é. E nem é necessário sequer recorrer aos extraordinários (de frescura, equilíbrio, elegância ou complexidade) Quinta das Bágeiras Garrafeira 2011, Filipa Pato Nossa Calcário 2011, Vinha Formal (Luís Pato) 2010 ou Encontro 1 2012 (100% Arinto) para o comprovar.

Vinhos como o Quinta dos Abibes Sublime, Aequinotium, Frei João Reserva, Quinta do Valdoeiro, Volúpia (Caves S. Domingos), ou os Sauvignon Blanc da Quinta do Ortigão e da Rama & Selas são exemplos vivos da boa harmonia entre as castas autóctones (Bical e Maria Gomes, sobretudo) e a exploração de castas estrangeiras.

Espumantes de excelência

Capítulo muito particular é o que respeita aos espumantes, categoria que na Bairrada sempre teve forte tradição mas cuja qualidade chegou a andar um tanto perdida no mercado das quantidades. Pois bem, o mundo mudou e hoje os espumantes bairradinos pedem meças ao que de melhor se faz em qualquer lado. E apetece mesmo dizer que até em relação a alguns da região de Champagne há espumantes da Bairrada que se tornam mais apetecíveis, graças à sua superior aptidão gastronómica.

Estes são espumantes com um estilo muito característico, que diverge do modelo francês de fruta e acidez vivas. O bairradino é mais focado na fruta madura e cozida, sabores vinosos, com aromas e acidez mais escondidos. Tem larga vocação gastronómica - dada pelos solos e castas da região - e pode, diríamos mesmo que deve, saborear-se em copo. Excelente, neste estilo, o Quinta da Mata Fidalga 2006, de que se fizeram apenas 600 garrafas e do qual parece que, infelizmente, já restam poucas. Na mesma onda o D. Duarte 2009, das Caves Primavera, ou o Castelar Baga 2009. Num estilo mais refinado e elegante provou-se ainda o Aliança Vintage ou o Quinta do Encontro Special Cuvée, que, apesar dos preços, 16,40 e 30 euros, respectivamente, parecem estar a agradar ao consumidor. O primeiro produz já cerca de dois milhões de garrafas/ano e o segundo duplicou o último engarrafamento em relação ao anterior, para 5200 unidades.

Arrumada que está a questão da qualidade, a região promete avançar agora para a institucionalização do Espumante de Baga como característico da Bairrada. Tendência que pretende contribuir também para a afirmação da casta como marca distintiva da região.