Novos manuais de Matemática e de Português lançam caos nas escolas

Numa mesma sala há alunos com novos manuais e outros com livros dos anteriores programas. Ministério diz que é possível. Professores contestam.

Os professores alertam para os efeitos que esta situação pode vir a ter nos resultados escolares
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Os professores alertam para os efeitos que esta situação pode vir a ter nos resultados escolares Fernando Veludo/NFactos

O Ministério da Educação e Ciência voltou ontem a garantir que, apesar de o programa de Matemática para o ensino básico ter sido revogado e substituído por outro e de a aplicação das metas se ter tornado obrigatória a Português, os anteriores manuais escolares continuam em vigor. Representantes de pais e de professores, contudo, dizem que não é assim. Os primeiros estão a ser convidados a adquirir os livros entretanto publicados e os docentes avisam que "o caos gerado por esta situação vai reflectir-se nos resultados escolares".

A presidente da Associação de Professores de Matemática, Lurdes Figueiral, frisa que os docentes não podem fazer outra coisa. "Ninguém pode dizer que é indiferente trabalhar com um manual do ano passado ou com aqueles que acabam de chegar ao mercado", afirma, sublinhando que "as abordagens didácticas e os exercícios de aplicação são profundamente diferentes, numa disciplina em que as crianças estão sujeitas a exame". "Como é que é suposto os professores trabalharem com os manuais anteriores ou numa sala em que uns alunos dispõem de material adequado e outras não?", questionou, quando contactada pelo PÚBLICO.

A Português passa-se algo de semelhante, com a aplicação obrigatória das metas de aprendizagem — que indicam quais as capacidades e competências que os alunos deverão ter adquirido no final de cada ano — e a consequente publicação de novos manuais. "Se as metas estivessem de acordo com o programa, seria o menos. A questão é que estas são contraditórias com o programa em vigor", comenta a dirigente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira.

O fundador do Movimento pela Reutilização dos Livros Escolares, Henrique Cunha, confirmou que tanto nos "bancos" como através da Internet têm chegado apelos de pais, "que passaram horas a correr os vários pontos de troca para adquirir material que, verificam agora, afinal não serve".

Aconteceu a Maria Tavares, com dois filhos no 7.º ano e um no 5.º numa escola de Lisboa. "Pedem-me manuais de Matemática, de Português... Eu nem quero acreditar, porque isto significa que terei de comprar seis manuais, uma despesa com que, de todo, não contava agora", lamentou em declarações ao PÚBLICO.

Contactado pelo PÚBLICO sobre esta questão, o MEC reiterou o que já afirmara quando questionado pela Provedoria de Justiça: "Embora as Metas Curriculares estejam a ser contempladas nos manuais escolares já adoptados, e portanto estes devam ser adaptados, considera-se [...] que os docentes saberão gerir a eventual utilização de manuais escolares na versão que ainda não as contempla, pelo que na mesma sala de aula poderão coexistir as duas versões".

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