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Megafone

2015: os jornalistas de amanhã serão curadores da informação

Ao tentar imaginar o futuro do jornalismo nos próximos anos, perco-me frequentemente nesse olhar traiçoeiro onde as notícias de um jornal me aparecem impressas em superfícies plásticas interactivas, todas elas sensíveis ao toque, pois claro

Olhar em frente ou ver mais além são coisas diferentes. Quem olha nem sempre vê o essencial das questões, e quase sempre se perde na pequenez da superfície das coisas.

Ao tentar imaginar o futuro do jornalismo nos próximos anos, perco-me frequentemente nesse olhar traiçoeiro onde as notícias de um jornal me aparecem impressas em superfícies plásticas interactivas, todas elas sensíveis ao toque, pois claro. Ou então, deslumbro-me com uma película imaculadamente colada sobre a lareira onde se espreguiçam as imagens de um número infinito de canais de televisão. Ou, mais ainda, mergulho em redacções meticulosamente organizadas com jornalistas igualmente esterilizados esbracejando num mar de hologramas para organizar a agenda e colocar online a informação do momento. Estas bolhas invadem-me o pensamento recorrentemente, perdidas no sonho da desmaterialização.

São visões, nada mais do que isso. Ou espasmos cíclicos que traduzem a vontade de encontrar um mundo sedutor e transformado pelas promessas do que vivemos hoje.

Ver mais além obriga-me a esquecer estes olhares imediatos e a libertar-me dos deslumbramentos, mergulhos e invasões que turvam o pensamento. Chegar ao essencial é caminho complexo, porque implica abstracção e desprendimento. Ver mais além é mais trabalhoso, mas mais gratificante. É uma visão transversal e turva que não se detém na superficialidade, antes se dedica a reflectir sobre as razões que justificam a emergência do superficial.

A visão do jornalismo dos próximos anos, leva-me a acreditar que a dimensão social da prática profissional vai ser, cada vez mais, determinante para a criação de novos paradigmas comunicacionais. Os jornalistas dos anos que se aproximam serão cada vez menos a razão das matérias, e cada vez mais os nós de articulação entre o discurso público e a sociedade em rede.

Embebidos em superfícies mais ou menos coloridas, os jornalistas de amanhã afirmarão cada vez mais a sua cidadania como intermediários ou curadores da informação dispersa por espaços e tempos mutantes.