Mais Menos em liquidação total

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Um mapa-mundo feito de balas e parte da frase There is nothing money can buy: dois dos capítulos de Sell Out ENRIC VIVES-RUBIO

Jogou golfe com pão em frente à Assembleia da República, pôs um colete na estátua de Fernando Pessoa e projectou o funeral de Portugal. Agora, Miguel Januário estreia-se com a primeira exposição individual do seu projecto MaisMenos.

A frase está incrustada na parede, logo à entrada da galeria, e não deixa margem para dúvidas - "There is nothing money can buy" pode ler-se. A sociedade de consumo e essa sensação de que vivemos num tempo liminar, em que uma velha ordem se desagrega sem que consigamos vislumbrar o que lhe sucederá, está em evidência em Sell Out, a primeira exposição individual de MaisMenos, projecto de Miguel Januário, que se prolonga até 12 de Outubro.

É a segunda exposição da galeria Underdogs, do artista Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, e insere-se numa iniciativa mais vasta (Lisbon Pop-Up Shows), que integra exposições individuais e intervenções de artistas portugueses e estrangeiros ligados às linguagens da cultura visual urbana.

Tal como Vhils, também MaisMenos começou por dar nas vistas com intervenções artísticas de rua antes de entrar no circuito da arte contemporânea. No armazém branco que acolhe a mostra, na zona oriental de Lisboa (Rua Fernando Palha, 56), Miguel Januário diz-nos que a exposição estava a ser preparada há algum tempo. "Tentei executar uma reflexão sobre a sociedade de consumo onde vivemos e isso passa por fazê-lo sentir às pessoas a partir do momento em que entram aqui."

Na inauguração os visitantes eram carimbados e convidados a passar por um tapete de supermercado - logo aí, eram também eles transformados em mercadoria. "A ideia é confrontar as pessoas com a facilidade com que tudo hoje se tornou vendável e adquiriu valor monetário - desde países a indivíduos."

Recriações de bandeiras nacionais, caixas, bidões, caixões e latas são alguns dos materiais utilizados em instalações que nos ajudam a reflectir sobre um contexto económico e social em que tudo se transforma em mercadoria.

A expressão programática de Miguel Januário é reduzida a uma equação de simplicidade e opostos. Mais e menos. Positivo e negativo. Preto e branco. Uma das peças é um caixão com a forma de Portugal. Foi apresentada no ano passado em Guimarães, num cortejo que desceu desde a estátua de D. Afonso Henriques até ao muro onde está inscrita a frase "Aqui nasceu Portugal." Agora o caixão está em câmara ardente na galeria. "Funcionou para uma performance específica, mas agora é um objecto de memória. Viveu na rua, cumpriu o seu papel e agora deve ser conservado."

Tangentes

Sell Out evoca algumas das primeiras reflexões do projecto iniciado em 2005, quando Miguel Januário completava o curso de Belas Artes da Universidade do Porto. Nessa altura teve de criar uma dissertação teórica que passava por interrogar qual iria ser o seu papel como designer numa sociedade de mercado. "Acabei por chegar à conclusão de que, enquanto designer, iria ser mais um maquilhador deste sistema financeiro", recorda.

Foi aí que resolveu criar uma vertente prática do projecto "com a ideia utópica de eliminar a comunicação corporativa que acaba por definir a sociedade em que vivemos". Inicialmente, o projecto deu-se a conhecer nas paredes do Porto. E logo aí criou impacto. "A maior parte das pessoas falava do MaisMenos como se fosse uma marca, mas com associações mirabolantes a grupos fascistas, ou anarquistas, ou chineses. Projectavam as emoções e as fobias."

A criação de assinaturas e frases foi a estratégia utilizada nessa fase inicial, mas posteriormente o projecto alargou-se a intervenções específicas com objectos, performances e vídeo. E a marca expandiu-se. Ou melhor, a anti-marca: "Trabalho como o sistema de marcas, com publicidade, assinaturas ou intervenções, mas funciono como espelho delas. Trata-se de utilizar as ferramentas do sistema, mas subvertendo-as", argumenta.

Como aconteceu nos últimos anos com muitos outros artistas urbanos, o projecto MaisMenos acabou por chegar também à galeria. "É outra forma de dar corpo a ideias e conceitos, mas o objectivo é o mesmo: estimular o pensamento crítico."

Quando a ideia nasceu, a crise financeira global ainda não tinha eclodido, mas avolumavam-se os sinais de que o mundo iria passar por convulsões significativas. "Em 2005 havia quem dissesse que o projecto era demasiado conspirativo, mas hoje, quando muitos ganharam consciência de que vivemos dominados pela máfia financeira, o tipo de aceitação é muito diferente."

Algumas das suas intervenções tornaram-se virais. Foi o que aconteceu quando jogou golfe com pão à frente da Assembleia da República ou quando colocou um colete de jornalista na estátua de Fernando Pessoa no Chiado, em Lisboa, mostrando que as esgotadas formas de protesto se podem reinventar e que os artistas podem ter um papel nessa recriação. "Essa intervenção teve muita projecção porque aconteceu dois dias depois de uma carga policial na qual uma jornalista foi agredida", lembra.

Curiosamente, nunca concretiza intervenções à noite. A operação na estátua de Fernando Pessoa, por exemplo, foi feita de dia. "Estava em casa a ler o jornal e nasceu em mim uma vontade de fazer qualquer coisa referente à manifestação do Chiado. Às tantas o ministro Miguel Macedo disse que os jornalistas tinham de utilizar coletes nas manifestações, e lembrei-me que o Pessoa também tinha sido jornalista." Fez-se luz: foi comprar um colete e escreveu-lhe as palavras "Jornalista" e "MaisMenos". "Fui lá às 15h, chamei um amigo para filmar a intervenção e fizemo-lo com as pessoas na esplanada. O colete acabou por ficar lá até às 20h."

Dá mais exemplos. Há um ano pintou a palavra "Silêncio", em formato gigante, na rua do Alecrim, precisando de subir ao primeiro andar de um prédio devoluto. Munido de colete e capacete de engenheiro, ele e um amigo concretizaram a operação à hora do almoço, sem problemas. O mesmo aconteceu no ano passado em Guimarães, quando o Enterro de Portugal estava na fase da "traição" e era necessário espetar de uma faca nas costas da estátua de D. Afonso Henriques. "Peguei em três amigos e às 8h lá estávamos com gruas de cinema, escadas, espadas e baldes de sangue falso à volta da estátua a fazer aquilo."

Como já se percebeu, a actividade de Miguel Januário concretiza-se entre tangentes e tensões não resolvidas, procurando os interstícios que lhe permitem actuar entre a legalidade e a ilegalidade, o anonimato e a vontade de reconhecimento, a efemeridade da rua e a intemporalidade museológica, a crítica ao capitalismo desregulado e a entrada no universo especulativo da arte contemporânea.

No ruído visual da cidade, as suas intervenções criam duplicidade, interpelam-nos, revolucionam as formas convencionais de comunicação no espaço público. Uma acção tanto mais estimulante quanto mais se assiste a tentativas de controlo político e económico desse mesmo espaço. É que em nome da ordenação das componentes mais extremistas e erráticas da vida urbana, há cada vez mais leis que acabam por contribuir para que a ocupação do espaço público seja apenas concretizado por quem detém poder económico para a reivindicar. Mas é aí, na rua, ao lado das inúmeras marcas e dos signos visuais que constituem o intricado mosaico urbano, e na galeria, que uma não-marca denuncia esse estado de coisas. Nem mais nem menos.