Discos

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O visionário Peter Evans juntou, além do saxofonista Evan Parker, seu mentor, o pianista Craig Taborn, outro menino-prodígio, e o laptoper Sam Pluta, que processa em tempo real o som dos restantes

Uma obra-prima na estreia de Rocket Science, a nova banda de Peter Evans. E ainda a joint-venture de Elvis Costello com os Roots, entre outros discos da semana.



Jazz

Big Science

A estreia fulgurante de Rocket Science, a super-banda de improvisadores reunida por Peter Evans. Rodrigo Amado

Evan Parker / Peter Evans / Sam Pluta / Craig Taborn

Rocket Science

More is More

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Rocket Science é radical. Radical, rigoroso, virtuoso, inovador, violento e absolutamente fascinante. Projecto de livre improvisação arquitectado pelo trompetista e compositor norte-americano Peter Evans, reúne quatro improvisadores de excepção cuja estreia ao vivo no clube de jazz londrino Vortex é aqui reproduzida na íntegra. Para além de Evans, unanimemente considerado um dos mais importantes e visionários músicos da actualidade, tocam o saxofonista Evan Parker (em permanente transformação, aqui em topo de forma), o pianista Craig Taborn (também ele um dos novos meninos-prodígio do jazz) e o laptoper Sam Pluta, no computador, responsável pelo processamento, em tempo real, do som dos restantes músicos. Todos eles são instrumentistas com uma característica comum - através de pesquisa e exploração contínua e rigorosa, procuram ampliar e exceder as características convencionais dos seus instrumentos. O grupo parte, aliás, de uma teia de relações já existentes - Evans deu os primeiros passos sob a influência protectora de Parker, ele e Taborn colaboraram em várias das gravações do Electro-Acoustic Ensemble do saxofonista para a ECM, nomeadamente Boustrophedon e The Moment"s Energy, e Pluta é um dos colaboradores regulares de Evans, fazendo parte do seu celebrado quinteto. Registada em Maio de 2012 e perfazendo cerca de uma hora de gravação, é difícil acreditar que esta música foi feita na primeira ocasião em que o projecto se reuniu, tais são a consistência, o rigor e a lógica da interacção do quarteto. Se em Fluid dynamics, primeiro tema do disco, assistimos a uma troca intensa de sons, frases e efeitos sonoros marcados pela habitual abordagem de extended techniques que Parker e Evans partilham de forma simbiótica, é a partir de Life support systems, segundo tema, que as coisas verdadeiramente arrancam, explodindo e implodindo em todas as direcções, deixando no ar a sensação de que é a partir daqui que os músicos se abandonam totalmente à música, deixando para trás qualquer tipo de expectativa sobre como deverão soar. Parker e Evans tocam de forma brilhante e arrebatadora, fraseando de forma convencional ao longo de grandes partes da música e construindo uma teia de improvisação melódica e harmonicamente avançada à qual é dificil resistir. São evocadas inúmeras vertentes estéticas do jazz, num todo que é profundamente novo e actual. Taborn é uma das surpresas do disco, reafirmando a sua classe de improvisador de excepção com intervenções que reforçam sempre aquilo que é tocado pelo grupo, integrando ou desagregando, quando necessário. A outra grande surpresa é Pluta, cuja actividade de processamento sonoro se revela determinante e transformadora, assumindo enormes riscos (o processamento é bastante menos subtil do que no Electro-Acoustic Ensemble de Parker) e conquistando quase sempre o sublime.

Longe da extinção

David Weiss

Endangered Species: The Music of Wayne Shorter

Motéma

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A tradição jazz está bem viva e longe da extinção. E são músicos como Wayne Shorter que formam a base dessa sobrevivência, com uma carreira e um legado musical que continuam a fascinar e a inspirar gerações de músicos e ouvintes. Foi precisamente para homenagear Shorter, actualmente com a respeitável idade de 80 anos, que o trompetista e band leader David Weiss pensou o projecto Endangered Species. Reuniu uma banda all-star de 12 elementos, pegou em cinco temas de diferentes fases da carreira de Shorter (aos quais juntou um original da sua autoria), fez novos arranjos e levou o grupo para um dos clubes mais exclusivos de Nova Iorque - o Dizzy"s Club Coca-Cola, no Jazz at Lincoln Center.

O resultado foi este Endangered Species: The Music of Wayne Shorter, e o facto de ter sido gravado ao vivo faz com que a música soe particularmente poderosa e vibrante. Isso, e a circunstância de, para além de Weiss (que ainda toca trompete em algumas secções), participarem no disco músicos de excepção como os saxofonistas Ravi Coltrane, Marcus Strickland e Tim Green, o trompetista Jeremy Pelt (a grande surpresa da sessão), os trombonistas Joe Fiedler e Steve Davis, e a pianista Geri Allen. Uma constelação de primeiro plano, com amplas capacidades de improvisação, que faz com que a música mantenha sempre inventividade e interesse, afastando-a da previsibilidade de um projecto deste tipo. O trabalho de Weiss à frente do ensemble é também notável. Os arranjos são bem calibrados e integram com naturalidade os solistas. À secção rítmica (Dwayne Burno e EJ Strickland) Weiss pediu um punch acentuado, o que se torna de imediato evidente aos primeiros sons de Nellie Bly, tema que abre o disco, fazendo voar um solo vibrante de Tim Green. Ao longo dos temas seguintes a música flui com graciosidade e alegria, destacando-se os solos de Pelt em Fall e Eva, a dinâmica e o brilho de Prometheus unbound, com solos inventivos e extensos de Allen, Pelt e Strickland, e sobretudo o extraordinário solo de Marcus Strickland no saxofone soprano em The turning gate, o único original de Weiss incluido no projecto. R.A.

Pop

Fora da zona de conforto

Elvis Costello e os The Roots estão habituados a cooperações, mas raramente se terão colocado tão à prova. Vítor Belanciano

Elvis Costello and The Roots

Wise Up Ghost

Blue Note; distri. Universal

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Ao longo dos anos, Elvis Costello encetou inúmeras colaborações - com Burt Bacharach, Anne Sofie Von Otter ou Allen Toussaint. E os The Roots de Questlove não têm feito outra coisa nos últimos tempos se não adaptar-se a sucessivos músicos, como banda residente do programa da TV americana Late Night With Jimmy Fallon. Foi aí que se conheceram e que Questlove terá desafiado Costello.

Mas essa maleabilidade poderia simplesmente não resultar. Afortunadamente não é isso que acontece, com Costello e os Roots a criarem alguns dos momentos musicais mais estimulantes do seu passado recente. A base sonora arquitectada é mais dilatada e suavemente balanceada do que aquilo que os Roots costumam propor, acolhendo na perfeição a sensibilidade lírica de Costello.

Na maior parte dos temas existe uma utilização imaginativa das orquestrações e os ritmos são sofisticados, resultando daí canções sumptuosas, apesar do cenário negro que as palavras de cariz social e político pintam da América pós-eleição de Obama.

Nos últimos tempos, tanto Costello como os Roots têm apresentado trabalhos confortáveis, daqueles que não comprometem mas também não trazem nada de significativamente novo. Não se pode dizer que em Wise Up Ghost saiam radicalmente das respectivas zonas de conforto, mas dá-se um reposicionamento que baralha a forma como se expõem. A performance vocal de Costello é mais distendida, quase murmurada, num registo mais falado do que cantado, enquanto o som sincopado dos Roots se revela mais denso e compacto, abrindo por isso maiores clareiras entre os apontamentos sonoros.

Nem é hip-hop, nem funk, nem soul, mas acaba por ser tudo isso, transformado numa sonoridade sonâmbula que em vez de entorpecer parece ter acordado dois gigantes da música popular.

Sem arrepios

Mazzy Star

Seasons of Your Day

Rhymes Of An Hour; distri. Popstock

mmmnn

Dezassete anos para concluir um quarto álbum é façanha ao nível de um Ulisses ou, vá, dos My Bloody Valentine. Claro que os Mazzy Star não passaram todo este tempo a escrever canções que iam deitando ao lixo porque não conseguiam encontrar um novo caminho para a sua música. A prova, e isto será uma boa notícia para os fãs, é que não há qualquer novo caminho e os Mazzy Star permanecem na mesma: guitarras acústicas por cima das quais a eléctrica volteia; ocasionalmente surge um órgão, um xilofone, um violoncelo; por vezes a guitarra acústica é dedilhada; tudo é delicado e medido, o bom gosto permanece imaculado e a voz de Hope Sandoval mantém-se em cicios, já não de jovem ninfeta mas de quarentona que ainda pode passar por ninfeta.

Há duas canções imediatas em Seasons of Your Day. In the kingdom, a abertura, com um órgão de igreja sobre o qual volteia uma guitarra, é óptima, Mazzy Star clássico. A voz plana, como se silabar fosse demasiado esforço; a segunda linha de guitarra - que podia ter saído de qualquer outro disco da banda - é imaculada. Nove canções à frente, o disco fecha com Lay myself down, a outra canção que entra à primeira e um daqueles casos raros em que os Mazzy Star não são muito, muito lentos - ao strumming folgazão sobrepõem-se pandeireta, órgãos e uma slide guitar. No resto do tempo estamos em território de guitarras acústicas em progressões menores, dedilhados a passo de caracol, melodias escritas sob o efeito de benzodiazepinas e uma noção de estética que faz equivaler beleza a tristeza dormente - a única excepção é talvez o riff sujo e repetitivo da slide guitar de Flying low, que descamba em jam controlada. Quando ouvimos o novo de Mark Kozelek e sentimos ali tanta vida a pulsar, quando nos lembramos que os discos dos Mazzy Star costumavam ter meia-dúzia de canções imaculadas e duas ou três elegias à heroína, fica-se com a impressão de que aqui é tudo muito bonito, mas falta arrepio. Ou século XXI. João Bonifácio

Perdido o mistério

The Weeknd

Kiss Land

Republic; distri. Universal

mmmnn

Estranho caso, o do cantor canadiano Abel Tesfaye, mais conhecido pelo projecto The Weeknd. No espaço de dois anos, lançou três álbuns, sob a forma de mixtapes, que o cimentaram como um dos principais renovadores das linguagens R&B. Os registos podiam ser descarregados gratuitamente e foi no habitat da Internet que veio a alcançar credibilidade e projecção.

Agora ei-lo que lança aquele que considera ser o seu primeiro álbum oficial e o efeito de novidade esvaiu-se quase por completo. É provável que quem tome contacto pela primeira vez comesta música lhe preste vassalagem. Mas, para quem o tem acompanhado, a sensação é de repetição. As letras são, mais uma vez, uma radiografia compulsiva de como o sucesso alterou a sua vida privada, num misto de quartos de hotel, sexo, lascívia e R&B. Do ponto de vista sonoro, também não existem surpresas. E quando há reajustamentos não são necessariamente boas notícias: a voz tem mais protagonismo quando antes estava diluída na atmosfera, enquanto o envolvimento sónico sombrio acaba por ser menos predominante, em favor de uma proposta um pouco mais límpida.

Ou seja, Tesfaye acaba por não retocar muito a fórmula. Mas, quando o faz, nem sempre acerta, optando por limar algumas arestas, no sentido de uma estrutura final melhor desenhada, quando era precisamente o som imersivo em bruto que fascinava.

O canadiano, com tonalidade vocal semelhante à de Michael Jackson, não desaprendeu nada. E continua a exprimir-se com muita personalidade. Mas a impressão de mistério perdeu-se quase por completo. Talvez não lhe fizesse mal parar para pensar. V.B.

Qual passado?

Goldfrapp

Tales of Us

Mute; distri. Edel

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O passado queima. E quanto mais negligente for a distância de segurança temporal, maiores as probabilidades de sair chamuscado. Para o bem e para o mal. Assim parecem crer os Goldfrapp. Logo após a edição de Felt Mountain (2000), esse filho serôdio do trip-hop, tão afogado em música para cinema que se propunha imaginar John Barry e Bernard Herrmann numa oficina de canções, Will Gregory e Alison Goldfrapp fugiram o mais que puderam da própria sombra. E levaram tão a sério a bateria de medidas profilácticas para prevenir qualquer contágio de repetição que já muito pouco restava da beleza arredia e estranha de Lovely head ou Utopia e da lascívia noir que tomava conta de Human quando, três anos depois, chegaram às batidas insufladas de Black Cherry.

A armadilha era evidente: a fuga não poderia durar muito e havia de atirá-los contra a parede. Daí que o universo de Felt Mountain tenha sido alvo de uma primeira e hesitante tentativa de auto-citação com o desajeitado The Seventh Tree - colocando uma pausa na escalada pop-dançável que os levara até à vizinhança de Kylie Minogue - e regresse agora, uma vez mais, em Tales of Us.

O problema é que, agora, o passado dessa estreia sublime já nem sequer queima. Tornou-se uma chama mortiça, fazendo de Tales of Us um disco com suficientes boas canções (Ulla, Alvar, Stranger...) para não escorregar para a mediania - quanto mais servir de prova final para emitir a certidão de óbito aos Goldfrapp -, mas muito longe de acordar os fantasmas que interessavam. É, de certa forma, atacado por uma amnésia que baralha factos e não ajuda a encontrar o caminho de volta.

Em vez disso, prescinde o mais possível de ritmos encorpados e pouco amigos das contas de electricidade, refugiando-se numa elegância controlada, nocturna, polvilhada de secções de cordas, em torno de um núcleo preferencialmente acústico com lugar até para um cavaquinho. E procura que se farta a centelha de génio que abundava em Felt Mountain. Simplesmente não a encontra. Gonçalo Frota

Clássica

Vivaldi na máquina do tempo

Uma interpretação exuberante e de um virtuosismo estonteante. Rui Pereira

Vivaldi

Concertos para violino V

Il Pomo d"Oro

Dmitry Sinkovksky, violino e direcção

Naive OP30583

mmmmm

Ouvir para crer. Sou levado a pensar que só seria possível tocar desta forma no século XXI e que o presente registo dedicado a Vivaldi é prova da teoria da evolução da interpretação musical. Os músicos do nosso tempo, ao contrário daqueles que viveram no tempo de Vivaldi, conhecem séculos de música escrita após o período de ouro do Barroco veneziano. E conhecem não só todo o repertório de linha clássica mas também o rock, o jazz e tantos outros géneros de raiz popular, ou até mesmo as correntes minimalistas. E neste imenso caldeirão entram também as correntes interpretativas da chamada Música Antiga, das mais objectivas para com o texto às mais orgânicas e que dão aos sons, através das suas dinâmicas, formas de pêra e abacate. É mesmo de levar em conta o regresso ao repertório do passado longínquo, anterior mesmo aos anos do padre ruivo, Vivaldi. E, já agora, porque não mencionar toda a expressividade burilada nos estúdios de gravação há já mais de um século?

O presente disco do agrupamento italiano Il Pomo d"Oro conta com direcção do violinista Dmitry Sinkovsky, um virtuoso da escola russa que se dedica desde a década passada à música barroca e que conquistou os concursos Bach de Leipzig (2006) e de Música Antiga de Bruges (2008). A interpretação é absolutamente original e arrojada e procura enquadrar o virtuosismo arrebatador do solista, dando lugar a momentos de intensa expressividade quer nos andamentos rápidos quer nos lentos. As cadências do solista são quase inacreditáveis e a retoma do discurso musical por parte da orquestra é sempre exemplar. São no total sete concertos para violino e orquestra de cordas de Vivaldi, todos eles na tradicional estrutura de três andamentos em tempo rápido-lento-rápido, dando continuidade à chamada Edição Vivaldi da editora Naive, que no capítulo de Concertos para Violino segue agora no quinto volume. Com uma captação de som primorosa e um balanço perfeito entre orquestra e solista, este é um disco a não perder e para ouvir da primeira à última nota.

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