Como tirar um neonazi de dentro de um grupo de extrema-direita

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Stephan Meister tem uma profissão perigosa: ajudar neonazis a deixarem de ser neonazis. A taxa de sucesso é baixa

São os amigos, é o clube de futebol, são as tatuagens - é preciso muito para tirar um neonazi do movimento. Há organizações que ajudam, até mesmo a fazer novas tatuagens, mas a pessoa tem de querer sair

Às vezes, o mais difícil até é mudar o clube de futebol. Quase sempre, é preciso arranjar uma nova morada numa nova cidade, e um novo grupo de amigos. Em geral, há que encontrar algo que substitua a excitação da acção. E claro - não há garantias de conseguir um democrata liberal. Mas pelo menos já não está um neonazi.

Na Alemanha, há várias organizações que se dedicam a ajudar neonazis a sair dos grupos. É complicado não só pelo que lhes vai na cabeça, mas também pelo facto de na maioria da vezes toda a sua vida estar estruturada à volta do grupo, e de estes funcionarem como máfias.

As organizações que ajudam na "saída" esperam que seja o interessado a contactá-las. Mas alguns tentam chegar ao seu público com todas as ideias possíveis. A Exit-Deutschland, a mais conhecida, distribuiu num festival de música T-shirts com motivos de extrema-direita. Mas depois da primeira lavagem, estas imagens saíam e aparecia outra, dizendo: "e a T-shirt consegue, tu também consegues". Esta organização é particular, por ter sido fundada por um ex-neonazi e um polícia. Mas um porta-voz diz que recusam entrevistas a jornais que não escrevam em inglês ou alemão, invocando razões de segurança: não podem rever exactamente tudo o que é dito antes de ser publicado.

Também nos programas que são geridos pelos estados federados ou pelas autoridades regionais há questões de segurança.

Vamos conhecer um deles, no estado federado da Saxónia. Este é um dos dois Länder alemães em que o Partido Nacional Democrático (NPD, extrema-direita) tem deputados no parlamento local (a nível nacional o partido não chega aos 5% necessários para entrar no Bundestag, tendo à volta de 1,5% nas últimas duas eleições). É ainda o estado da cidade de Zwickau, onde estava baseada a célula de três neonazis responsável pela morte de dez pessoas, a maioria turcos, por toda a Alemanha. A única sobrevivente do trio, Beata Zschäppe, que acabou por se entregar após o suicídio dos companheiros, está a ser julgada.

Stephan Meister, que trabalha no programa da Saxónia, o único do país que junta uma organização estadual com uma organização não-governamental, marca a entrevista com o PÚBLICO para um café em Leipzig - não pode ser no seu local de trabalho, pois estes locais não devem ser conhecidos - e Meister nunca chega a dizer directamente o seu grau de envolvimento em certas partes do programa. Mas encolhe os ombros e mantém o seu ar bonacheirão quando se fala de segurança. Já teve uma explosão no seu escritório, já teve ameaças, durante os 13 anos em que trabalhou nesta área. "Se tivermos medo, o problema torna-se maior."

Este programa de saída tem três anos. Demorou até começar os contactos com pessoas que tenham mostrado intenção de sair do movimento (aqui chama-se a "cena"). "Tinha de estar tudo muito bem preparado", explica.

Primeiro, há uma plataforma de contacto. São estas pessoas que recebem neonazis que expressem a vontade de sair da "cena". Neste primeiro contacto, aparecem pessoas que querem mesmo sair, e outras que querem apenas condições mais favoráveis, por exemplo se estão a cumprir pena de prisão. Uma primeira conversa ajuda, na maioria dos casos, a perceber do que se trata, conta Meister. Há casos em que é feita uma segunda ou terceira entrevista, e se percebe que a motivação, afinal, era outra.

Há duas equipas, uma na parte leste do estado e outra na parte oeste, que inclui assistentes sociais e psicólogos, que trabalham o que é preciso. Mudar de cidade, tanto porque no local já toda a gente saberá das suas tendências como porque não é exactamente popular entre os neonazis abandonar assim o grupo (e nos últimos anos estes estão a funcionar cada vez mais como máfias, associando à política actividades como prostituição, drogas, alguns com pequenos negócios como ginásios de fitness ou solários). Encontrar novos contactos sociais, ajudar na procura de emprego, esconder as marcas evidentes. "Muitos tatuam coisas nos dedos e em locais visíveis. Temos um pequeno orçamento para novas tatuagens", diz Meister.

Também é preciso trabalhar o que lhes vai na cabeça: ir falando sobre temas como democracia e racismo. E encontrar actividades de substituição, já que a vontade de acção, diz Meister, é algo comum a muitas destas pessoas. E uma das coisas que mais custam é que elas mudem de clube de futebol: normalmente são apoiantes de clubes onde se cantam hinos racistas, e é preciso convencê-los a mudar de equipa. "Dizem Ok, racismo não, mas futebol sim". Então é preciso orientá-los para clubes cujos apoiantes não cantem cânticos racistas.

O programa da Saxónia teve, para já, cerca de 20 contactos iniciais, mas destes apenas seis estão mesmo a ser ajudados a sair. "Pelo que sabemos de outros programas, é uma taxa normal, infelizmente", nota. Num dos casos o processo está fechado (é feita uma nova entrevista seis meses depois para garantir que está tudo bem).

Como é que se dá um caso por concluído? "Vai-se vendo a evolução, a sua esfera privada, nas coisas que dizem e pensam, contra o que diziam antes, e ver se mudou". Claro que "não temos o poder do controlo da mente", diz Meister a rir. "Claro que não podemos dizer automaticamente que é um democrata, liberal, sem qualquer racismo. Mas tem de ter uma base, que é reconhecer a Constituição."