A morte das baleias

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Há um fenómeno, bastante regular e frequente e cujas causas científicas rigorosas são desconhecidas, que se traduz por mortes colectivas de baleias que dão à costa e aí desistem da vida.

Quanto tempo faltará para que, sem esperança, tendo que deixar as casas que alugamos, perdendo o direito ao trabalho, tendo que cortar no que dá gosto à vida e no essencial, nos sintamos como as baleias?

O último acontecimento, e cito a Agencia France Press, deu-se na Costa da Patagónia, já em 2013 (4 de Junho): "Buenos Aires - Uma mortalidade-recorde de baleias-francas foi registada na costa atlântica da Patagónia argentina (Sul), o índice mais elevado já registado de mortes desta espécie no mundo, informou a ONG Instituto de Conservação de Baleias (ICB) esta terça-feira." E, acrescenta a notícia, o fenómeno acontece praticamente todos os anos. Embora as causas sejam desconhecidas, elaboram-se várias hipóteses: os ataques de gaivotas, os encalhamentos e a exposição ao sol.

Há tempos que, lendo esta e outras notícias, me surgiu com clareza que afinal é isto que os Governos de direita desejam (sem o confessarem a si próprios, espero): que todos os cidadãos que já não estão na chamada "vida activa" (termo curioso, porque o que querem dizer é que já não produzem rendimentos para o capital) dessem à costa, como as baleias. Com honras, mistério, rezas e funerais nacionais, resolvia-se num instante o problema da Segurança Social e da CGA (que bom que seria para os swaps e outros mais).

Portugal é um país envelhecido e as explicações para esse facto serão várias: o prolongamento da vida (graças aos cuidados de saúde), o planeamento familiar, os fenómenos de urbanização em que se contam com muito cuidado os quartos estritamente necessários, a vontade de dar uma vida melhor aos filhos que temos, e algumas outras que não descortino (sei que a infertilidade tem aumentado, ligada aos modos de vida actuais).

Dito isto, se o aumento da esperança de vida é um sinal de evolução civilizacional, é no mínimo estranho que se tomem medidas atrás de medidas para tornar mais difícil a vida dos cidadãos. Destruindo as classes médias (os "remediados" da minha infância) de modo deliberado e numa urgência que nos tira o sono. Já nem falo dos mais pequenos, para quem o acaso de nascerem numa família mais ou menos escolarizada vai determinar uma selecção escolar precoce. Nem quero desenvolver aqui o que considero ser um dos maiores crimes dos últimos anos: a criação dos mega-agrupamentos escolares (como se as crianças e os jovens devessem começar a viver em imensos centros comerciais - ou quartéis - desde pequenos). Os jovens atingem taxas de desemprego nunca vistas (na evoluída Europa quase alcançam os 50%), o trabalho precário assusta qualquer pessoa face à responsabilidade de ter filhos, os empregados vêem as suas horas de trabalho aumentar e o desemprego cresce como nunca. A emigração atinge valores dum passado que julgávamos ultrapassado.

E os mais velhos? Esses - considerados os mais frágeis e desprezada a sua experiência e os seus saberes - vivem em geral sozinhos ou em lares, têm dificuldades nos cuidados de saúde e tudo é feito para que sintam a reforma não como um DIREITO (a letra maiúscula é deliberada) mas quase como uma "sorte". E "gozar" a reforma? Um pecado capital que levará qualquer um (salvo os muito ricos, claro), ao inferno e ao tribunal dos Governos de direita e das troikas deste mundo.

As actuais políticas estão erradas para o Mundo, para a Europa e para Portugal. Aumentam as desigualdades e acentua-se a distância entre os ricos cada vez mais ricos e todos os outros cada vez mais pobres.

E não venham cá com números e conversa de economistas. Com todo o respeito, a questão é política e trata-se de saber como queremos viver. Ainda teremos direito, todos nós, a ser felizes?

Portugal é, actualmente, o país com o maior índice de depressão no mundo. A razão é só uma: para o Governo de direita de mãos dadas com a troika, aqui e na Europa, estamos a mais, todos os que não lhes damos lucro. A mão-de-obra (o que lhes interessa) é mais barata noutros continentes e, aí, a vida humana vale ainda menos que entre nós.

Mas não queremos morrer como as baleias. Temos conhecimentos mais do que suficientes para explicar o que nos está a acontecer. E capacidade de luta. Para não morrermos tristes e sozinhos e fazer-lhes a vontade.

Socióloga, benavente.ana@gmail.com