Com o apoio de João Soares, patrão da Bragaparques conta "toda a verdade"

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Mesmo contra a opinião de vários camaradas seus do PS, João Soares sempre mostrou confiança na honestidade de Domingos Névoa Ana Ramalho/Arquivo

Condenado por corrupção, Névoa é retratado pelos filhos numa biografia que promete revelações inéditas sobre "aliança de Santana Lopes com Amorim" e "armadilha montada por Ricardo Sá Fernandes"

Com a chancela da editora de Zita Seabra, a Alêtheia, os três filhos de Domingos Névoa lançam hoje uma biografia do pai onde prometem contar "toda a verdade, doa a quem doer" sobre o processo que levou à condenação do empresário de Braga por corrupção no caso Parque Mayer.

A apresentação do livro estará a cargo de João Soares, o primeiro presidente da Câmara de Lisboa a entabular negociações com o patrão do grupo Bragaparques, tinha Névoa acabado de comprar o antigo recinto de teatro de revista à família proprietária do espaço. Doze anos depois, a escassas duas semanas das eleições autárquicas e também do recomeço de um dos julgamentos a que o caso deu origem, os filhos do empresário oriundo do Gerês que subiu a pulso na vida anunciam "informações inéditas" sobre "as trapalhadas de Santana Lopes no Parque Mayer", "os bastidores da sua aliança com Américo Amorim no casino de Lisboa" e "a armadilha montada pelo advogado Ricardo Sá Fernandes para promover o seu irmão na Câmara de Lisboa". Contactados pelo PÚBLICO, quer o vereador quer o advogado se remeteram ao silêncio.

Embora a primeira parte do livro descreva vários episódios relacionados com a infância pobre de Domingos Névoa, que não esconde como tinha de percorrer seis quilómetros descalço para ir à escola, parte significativa da biografia centra-se na validade das provas em que se baseou a sua condenação em tribunal - a tal "armadilha", consubstanciada nas gravações que o advogado Ricardo Sá Fernandes fez de várias conversas tidas com o empresário, nas quais este se propunha pagar ao irmão deste, o vereador José Sá Fernandes, 200 mil euros, em troca de ele deixar de se opor à permuta dos terrenos da Feira Popular, propriedade da autarquia, pelos do Parque Mayer, detidos pela Bragaparques. Corria o ano de 2006, e Carmona Rodrigues levava por diante, enquanto presidente da câmara, uma negociação que havia de o fazer sentar mais do que uma vez no banco dos réus, por suspeita de lesar o erário municipal. Nas conversas que teve com o empresário de Braga, Ricardo Sá Fernandes actuou como agente infiltrado, gravando às escondidas, na maioria das vezes com autorização das autoridades, as conversas em que Névoa oferecia dinheiro. Só que este garante que as gravações foram truncadas e que quem lhe sugeriu pagar ao vereador foi o próprio irmão. "A imagem a que associo ao doutor Ricardo Sá Fernandes é a de Judas", chegou a dizer.

Apesar de ter sido condenado a cinco meses de prisão remíveis a dinheiro (os mesmos 200 mil euros que se tinha disposto a desembolsar), acabou por nada ter de pagar, graças à prescrição do crime - de corrupção activa, o mesmo de que fora ilibado dois anos antes num outro caso em Coimbra, em que justificou a entrega de 50 mil euros a um vereador e antigo líder concelhio do PS, Luís Vilar, com um empréstimo ao autarca. Ao contrário de Névoa, Vilar foi considerado culpado e sentenciado a três anos de pena suspensa.

Nada disto parece, porém, ter demovido João Soares, que mesmo contra a opinião de vários camaradas seus do Partido Socialista sempre mostrou confiança na honestidade do empresário de Braga, nas suas palavras "um homem de trabalho". No dia em que celebra mais um aniversário, o patrão da Bragaparques tem direito a biografia, publicada numa editora de primeira água. O padre Vítor Melícias deverá também estar presente no lançamento. Tal como alguns amigos de Névoa, tem fé na sua generosidade, provada pela ajuda que deu até hoje a várias instituições de solidariedade social. "Só não ajuda se não puder. E não costuma cobrar juros", diz um desses amigos, o advogado Vespasiano Macedo.