Ban Ki-moon exige que autores do “crime desprezível” com armas químicas “prestem contas”

Secretário-geral da ONU já recebeu resultado da investigação dos inspectores e classificou o seu uso como “um crime de guerra”

Ban Ki-moon mostra a primeira página do relatório que lhe foi entregue por Ake Sellstrom
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Ban Ki-moon mostra a primeira página do relatório que lhe foi entregue por Ake Sellstrom Paulo FILGUEIRA/UN/AFP

Ban Ki-moon, o secretário-geral das Nações Unidas, mostrou para a fotografia oficial a primeira página do relatório da investigação sobre o uso de armas químicas na Síria que o chefe da missão, Ake Sellstrom, lhe entregou: “Com base na investigação do incidente de Ghutta, a conclusão é que foram usadas armas químicas no conflito que está a decorrer na República Árabe da Síria… contra civis, incluindo crianças, numa escala relativamente grande.”

Frente ao membros do Conselho de Segurança, Ban Ki-moon classificou a utilização de armas químicas na Síria, confirmada por um relatório de peritos, como “crime de guerra” e exigiu que os responsáveis – que não nomeou – “prestem contas” por este “crime desprezível”.

O secretário-geral da ONU também pediu ao Conselho que preveja as “consequências” se Damasco não respeitar o plano de desmantelamento do seu arsenal químico acordado por Washington e Moscovo.

“Peço com insistência ao Conselho […] uma resolução clara”, disse. Referindo-se ao acordo americano-russo sobre o desarmamento químico na Síria concluído no sábado em Genebra, Ban Ki-moon lembrou que este previa que, “no caso de não cumprimento [dos compromissos por parte de Damasco], o Conselho de Segurança deveria aplicar as medidas previstas no capítulo 7 da Carta da ONU”. Este capítulo prevê sanções que podem ir até ao uso da força se um país não respeitar uma decisão do Conselho.

“Concordo que devem existir consequências [para Damasco] no caso de não cumprimento”, acrescentou o secretário-geral, sem no entanto referir a hipótese de um ataque militar. Washington, Londres e Paris querem pressionar o regime sírio através de uma resolução ao abrigo do capítulo 7, enquanto Moscovo recusa qualquer ameaça militar contra o seu aliado sírio.

Na sua intervenção, baseada no relatório dos peritos da ONU que estiveram no terreno na Síria, Ban Ki-moon falou de “provas flagrantes e convincentes” de que o gás tóxico sarin foi utilizado contra a população no dia 21 de Agosto próximo de Damasco. Washington, Londres e Paris acusam as forças governamentais sírias de ser responsáveis por este massacre.

“Os resultados [da investigação] são esmagadores e irrefutáveis”, afirmou. “Os factos falam por si mesmos.” “A missão [de inquérito] das Nações Unidas confirmou de forma inequívoca e objectiva que as armas químicas foram usadas na Síria.”

Para além das amostras médicas e dos indícios que foram recolhidos, entre os quais fragmentos de munições, os peritos, precisou Ban Ki-moon, entrevistaram cerca de 50 sobreviventes, médicos e socorristas. Estes descreveram “uma gama de sintomas” que vão da asfixia à perda de consciência, passando por irritações oculares e náuseas. Os membros dos serviços de socorro viram várias pessoas caídas no chão, muitas mortas ou inconscientes” e que não tinham ferimentos visíveis, acrescentou.

O relatório, explicou, sublinha que a temperatura nessa manhã de 21 de Agosto nas proximidades de Damasco caiu entre as duas e as cinco horas da manhã, criando condições favoráveis para que o gás estagnasse no solo e “penetrasse facilmente nas partes inferiores das habitações onde muitas pessoas se tinham refugiado”.