Seis meses depois do choque, o pior ainda pode estar para vir em Chipre

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Os economistas afastam o optimismo face às dúvidas sobre de onde é que o crescimento poderá surgir YORGOS KARAHALIS/REUTERS

Depois do quase colapso de Março, Chipre aprende a viver com a austeridade da troika e com os movimentos de capitais limitados. Crescimento apenas é possível a prazo

Já não há nem manifestações diárias no centro de Nicosia, nem caixas de multibanco com filas, nem directos da BBC e da CNN à porta do Parlamento. No entanto, a verdade é que, para quem vive em Chipre, as condições de vida são agora bem piores do que há seis meses, no auge da crise. E, temem muitos cipriotas, o pior ainda pode estar para vir.

Desde que, a 15 de Março, o Presidente de Chipre e o Eurogrupo anunciaram a intenção de aplicar um imposto sobre todos os depósitos, desencadeando uma crise que incluiu primeiro o encerramento dos bancos por duas semanas e depois a criação de limites aos movimentos de capital, os desenvolvimentos na economia e sociedade cipriota passaram a ser previsíveis: sistema bancário debilitado, austeridade imposta pela troika, contracção acentuada da economia e desemprego a disparar.

E, assim, seguindo o percurso já conhecido na Grécia ou em Portugal, Chipre, um pequeno país habituado nas últimas décadas a um nível de vida elevado sem crises graves nem grandes sinais de pobreza, vai agora começando a conhecer outra realidade. "As pessoas têm vindo a ser afectadas a diversos níveis, dos mais ricos aos mais pobres. Ao nível mais baixo, há dificuldades e desespero como eu não via e sentia desde a invasão turca de 1974", diz Dinos Papakyprianou, um pequeno empresário que trabalha na importação de equipamentos do estrangeiro.

Há seis meses, o PÚBLICO encontrou Dinos nas ruas de Nicosia, revoltado e angustiado à espera que os bancos abrissem para poder fazer face aos compromissos da sua empresa. Agora, numa conversa telefónica, mostra estar mais resignado, mas ao mesmo tempo mais pessimista, antecipando cenários em que as coisas ficam ainda pior. "Optei por reduzir os meus negócios, e portanto a minha exposição financeira, ao mínimo. Por uma simples razão: assim, quando o outro sapato cair, já não me arrisco a ficar sem nada daquilo que fui conseguindo ao longo de 32 anos de trabalho. Prefiro ficar agora à espera que uma nova crise como a de há seis meses ocorra e depois logo decido o que faço", explica.

A decisão de Dinos é a ilustração mais clara daquilo que tem vindo a acontecer à economia cipriota. Assustadas com aquilo que aconteceu em Março - quando o Governo primeiro anunciou um imposto sobre todos os depósitos e depois penalizou apenas os depósitos acima de cem mil euros dos dois maiores bancos - as empresas não investem, as famílias consomem apenas o essencial e a actividade económica vai caindo, de forma cada vez mais acentuada.

Neste momento, Chipre já é o país em recessão mais profunda na UE, superando a Grécia. No segundo trimestre deste ano, o PIB caiu 5,2% face ao período homólogo (de acordo com os dados do Eurostat), o pior resultado registado no país desde a invasão da Turquia. A taxa de desemprego, que em Março já estava a um nível histórico de 14,9%, acentuou a subida, chegando actualmente aos 17,3%.

Na sexta-feira, depois de uma complicada aprovação no Parlamento de algumas medidas exigidas pela troika, o Eurogrupo aprovou uma tranche de 1500 milhões de euros do empréstimo total de 10.000 milhões. "Já saímos da zona de perigo", disse na ocasião o ministro das Finanças cipriota, Haris Georgiades, defendendo que Chipre "está agora numa fase de estabilização". No entanto, este optimismo não é partilhado pelos economistas contactados pelo PÚBLICO.

"É verdade que, em termos macroeconómicos, a recessão está a ser menor do que o inicialmente antecipado, mas ao nível do sistema financeiro as coisas estão bastante piores, com os bancos ainda por estabilizar. Isto cria a possibilidade de que as coisas fiquem todas muito piores, à medida que o aperto na concessão de crédito se agrava", afirma Antonis Ellinas, professor na Universidade de Chipre. Por isso, para este especialista, o cenário de saída do euro ainda está no horizonte. "Há muitas dúvidas que o programa da troika funcione porque não se vê de onde é que o crescimento vai surgir. Por isso, o risco de uma saída do euro subsiste, até porque, se as coisas ficarem piores, mais pessoas vão querer regressar à libra cipriota, que é vista como tendo sido uma moeda estável".

Bernard Musyck, um economista belga radicado em Chipre, dá mais razões para que as coisas piorem, antes de começarem a melhorar. "No sector público, por causa da pressão da troika, tem havido mudanças, mas no sector privado parece que ainda se está numa fase de negação, que vai acabar brevemente", diz. Um dos exemplos é o sector bancário. "O Banco de Chipre absorveu o banco Laiki, mas ainda não foram despedidas pessoas. Com a entrada dos russos na administração, os despedimentos vão começar e os bancos vão começar a abrir à tarde, algo que agora não acontece", afirma. Além disso, o Governo vai privatizar sectores como os da electricidade, telecomunicações e portos, prevendo-se que no curto prazo haja mais despedimentos e reduções salariais.

O cenário torna-se mais sombrio quando se pensa que as duas coisas que poderiam permitir uma viragem positiva à economia cipriota parecem ainda longe de se concretizar.

A primeira seria uma recuperação da confiança dos agentes económicos no sistema bancário. Mas a verdade é que, neste momento, a única coisa que evita uma corrida aos bancos são os controlos de capital ainda em vigor (quando os bancos reabriram em Março, o Governo prometeu que os controlos de capital durariam apenas semanas). "Neste momento, apenas se pode levantar 20% do valor de um depósito a prazo quando este atinge a maturidade, o resto tem de se colocar noutro depósito. O que as pessoas fazem é depósitos sucessivos de um mês, dos quais vão tirando sempre 20% que tentam colocar no estrangeiro", explica Bernard Musyck, que prevê um longo processo de recuperação da confiança.

A segunda razão para esperança seria a rentabilização das reservas de gás descobertas recentemente na costa de Chipre. O Governo fez questão, na passada semana, de mostrar à população as imagens da primeira chama obtida com o gás cipriota, como que para provar a uma população ansiosa por boas notícias que as reservas existem realmente.

O problema é que, dizem os especialistas, para que haja um retorno económico significativo desta riqueza natural será preciso esperar entre cinco e sete anos. Provavelmente demasiado tempo para evitar que mais uma geração de cipriotas, depois da guerra de 1974, sofra com a escalada do desemprego e pobreza.