Eles recusam deixar de acreditar na revolução e no futuro

Nos últimos dois anos e meio, Ashraf aprendeu a viver em conflito interno permanente, casou e foi pai

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Soldado do Exército Livre da Síria no seu posto de vigilância em Alepo REUTERS/Hamid Khatib

Ashraf Hamzah tem 28 anos e uma vida cheia. Talvez tenha nascido assim, velho no saber, sereno na consciência dos seus limites, contido até na perda. "Um dos meus melhores amigos foi morto ontem." Também pode ter sido a revolução que fez dele este homem.

Abdel Jaleel Shaqaqi tem 34 anos e um desejo: "Quero ver Bashar al-Assad na prisão". É um querer que não basta querer: "Assad é tão esperto que transformou a revolução numa crise humanitária. Eu sou especialista, mas agora a crise ocupa toda a gente, mesmo os políticos." E assim a revolução ficou mais longe ou só diferente. "A Rússia e a China não querem uma resolução pacífica. Só defendem os seus interesses", diz, e isso "não é aceitável", nem contribui para o seu desejo.

Mayys Alzobi tem 27 anos mas com o cansaço, do dia e dos meses, parece ter mais. "Os Estados Unidos também não querem a paz, só as armas químicas".

Entretanto, Abdel Jaleel também se fez político, trabalha com o Conselho Nacional Sírio, a última face da oposição síria. Mas é como membro do Crescente Vermelho que lamenta "a falta de experiência em resolução de conflitos" dos sírios. "Não sabemos usar a paz." Nem por isso deixa de ter uma certeza: "A paz vai acontecer, um dia." O político Abdel Jaleel também diz que "há uma solução para isto": "Falar com o Irão."

É fim-de-semana em Amã. São quase 22h e nas estradas à volta do Taj, um centro comercial a meio de uma das muitas colinas da cidade, o trânsito está quase parado. Bandos de adolescentes vestidos para a noite espreitam de dentro dos carros. A música que grita dos leitores invade o ar quente. Para chegar ao Lemon, um café rodeado de bares onde se bebe e de clubes onde se dança, é preciso trepar mais um pouco, colina acima. A esplanada do Lemon é um oásis no meio do caos e o esforço compensa.

Quase não há cadeiras vazias. Entre famílias e grupos de amigos, é impossível adivinhar a mesa que nos espera. Num tempo sem telemóveis, os mal-entendidos teriam sido inevitáveis; assim, são motivo de riso. Cinco adultos e um bebé: Ashraf e Lubna, os pais; Ashraf sentado ao lado de Mayss de um lado, Lubna entre Mahmoud e Abdel Jaleel do outro. O pequeno às vezes está debaixo de copos e chávenas, às vezes por cima dos telemóveis.

Uma pequena Síria

Nada parece distinguir esta mesa. Mas estes cinco adultos - e o traquinas de ano e meio - são uma pequena Síria fora da Síria. Perto, mas longe. Abdel Jaleel e Mayss saíram mais ou menos há dois anos, Mahmoud em 2012, Ashraf há seis meses - Lubna e o bebé juntaram-se-lhe quando chegou à Jordânia, depois de passar pela Turquia, pelo Líbano e pelo Egipto.

"Um dos meus melhores amigos foi morto ontem. Eu sei que ele só pode ter sido assassinado por membros de uma de duas seitas - alauitas ou drusos -, e uma delas é a minha. Emocionalmente, quero vingar-me. Mas acredito na justiça, sei como é importante numa fase de transição. Tudo o que aconteceu mudou muito toda a gente. Eu, por exemplo, nunca tinha pensado na pertença religiosa. Só na minha família há quatro religiões, sem contar com as ideias políticas", diz Ashraf.

Alauitas e drusos são seitas do xiismo, um dos dois grandes ramos do Islão, e minorias na Síria, onde a maioria é sunita. O regime sírio é alauita e as forças que o Presidente Assad usa contra a oposição pertencem a estas minorias.

Ashraf e Lubna conheceram-se em 2003, no Crescente Vermelho. Apaixonaram-se em 2006, estava ela na fronteira a receber os libaneses que fugiam das bombas israelitas e ele ia e vinha, da fronteira para o posto de controlo, em Damasco. Com excepção de Mayss, todos são ou foram membros do Crescente Vermelho. "Deixei de acreditar no poder da acção humanitária e saí", diz Mahmoud, e mais não dirá. Não foi o único a deixar de acreditar, foi o único a sair.

"Aqui está a Síria", diz Abdel Jaleel. "Eu sou de Hama. Ashraf é de Sweida. Mayys e Mahmoud de Damasco." Só para falar em cidades, sem contar com confissões religiosas, ideias políticas ou classes sociais, estilos de roupa. Como em qualquer outra mesa do Lemon, nesta sentam-se mulheres de lenço na cabeça (Mayys) e de top de alças (Lubna), homens de camisa (Abdel Jaleel e Ahsraf) e de T-shirt (Mahmoud). "Aqui está a Síria." E é por isso que aqui se sentam muçulmanos sunitas, drusos e cristãos.

A esmagadora maioria dos 600 mil sírios que encontraram refúgio na Jordânia não sobem até ao Lemon. Nem sequer descem até Amã. Ficam-se pelas cidades do Norte ou vivem nos campos de refugiados, o maior é Zaatari, com uma população oscilante, 120, 130 mil, a quarta maior cidade da Jordânia e nasceu ontem, em Julho de 2012, onde antes havia deserto. Quem chega a Amã pode ser de Damasco ou de Hama, o mais certo é ser de Deraa ou de Bosra, no Sul da Síria. Também pode ser de Sweida, mas Ashraf e Lubna vieram de Damasco; Ahsraf nasceu em Sweida mas cresceu na capital. Quem fugiu de Hama está provavelmente na Turquia, os que deixaram Damasco podem estar em qualquer parte. São mais de dois milhões fora da Síria, 4,5 milhões deslocados dentro do país.

"Nunca na minha vida imaginei que isto acontecesse. Fui parvo, acreditei que ele não iria bombardear cidades", diz Ashraf.

Ligações inquebráveis

O traquinas de ano e meio tenta combater o sono com o disparate. Cai um telemóvel ao chão. "Não faz mal, estamos a testá-lo. A Nokia diz que é inquebrável", brinca Mayys. "Está muito para lá da hora de se deitar", esclarece Ahsraf, a tentar não rir. Lubna decide que o sono vai vencer o disparate e dá início à operação "vais dormir aqui mesmo, no teu carrinho".

Abdul Jaleel e Ahsraf fugiram da Síria para não serem presos ou mortos. Já eram amigos. "Somos amigos há oito anos. Mas agora é diferente", diz Ashraf. "O conceito de amizade mudou tanto. Confias a alguém a tua vida, confias que essa pessoa não vai dizer o teu nome sob tortura. Isso cria uma ligação que nunca se vai quebrar."

Abdul Jaleel teve de fugir primeiro. Hama voltou a ser sinónimo de massacre, como em 1982, quando o pai de Bashar, Hafez, quis vingar uma tentativa de atentado e fez da cidade sunita um exemplo. Objectivo: esmagar a oposição, apagar a Irmandade Muçulmana da face da terra. A Irmandade sobreviveu; segundo a Amnistia Internacional, foram mortas 30 a 40 mil pessoas, e Hama renasceu dos escombros. A revolução síria nasceu em Deraa. Depois veio Homs e isso mostrou a sírios de todas as partes que as manifestações não iam parar, nem à bomba.

"O regime mandou-nos deixar de trabalhar. Diziam que era perigoso estarmos nas manifestações por causa dos coletes vermelhos", conta Abdul Jaleed. "Desde o início íamos para as manifestações com água, comida e medicamentos. Já se sabia que ia haver mortos e feridos. Passámos a ser "apoiantes de terroristas"." "Para os soldados sírios, não há problemas. Eles não acreditam na seca nem na falta de habitação", afirma. ""O nosso Deus é Bashar e o nosso único inimigo é Israel". É assim que pensam."

Abdul Jaleel estudou Relações Internacionais, Mayys Jornalismo. Hoje, falam de desenvolver um projecto em Zaatari. Quando Abdul Jaleel fugiu, em Agosto de 2011, "por causa da Mukhabarat", os serviços secretos do regime, havia protestos e greves de fome para organizar. "Agora, já não há manifestações na Jordânia, estão proibidas."

Conflitos insanáveis

Nos últimos meses, Ashraf percebeu que precisava de um salário. No Crescente Vermelho desde os 14 anos, desde 2000 a somar cursos com várias ONG - Primeiros-Socorros, Gestão de Riscos, Avaliação de Vulnerabilidades -, desde 2002 a integrar equipas de emergência e a coordenar projectos do Programa da ONU para o Desenvolvimento, ei-lo no sector privado. "Teve de ser", diz; o Nokia que caiu ao chão trouxe-o ele do trabalho.

Abdul Jaleel e Ashraf não sabem como será o futuro, mas sabem que o passado recente mudou tudo. "Emocionalmente, percebo que a crise humanitária é uma prioridade. Moralmente, sei que temos de fazer tudo por estas pessoas. Mas a lógica diz-me que o regime usa a crise. Uma das lições destes anos foi perceber que tenho emoções que contrariam a lógica, e aprender a gerir esse conflito. Também fiquei mais aberto. De uma forma distorcida, sei que é uma vantagem", diz Ashraf.

"Não aceito, mas compreendo", é uma frase recorrente nesta mesa. Por exemplo: "Defendo a resistência pacífica. Não aceito a luta armada, mas compreendo".

Mayys levanta-se para substituir Lubna na missão "empurrar o carrinho e adormecer o bebé".

"Se há três anos me dissessem que um dia a Síria se ia dividir eu não ia acreditar. Hoje, não o desejo, mas compreendo quando oiço alguém dizer que não quer viver no mesmo país de pessoas que festejam a morte de crianças com armas químicas. Houve gente que celebrou, em Damasco", diz Ashraf, a falar do ataque da madrugada de 21 de Agosto, quando armas químicas, talvez gás sarin, atingiram subúrbios da capital e mataram centenas, talvez milhares, incluindo muitas, muitas crianças. Foi por causa desse ataque que Barack Obama ameaçou usar a força contra Assad. Entretanto, EUA e Rússia negociaram um acordo para colocar as armas químicas do regime sob supervisão da ONU até à sua "completa destruição".

"O lado emocional queria que Obama atacasse, que o atingisse com força, a razão dizia-me que ia ser pior", descreve Ashraf. "Mas nunca acreditei num ataque."

Em Amã, à distância, o jovem pai culpa-se por ter feito parte de uma revolução que demorou demasiado a sair da primeira fase, a fase em que se esperava que alguém viesse ajudar. "A oposição nunca fez outra coisa, pediu um ataque, pediu sanções, pediu, pediu", afirma. Os revolucionários que deixaram a Síria culpam-se muito. "O meu dilema é não saber se tomei as decisões certas. As coisas estão a correr mal. Será que é por eu ter agido desta forma e não de outra? Não fui suficientemente corajoso? Eu podia influenciar o que acontecia."

Ashraf assume que "houve muitos erros". "Mas, por amor de Deus, é uma revolução. Enfrentamos um regime mortífero com 40 anos, é normal que o custo seja tão alto. E as revoluções avançam por tentativa e erro", diz, sereno, 110 mil mortos depois. "Se tivesse de escolher, fazia tudo igual. As pessoas que saem deixam-se consumir por terem saído. Se permitires, isso leva todas as tuas forças. Eu tive de sair."

"A situação é tão complexa. Há uma revolução e há a Irmandade, os sauditas, a Al-Qaeda. Quem tem água e comida para distribuir sai em vantagem", diz. "Quem sou eu para enfrentar os EUA, a Rússia?", interroga-se. "Seja como for, qualquer mudança verdadeira tem de ser feita pelas pessoas." É por isso que Ahsraf consegue viver no presente. "Podemos sempre fazer alguma coisa para não deixar morrer a revolução, para ajudar a criar uma vida melhor".

Abdel Jaleed faz política e continua no Crescente Vermelho. Ashraf treina voluntários jordanos que trabalham com os refugiados sírios, como antes foi treinado por libaneses e iraquianos para receber quem fugia de outras guerras. Mahmoud ajuda Abdel Jaleel no Conselho Nacional Sírio. Lubna dedica-se ao filho. Mayys treinava jornalistas cidadãos e está num momento de transição.

Ashraf acumula o Crescente e o trabalho que lhe dá um ordenado com outros projectos. Está a preparar um curso que dará no Líbano, a voluntários de várias regiões sírias. "É um projecto comunitário, muito neutral, o que é difícil. As pessoas já nem percebem a palavra", diz. "A ideia é concentrarmo-nos nas relações que mantêm as comunidades unidas. É simples. Encontrar as pessoas certas e treiná-las. Já estamos em seis províncias. Queremos construir uma rede de segurança para prevenir acções violentas, manter algum tipo de paz civil depois da mortandade."

Khaled era palestiniano

Ashraf acredita no futuro mas já não sonha com uma mudança rápida. "No pior cenário, vou falhar mas vou tentar. Faz o que puderes, nunca sabes o que vai acontecer, é o que penso." Abdul Jaleel sabe que ainda é um voluntário, antes de tudo. "Não tenho casa na Síria. Mas tenho um dever para com os sírios. Volto assim que o banho de sangue acabar."

Passa da meia-noite, o sono venceu e Mayys está de regresso à mesa. Tem o iPad ligado e toca no braço de Ahsraf para lhe mostrar uma fotografia. "Khaled morreu. A Mayys treinou-o", diz Ashraf. "A propósito, Khaled era palestiniano. Em 2011, foi atingido a tiro por israelitas quando protestava nos Montes Golã [planalto sírio anexado por Israel]. Em Novembro, foi preso, e ontem soubemos que foi morto por sírios."

No dia em que Khaled morreu, na prisão, houve manifestações pacíficas em várias cidades sírias, como em todas as sextas-feiras desde 15 de Março de 2011, faz hoje exactamente dois anos e meio. "O assassino está sob protecção internacional", foi o slogan desta sexta-feira 13.