O Porto é um auto-rádio

Milhares de pessoas calcorrearam as ruas da cidade numa noite de D’Bandada que mais uma vez fez lembrar o São João.

Fotogaleria
Milhares de pessoas saíram para as ruas do Porto em noite (e dia) de D’Bandada Paulo Pimenta
Fotogaleria
Best Youth na Praça dos Leões Paulo Pimenta
Fotogaleria
Concerto de Pauza no bar Baixaria Paulo Pimenta
Fotogaleria
Concerto de Xungaria no Céu no Coreto da Cordoaria Paulo Pimenta
Fotogaleria
A festa durou até de madrugada Paulo Pimenta
Fotogaleria
Concerto de Expeão no Coreto da Cordoaria Paulo Pimenta

Durante a Optimus D’Bandada, o Porto é um auto-rádio em sintonização: em cada esquina uma estação, em cada rua uma canção. No sábado, pelo terceiro ano consecutivo, foi S. João fora do tempo com milhares a calcorrearem a cidade para ouvir música portuguesa.

Os The Glockenwise em versão estafeta a cortarem Santa Catarina com amplificadores a tiracolo, Gisela João, pequeno furacão, perfeitamente emoldurada no Passeio das Virtudes, Best Youth e António Zambujo numa Praça dos Leões que quase parecia ter encolhido, os Voxels a comandarem uma pista de dança a partir de uma plataforma elevatória na Cândido dos Reis. E mais: sessões de kuduro com Blaya e The Shine, spoken word com Capicua e amigos, viagens à tradição com as escolhas de Tiago Pereira para os Clérigos. 

O festival Optimus D’Bandada, já na terceira edição, é promovido pela operadora de comunicações Optimus e tem crescido de ano para ano. Praticamente todas as actuações que polvilharam vários recantos históricos ou pitorescos da cidade do Porto deram música a milhares de pessoas sob a alçada da editora Optimus Discos, que abarca artistas que vão do fado à música electrónica, ou que fazem de tais categorias uma classificação já sem sentido.

Com mais de 70 concertos programados para cerca de 20 palcos distribuídos por toda a baixa do Porto, “a ideia” da edição de 2013 da D’Bandada, segundo o director de comunicação da Optimus, Pedro Moreira da Silva, foi “aumentar o nível de abertura e interactividade entre a cidade, os músicos, as editoras e quem organiza os eventos”.

Um dos objectivos da organização foi também “perder o controlo” de toda a programação do evento, algo concretizado nesta edição com a curadoria de Tiago Pereira e Capicua, que orquestraram pequenos festivais dentro da D’Bandada, dedicados, respectivamente, à música tradicional portuguesa e à “palavra declamada”.

Num restaurante histórico da rua de Aviz, em plena baixa, a “rapper” Capicua, portuense de 30 anos, fez-se acompanhar, entre francesinhas e cerveja, de colegas músicos, um da banda Linda Martini, outros simplesmente poetas, para debitar sílabas sem acompanhamento musical, numa ideia que batizou de Língua Franca. “É a língua em que nos relacionamos e tem, ao mesmo tempo, esta ideia de franqueza”, disse à Lusa, revelando uma vontade de se expressar “de uma forma emocional e à procura do impacto” do discurso, frisando ainda a intenção de “reunir músicos e cingi-los exclusivamente às palavras”.

Se um pano de fundo em que a ponte da Árrabida enquadrava o entardecer para a fadista Gisela João cantar num Passeio das Virtudes lotado, já em vários bares da ruas Cândido dos Reis ou Galerias de Paris eram os DJ que imperavam, alheios ao antro de suor e batidas lascivas em que a performer Blaya, associada ao estilo kuduro, acompanhava com as cordas vocais e glúteos uma audiência entalada entre paredes e palco.

Entre a cacofonia de diversos projetos musicais e passeando pela rua de Ceuta, Jorge, Patrícia, Pedro, Mariana e Hugo, nenhum abaixo dos vinte anos de idade, poucos acima dos trinta, aplaudiam a quantidade de artistas portugueses enquanto saudavam o facto de tudo ser gratuito. “É uma boa forma de promover a noite do Porto”, constatavam, manifestando um desejo de que a D’Bandada “seja uma iniciativa que se prolongue por muitos anos”, desde que se mantenha alheia “a projetos demasiado comerciais”.

Qual é mesmo a próxima frequência?
 
 
 

Sugerir correcção
Comentar