Prémios Sophia: "Ridículos" ou o reconhecimento que faltava?

Foto
Florbela, de Vicente Alves do Ó, é o filme mais nomeado: 15 categoriasFlorbela, de Vicente Alves do Ó, é o filme mais nomeado: 15 categorias dr

Vão ser entregues os prémios de cinema que querem ser os Óscares portugueses. As opiniões divergem entre a importância que realmente têm e aquilo que querem ser - numa altura de crise de produção

Há já dois anos que estavam pensados mas só agora vão acontecer. Os Sophia, os prémios que querem premiar o que de melhor se faz no cinema em Portugal, vão ser entregues a 6 de Outubro. As nomeações foram anunciadas esta semana: Tabu, de Miguel Gomes, e Florbela, de Vicente Alves do Ó, são os mais nomeados. Dois filmes tão diferentes quanto as opiniões do meio: há quem defenda que o cinema tem outras lutas para travar e há quem diga que estes prémios são essenciais. Os Sophia são "ridículos" ou é "o reconhecimento que faltava em Portugal"?

Espanha tem os Goyas, França tem os Césares, e os Estados Unidos têm os Óscares. Porque não há-de Portugal ter estes prémios?, é o que o realizador Vicente Alves do Ó, membro da Academia Portuguesa de Cinema, criada há dois anos e mentora dos Sophia, questiona. "É o preconceito de sempre. É absurdo não apoiar uma iniciativa que só quer dar destaque por igual a todos os trabalhadores do meio", diz o realizador. O seu filme foi nomeado em 15 categorias, entre elas a de Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Actor (Ivo Canelas) e Actriz (Dalila Carmo).

"Pela primeira vez temos em Portugal uns prémios que são decididos pelos pares e não por quatro ou cinco pessoas membros de um júri num qualquer festival. Há forma mais democrática de destacar o que se faz no cinema português?", pergunta o realizador, para quem este "é o reconhecimento que faltava em Portugal".

Mas nem todos pensam como Vicente Alves do Ó. Nos últimos dias, têm surgido vozes críticas. Para Miguel Gomes, realizador de Tabu, nomeado em nove categorias, "é ridículo imitar modelos como o americano, como se em Portugal houvesse uma indústria". "Estes prémios só faziam sentido se existisse um modelo industrial", diz o realizador, que já está a trabalhar no próximo filme, As Mil e Uma Noites. É por isso que não sabe se estará presente na cerimónia de 6 de Outubro, no Teatro São Carlos, em Lisboa. "Agradeço todos os convites, que me honram, mas já ando no terreno e por isso não sei como será a minha vida nos próximos meses." Não deixa no entanto de sublinhar como é "caricato" que o anúncio dos nomeados e a consequente entrega dos prémios aconteça num momento em que o cinema português enfrenta uma grande crise. "Há uma paralisação de apoios, quase não foram feitos filmes, a tutela [Secretaria de Estado da Cultura] está em silêncio. De que cinema estamos a falar? Que filmes vamos premiar se não forem realizados nenhuns?"

A mesma questão é levantada pelo produtor de O Som e a Fúria, Luís Urbano. "Neste momento, o que me preocupa é que há uma lei para ser aplicada e cumprida, tudo o resto é secundário e inexistente", diz.

Mas Alves do Ó defende que estes prémios só ganham ainda mais importância num momento de crise. "Já alguém pensou que no dia 6 de Outubro vamos ter duas horas em horário nobre para não só mostrarmos ao país o nosso trabalho como também para falarmos desses problemas?", diz, referindo-se ao facto de a cerimónia ser transmitida em directo pela RTP1. "O Miguel Gomes, eu, ou outro qualquer, poderemos subir ao palco e pedir apoios. Temos a possibilidade de sermos ouvidos e vistos por muito mais pessoas", continua, muito crítico em relação às vozes negativas que se têm feito ouvir. "Quem fala mal disto está a falar mal de algo que é constituído por pessoas com quem trabalha diariamente porque quem faz parte desta Academia somos todos nós que trabalhamos em cinema, e está na altura de o público conhecer as caras daqueles que até agora têm ficado na sombra - estou a falar dos técnicos de som ou dos montadores, esses também merecem ter voz e serem premiados."

Pandora Cunha Telles, presidente da Associação de Produtores de Cinema e Audiovisual, reage no mesmo sentido, acreditando que "seria inevitável que estes prémios aparecessem mais tarde ou mais cedo". "Portugal está cada mais a profissionalizar-se e a ficar mais exigente", diz a produtora, realçando que "devemos ser dos últimos países da Europa sem uns prémios deste género. No entanto, a própria admite que, tendo em conta a crise, até poderá haver anos em que não existam filmes em número suficiente para que a cerimónia aconteça. "Mas o cinema português não vai acabar e por isso o trabalho da Academia também não. Isto é fundamental para a sociedade."

Sugerir correcção