O fascismo da língua

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A reflexão sobre a emergência de tropismos da vida política e social dos nossos dias a que podemos chamar fascismo surgiu há pouco tempo em França e em Itália (a revista italiana de filosofia aut aut contribuiu com o seu último número para o debate), o país de Pasolini - e de Berlusconi -, um autor de uma enorme actualidade, relativamente a esta questão. A legitimidade de usar hoje o termo "fascismo" encontra uma oposição firme por parte de quem entende que a palavra não pode ter uma definição correcta se deixar de se referir aos fascismos históricos e, desde logo, se prescindir do Führerprinzip, da supremacia de um líder, e de um sentido forte, isto é, metafísico.

Poderíamos pensar que uma das manifestações desse fascismo é a prática que consiste em governar acima e à margem das regras e das leis (até da Constituição), actualizando assim o estado de excepção total e permanente que foram os fascismos históricos. Mas, como verificamos em Portugal, este tipo de racionalidade governamental não quer, nem lhe seria útil, recuperar qualquer resíduo da ideologia fascista. O pragmatismo, a arte meramente gestionária do governo, é o que justifica passar por cima dos princípios e das leis da democracia liberal. Na hipótese mais plausível, isto não vai além de uma versão "reformada" do fascismo histórico. Esta versão reformada permitiu a um filósofo francês encontrar no sarkozismo um "fascismo democrático", em que o mais importante é o adjectivo "democrático" e não o substantivo "fascismo", o que leva à seguinte conclusão: "Pouco importa que seja fascista, o importante é que seja democrático". O fascismo democrático contemporâneo manifesta-se de muitas maneiras (desde logo, numa "política da felicidade" para todos, isto é, uma biopolítica, como se defende no editorial da referida revista), mas nenhuma delas é tão visível como a deformação, a simplificação e o empobrecimento da língua, responsáveis por uma generalizada degradação da vida pública (sobre este tema publicou um juíz do Tribunal Constitucional italiano, Gustavo zagrebelsky, um livro interessante: Sulla lingua del tempo presente, Einaudi, 2010). Entre nós, tal questão tem sido pensada por José Pacheco Pereira. Basta pensar nalguns exemplos mais evidentes (o "ajustamento", a "requalificação", a "mobilidade", a "flexibilidade", etc.), para percebermos que estamos novamente mergulhados numa novilíngua que faz lembrar a imaginada por Orwell, no seu 1984 (referência fundamental, sobre este tema, é o livro do filólogo alemão Viktor Klemperer, LTI. A Língua do Terceiro Reich, de 1975; LTI é o acróstico de Lingua Tertii Imperii). É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto-limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.

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