Natália Correia, a musa da encruzilhada dos tempos

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"As pessoas caem como folhas/ E secam no pó do desalento/ Se não as leva consigo/ A fúria poética do vento./ Para que se justifique a nossa vida/ É preciso que alguém a invente em nós."

Natália Correia

Faria, hoje, 90 anos, se fosse viva. Natália Correia, cuja existência forjada entre o telurismo das paisagens vulcânicas cuspideiras de fogo, e as pastagens idílicas da Ilha, nasceu a 13/09/1923, na Fajã de Baixo (São Miguel - Açores). Veio para Lisboa em 1934, na febre de buscar o senso à vida "Para Lisboa me trouxeram/não de uma vez e embarcada/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada/Recém-vinda de ficada/ em morosa maravilha/ sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha."

Deslumbrada pelas excentrididades das "calafonas", imitava-as, enrolando papelinhos queimados nas pontas, num prenúncio da desafiadora boquilha. Esse estilo diferenciado, cedo fascinou a rapaziada da sua idade.

De carácter rebelde, passou pelo liceu como ave migratória, reagindo mal à disciplina imposta. Esta característica viria a traduzir-se numa educação fragmentada e anárquica, marcada por influências da escola libertária e da pedagogia não directiva. "Sou aluna das ervas e frequento/ O curso nocturno do amor/ Folheando o cão que lambe o gato/ Sem saber que faz de professor."

Num inquietante desejo do impossível, venerava Afrodite cujo cântico de liberdade lhe apontava o percurso. Enquanto isso, colhia lições nos mestres sugeridos pela própria mãe: António Sérgio, Almada Negreiros, Jean de Meslier, Antero, Pascoaes e Camilo, entre outros.

O místico, o revolucionário, o celestial e o terreno confrontavam-se num rodopio a que a sua imaginação criadora dava formas desconhecidas. O culto do Espírito Santo, no qual havia sido coroada em menina, inspirara-lhe outros cultos, como o da Deusa-Mãe, do qual se dizia sacerdotiza. Na Ilha ancorara os laços que a haveriam de prender a uma raiz telúrica, que a confundiam na sua própria génese. A essa Mãe-Ilha viria a dedicar as estrofes que compôs em 1986, como sendo o Hino dos Açores.

Era lá que gostava de se sentar no banco, onde Antero se havia suicidado. Ali meditava no antagonismo dos jogos de luz da alma anteriana. Ocorria-lhe a noção de liberdade que colhia no belo e na nobreza de atitudes. Com elas fez a aprendizagem do corpo que se descobre, no eco irreprimível da mulher que se reinventa "Promessa estática no luar/ da densidade em mim corpórea/ não é a culpa, é a memória da primeira manhã do pecado/ sem Eva e sem Adão./ Só o fruto provado/ e a serpente enroscada/ na minha solidão."

Como ser multifacetado que era, implacavelmente rigorosa, campeadora da verdade e da honradez, da frontalidade e da lealdade, a mentira execrava-a, a ingratidão irava-a. Dotada de uma imaginação que batia a descompasso, deixa-nos um vigoroso protesto no poema Queixa das almas jovens censuradas: "Dão-nos um lírio e um canivete/ e uma alma para ir à escola/ mais um letreiro que promete/ raízes, hastes e corola [...] Dão-nos um bolo que é a história/ da nossa história sem enredo/ e não nos soa na memória/ outra palavra para o medo/ [...] Dão-nos um esquife feito de ferro/ com embutidos de diamante/ para organizar já o enterro/ do nosso corpo mais adiante/ [...] Dão-nos marujos de papelão/ com carimbo no passaporte/ por isso a nossa dimensão/ não é a vida, nem é a morte."

Conhecida como a maga da magia branca, era conhecedora da nossa cultura tradicional e oral, incluindo aspectos da religião popular portuguesa "Nesta arte de vulcões/ Acender com mãos tranquilas,/ Vou aprendendo as lições/ Que me ensinam as Sibilas."

Outras lições levam-na a enfrentar o recato e o proibido, em defesa do amor: "Quem não é capaz de enfrentar um escândalo por amor, não é capaz de amar." Idolatrou a relação entre Snu Abecassis e Sá Carneiro. De resto, foi ela quem estabeleceu o contacto entre ambos.

Mas casamento era outra coisa, era como um soneto recitado pelo Código Civil. No entanto, foi casada três vezes. Divorciou-se do primeiro, enviuvou do segundo, e voltou a casar. Viveu com Dórdio Guimarães, até à data da sua morte (16/03/93).

Gostava de se sentir no centro das atenções e de subverter a ordem das coisas. Quebrava preconceitos, sacudindo e escandilizando os outros, sendo mimoseada como marginal, coquete, excêntrica e promíscua. Acusavam-na de frequentar lugares terríveis, e quando regressava do Botequim ficava a conversar com marginais e prostitutas. Estes batiam-lhe palmas e ela dizia-lhes poemas "Meninas não consintam que as humilhem, lembrem-se de que são sacerdotisas do amor."

Ao Botequim acorriam os artistas da palavra. Ao som do piano, que dava o tom de expurga ao regime cessante, forjavam-se os primeiros passos da liberdade.

Locutora, jornalista, cronista, poeta, prosadora, dramaturga e deputada (PSD), depois como independente pelo PRD, usava a palavra como arma, revelando uma forma única de estar na tribuna, em defesa da liberdade, dos direitos humanos e da cultura, pois "os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava." Esta postura granjeou-lhe, o tratamento de "amiga deputada."

Excessiva e transbordante, a sua escrita ameaçava os que não a conseguiam entender, e desafiava os que não tinham a sua coragem. A Censura proibia-lhe as obras. A Poesia Erótica e Satírica leva-a tribunal. Natália ainda escreveu o poema A Defesa do Poeta, mas justiça não rimava com poesia, e foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa.

Deixa-nos uma vasta obra, distribuída por contos, romances, ensaios, teatro e antologias poéticas, mas é nos sonetos românticos que atinge a completa mestria e maturidade poéticas.

Aqui fica aquilo a que ela chamaria vãos sinais: menos ou mais, dos seus desdenhados escritos.

"Que todos vivam a sua morte enquanto é tempo/ afagando-a como uma flor na consciência./ Desprendê-la que a desprenda o canto./ Que o canto é já sobrevivência."

Autora de A Senhora da Rosa - Biografia de Natália Correia, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2006