Chamavam-se Death e ninguém sabia que estavam a inventar o punk

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Ainda os Ramones estavam dentro da garagem e três irmãos, David, Bobby e Dannis, aceleravam os fundamentos rock"n"roll e gritavam uma sensação de alienação que seria, alguns anos depois, pedra de toque do punk

Nos anos 1970, três irmãos fascinados por rock tocavam música acelerada e zangada na Detroit da Motown. Chamavam-se Death e foram punk quando os Ramones ainda estavam na garagem. À época ninguém os ouviu. Seriam descobertos três décadas depois. A Band Called Death, documentário agora editado em DVD, conta a incrível história da banda.

O homem tinha demasiadas cópias de um single com história nebulosa. Tinha sido o autor da arte gráfica do disco mas, como a banda não tinha dinheiro para lhe pagar, foi-lhe entregue uma generosa parte da edição para vender. Ele recuperaria o dinheiro, a banda teria alguém a publicitar aqui e ali o disco auto-editado. Acontece que o homem deixou os discos a um canto a acumular pó. Pegou neles três décadas depois e vendeu-os a uma loja de discos da sua cidade, Detroit. Fê-lo no final da primeira década do século XXI. Aquele single, Politicians in my eyes, valia então 800 dólares no mercado de coleccionadores. Os seus autores, os Death, já não existiam, mas estavam prestes a renascer na era da internet.

Esta é a parte menos impressionante da história contada em A Band Called Death, documentário de Jeff Howlett e Mark Corvino, estreado em 2012 e editado agora em DVD. Eis a sinopse: no início da década de 1970 três irmãos negros de Detroit, David, Bobby e Dannis Hackney formam os Death. Apaixonados por Pete Townshend, Jimi Hendrix e Alice Cooper, tocam rock"n"roll em volume altíssimo, aguentam as reclamações dos vizinhos e o riso enternecido da família. Nenhuma editora pega neles (o nome Death afastava-as todas). Trinta anos depois descobre-se o que os Hackney estavam a descobrir antes de toda a gente. "Esta banda era punk antes de o punk ser punk", titulou o New York Times em 2009, num artigo agora histórico publicado quando a editora Drag City lhes lançou o primeiro álbum: ...For The Whole World to See. Ainda os Ramones estavam dentro da garagem e três irmãos aceleravam os fundamentos rock"n"roll e gritavam uma sensação de alienação e desconforto que seria, alguns anos depois, pedra de toque do punk: Freaking out ou You"re a prisioner, duas das canções, são prova disso mesmo.

"Vamos chamar-nos Death. Porque a morte é verdadeira", diria David Hackney, o guitarrista e compositor, filho de um pastor baptista, homem que dizia não ter ídolos na Terra: "O meu ídolo é Jesus Cristo. Quero tocar perante o trono de Deus Todo Poderoso". David morreu em 2000 com um cancro no pulmão. A Band Called Death é a história incrível da sua banda. A história tocante de uma família e de um visionário, David Hackney, que não chegou a colher os frutos da sua visão.

Destroços na cidade frenética

Tudo começou em Detroit (e, não só por isso, não demoraram os paralelismos entre a história dos Death e a de outro filho da cidade, Sixto Rodriguez). É na cidade que começamos. Na cidade hoje, filmada quando a bancarrota se aproximava rapidamente. Tudo destroços: fábricas, casas, hotéis. Corte para o passado. A mesma cidade. "Cidade frenética", descrevem os Hackney. "Uma cidade que, com a Motown, estava cheia de vida", descrevem mais pormenorizadamente. A história dos Death decorreria, porém, em paralelo à da editora de Supremes ou Marvin Gaye.

Bobby, o baixista e vocalista, e Dannis, o baterista, contam como o pai juntou toda a família para ver a histórica primeira aparição dos Beatles na televisão americana, em 1964 - Bobby ficou apaixonado pelo baixo de McCartney, David por Lennon e sua guitarra. Onde a soul e a pop da Motown imperavam, três irmãos queriam tocar rock"n"roll: veriam os The Who e estava mais que decidido, passaram por um concerto de Alice Cooper e não havia dúvidas, era aquilo mesmo. Submergiram no pure rock"n"roll. A mãe reconverteu uma divisão da casa em estúdio e diariamente, das 15h às 18h, David e os irmãos foram criando aquela música rápida e intensa, premonitória do futuro. Em A Band Called Death só temos a música em fundo para o perceber. Não existem imagens de arquivo (apenas fotos e registos áudio de David) e, como tal, justapõem-se a esta música suada, excessiva, a meio caminho entre a riffalhada heavy metal (eles também gostavam dos Black Sabbath) e o hardcore por vir (música zangada e heróica, desejo de classicismo transformado em algo novo), as imagens ingénuas de gravações caseiras mais recentes: as de casamentos e de funerais, ou as registadas pelos realizadores que acompanharam os irmãos durante cerca de três anos - no início, vemo-los no bairro de Detroit onde cresceram a falar com antigas vizinhas: "Lembras-te da nossa banda, os Death?", perguntam eles, sempre sorridentes, e elas riem, riem muito e tapam os ouvidos com as mãos.

Em A Band Called Death encontramos depoimentos de celebridades: Questlove, dos Roots, Vernon Reid, dos Living Colour, Henry Rollins, Jello Biafra, Mick Collins, dos Dirtbombs, o actor Elijah Wood ou Ben Blackwell, homem do rock"n"roll de Detroit, um dos bateristas dos Dirtbombs. O que dizem são, porém, banalidades perante o que a música evidencia: que são impressionantes as curvas e contracurvas da história, que haverá tanto que não sabemos escondido em memórias, caves e sótãos de quem, por uma razão ou por outra, nunca conseguiu que a sua voz se espalhasse mundo fora. No caso dos Death, nunca os ouvimos antes por uma questão de integridade.

O álbum que a Drag City lhes editou em 2009 foi resultado de uma sessão, em 1974, nos United Sound Studios de Detroit, onde gravavam os Funkadelic ou Gladys Knight, patrocinada pelas Groovesville Productions de Don Davis, anteriormente produtor na Stax. Davis adorava-os - "A energia crescia e crescia [em cada canção] e era maravilhoso para mim ver estes músicos jovens com tanto para dizer", exclama no documentário. Don Davis levou a música a um dos gigantes da indústria, Clive Davis, da Arista Records e a reacção, conta, foi semelhante. Havia, porém, um problema, o nome. Se rebaptizassem a banda, teriam um contrato de 20 mil dólares à espera. David foi inflexível. "Se lhes damos o nome, mais vale darmos-lhes tudo", terá dito. Os Death começam a desaparecer nesse momento. Mudar-se-iam de Detroit para Burlington, no Vermont, e não demorariam a chamar a atenção. David espalhou pela cidade vários cartazes com um logótipo da banda sob o qual se lia "Death" e o xerife local foi rápido a contactá-los - "Não queremos gangues na cidade", avisou.

A banda terminaria em 1978. Nasceria pouco depois, com os mesmos elementos, o gospel rock dos 4th Movement. No início da década de 1980, David desistiu. Regressou a Detroit. Os irmãos continuaram. Depois de um encontro com Peter Tosh formaram uma banda reggae, os Lambsbread (David considerou a mudança uma traição ao espírito do rock"n"roll). Os Death foram-se tornando uma memória distante, a banda em que só o irmão acreditava. Acreditou até ao fim. Pouco antes de morrer, entregou os "masters" das gravações da banda a Bobby. "O mundo vai aparecer para ouvir os Death", disse-lhe.

Avançando 20 minutos no documentário vemos uma banda em palco a tocar canções dos Death. Chamam-se Rough Francis (a alcunha de David). Na plateia vemos Bobby com a mulher, lágrimas escorrendo-lhe pela cara. Dois dos Rough Francis são os filhos do baixista. Haviam descoberto dos Death da forma mais inesperada: reconheceram a voz do pai quando ouviram uma canção da banda na internet. O designer com que iniciámos este texto já havia vendido os singles de "Politicians in my eyes", os singles já tinham sido transferidos para o mundo digital e os Death já eram ouvidos em festas underground em Detroit, celebrados como misteriosos precursores do punk. Acontece que os filhos de Bobby nunca tinham ouvido falar deles. Pais e tios nunca lhes haviam dito o que tinham andado a fazer em meados da década de 1970.

Hoje, os Rough Francis continuam a homenagear os Death e os irmãos resgaram o guitarrista Bobby Duncan à sua banda reggae e tocam para continuar o que David nunca conseguiu concretizar. A Drag City já editou, para além de For The Whole World To See, a compilação de preciosidades e curiosidades Spiritual Mental Physical. Fala-se de um novo álbum de originais. É provável que no bairro já toda a gente goste da música dos Death.

O último single gravado por David Hackney, edição de autor, naturalmente, tinha no lado B uma canção com o seguinte refrão: "Don"t you worry now, we"re gonna make it". Ele sabia. David sempre soube.