Pais em protesto: "Tragam os agasalhos e até as crianças"

Pais e filhos estiveram ontem em vigília na Escola Básica Parque das Nações, em Lisboa
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Pais e filhos estiveram ontem em vigília na Escola Básica Parque das Nações, em Lisboa

Em Lisboa protestou-se por causa de um contentor no dia em que Nuno Crato disse que há escolas "que não estão nas condições desejáveis", mas que está a fazer tudo para resolver as "situações mais urgentes"

"Noite de vigília! Todos à porta da EBPN a partir das 19h! Tragam agasalhos e até as crianças! Fiquem o tempo que puderem, mas fiquem! Nenhum esforço é de mais quando está em causa o interesse dos nossos filhos!" - foi este o repto do comunicado que ontem circulou pelas caixas de email de pais da Escola Básica Parque das Nações (EBPN), em Lisboa. E quando a noite começou a cair, algumas dezenas de pais compareceram.

À porta da escola havia tendas coloridas e muitas crianças pequenas em barulhenta brincadeira, enquanto pais e mães falavam aos jornalistas. Em causa está o facto de ter sido instalado um monobloco climatizado na escola, que os encarregados de educação simplesmente descrevem como "um contentor sem espaço nem casa de banho", onde é suposto, dizem, ser instalada uma turma.

"São menos de 50 metros quadrados para 26 crianças. A câmara municipal enviou-me hoje uma resposta a uma exposição que fiz, dando por adquirido que ali será instalada uma turma do jardim-de-infância, garantindo que o contentor tem todas as condições", disse ao PÚBLICO uma mãe que mostrou o email da autarquia. Como os meninos do jardim-de-infância almoçam nas salas de aula, isto significará que passarão "o dia inteiro" num contentor, onde das janelas só vêem grades e uma nesga de céu - "porque as janelas, gradeadas, não estão à altura de uma criança daquela idade".

À porta da escola, que estava fechada (da sede de agrupamento ninguém atendeu os telefones ao fim do dia), os pais prosseguiam as suas queixas: "O problema é a escola estar projectada para oito salas de 1.º ciclo e ter aberto dez", não havendo espaço para tantos alunos, dizia Patrícia Branco. "O problema é que a segunda fase das obras de construção nunca avançou", continuava.

A escola está lotada, sintetizavam Carla Ferreira e Rita Ribeiro, ambas mães de alunos da EBPN. "Mas há outras alternativas ao contentor", defenderam. Por exemplo: usar a sala que actualmente funciona como refeitório, ou até a sala dos professores, para acolher a turma que está a mais e "transferir os professores ou o refeitório para o contentor".

Professores no contentor?

"Nos últimos anos, o parque escolar da zona do Parque das Nações esgotou a sua capacidade de resposta para as necessidades educativas desta comunidade da cidade de Lisboa. A escola Vasco da Gama está a rebentar pelas costuras e "exporta" crianças para a EBPN", prosseguiu Carla Ferreira. Este ano foi constituída uma turma do 1.º ciclo a mais e foi a última gota. "O agrupamento informou a associação de pais de que uma sala do jardim-de-infância ia ser ocupada por essa turma."

Carla Ferreira era uma das mães que se dispunham ontem a passar a noite à porta da escola, com o filho. Mas havia mais. Havia tendas e agasalhos e para esta mãe "até é pedagógico" que as crianças aprendam de pequeninas que, "para defender os seus direitos", podem ter de protestar.

Mas na semana do arranque do ano lectivo, há mais quem se queixe noutros pontos do país. Em Coimbra, um grupo de pais diz-se indignado com o facto de o Ministério da Educação e Ciência (MEC) ter recuado na validação da abertura de uma turma de 5.º ano na escola-sede do agrupamento, a Secundária Jaime Cortesão, situada no Centro Histórico da cidade, e asseguram que será ali que a partir de sexta-feira entregarão as crianças, "todos os dias, até o problema ser resolvido".

"O MEC anda a ver se nos cansa e se desistimos, mas não - a turma chegou a estar validada, em Agosto, e o argumento de que a tipologia da escola não é adequada a crianças do 5.º não faz sentido, já que a própria direcção do agrupamento diz o contrário", argumenta Jorge Neves, representante dos pais.

A directora do agrupamento, Amélia Loureiro, também não compreende a justificação do MEC e acha justa a reivindicação dos pais, na medida em que uma das escolas do 2.º ciclo está a quinze quilómetros (em São Silvestre) e outra na margem esquerda do Mondego (Silva Gaio). "Não se trata de ser longe, mas os transportes públicos não estão organizados para transportar as crianças para aquele local e o percurso a pé é perigoso", diz Jorge Neves.

Ontem, o ministro da Educação, Nuno Crato, reconheceu que "há uma série de escolas que não estão nas condições desejáveis", mas sublinhou que, apesar das limitações financeiras, a tutela "está a fazer o que pode, pouco a pouco, para resolver as situações mais urgentes".

Após a inauguração das obras de requalificação da Escola Básica dos 2.º e 3.º ciclos Pedro Jacques de Magalhães, em Alverca do Ribatejo, em Vila Franca de Xira, Crato explicou ainda que está a trabalhar com a Parque Escolar e a "pressionar" a empresa pública para que as intervenções mais urgentes que ficaram por concluir em algumas escolas sejam resolvidas.

A requalificação da Escola Pedro Jacques de Magalhães custou à Câmara de Vila Franca de Xira e ao MEC perto de 6,5 milhões de euros, tanto quanto a Parque Escolar gastou em metade das obras já realizadas na Secundária Gago Coutinho, a cerca de 200 metros. Há ano e meio, essas obras foram suspensas. Não há garantias de que sejam retomadas tão cedo.