Desarmar arsenal químico é uma tarefa quase impossível

Síria terá de aderir à Convenção de Armas Químicas o que obriga a declarar os seus arsenais.

Localizar, selar e destruir um arsenal que, segundo as estimativas, incluirá centenas de toneladas de agentes altamente tóxicos é uma tarefa demorada, arriscada e muito dispendiosa. Mas fazer tudo isto num país devastado há dois anos e meio por uma guerra entre um ditador imprevisível e uma rebelião fraccionada, com faixas de território que mudam todas as semanas de controlo pode ser simplesmente impossível.

"Estamos no meio de uma guerra civil brutal, em que o regime massacra o seu próprio povo. Alguém espera que eles parem a matança para permitir que os inspectores assumam o controlo e destruam as suas armas químicas?", pergunta um responsável norte-americano ouvido pela Reuters, dando conta do cepticismo com que a Administração Obama olha para a rapidez com que Bashar al-Assad aceitou o plano russo para destruir um arsenal que a Síria nunca reconheceu, mas que segundo estimativas externas pode rondar as mil toneladas de gás mostarda, sarin e, talvez, o mais letal, VX.

O facto de todas as partes estarem dispostas a dar uma hipótese ao plano é um primeiro passo para a sua execução, que passará antes de mais pela aprovação uma resolução nas Nações Unidas. A Síria terá então de aderir à Convenção de Armas Químicas, o que a obriga a declarar os seus arsenais - terá de revelar exactamente de que químicos e munições dispõe; em que quantidades; onde os produz e armazena; e se mantém o controlo de todos os stocks.

Ficará também obrigada a aceitar a visita dos inspectores da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) para "verificar ao quilo os seus agentes químicos e as munições", disse à AFP um especialista em desarmamento. Mas, para isso, a segurança dos inspectores tem de ser garantida e o exemplo da recente visita dos peritos da ONU a Damasco - ficaram debaixo de fogo na primeira tentativa para chegar ao local dos ataques de 21 de Agosto - mostra que só um (improvável) cessar-fogo entre o Exército e os rebeldes permitirá cumprir a missão.

Já no terreno, os peritos devem demorar meses a identificar os sítios onde são produzidas e armazenadas as armas químicas. E há sempre a possibilidade de o regime decidir manter parte do programa em segredo. Saddam Hussein fê-lo durante anos no Iraque e Muammar Khadafi também só cedeu após grande pressão, recorda Amy Smithson, perita do Centro James Martin para os Estudos de não Proliferação, em Washington.

Os especialistas dizem que há formas de descobrir omissões (comparando, por exemplo, listas de produção com as de stocks), mas o secretismo que sempre rodeou o programa sírio dá aos peritos uma frágil base de trabalho. O Instituto de Estudo Estratégicos e de Segurança (IISS) revelou que os EUA sabem onde ficam os cinco maiores depósitos, mas ao todo são 40 os locais suspeitos de responderem perante o Centro de Estudos e Pesquisas Científicas, que coordena o programa. A isto acresce a convicção de que parte do arsenal foi transferida nos últimos meses e de que há unidades militares a misturar os componentes junto à frente de batalha. Mas localizar as armas é apenas a primeira tarefa. Selá-las, protegê-las e destruí-las é a parte difícil, sobretudo estando a Síria em guerra. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-mon, propôs a criação de zonas tampão supervisionadas pela organização, onde os tóxicos "seriam depositados em segurança e destruídos". Só que além de obrigar ao envio de militares, há o risco de acidentes ou atentados durante a transferência.

Já a destruição das armas, além de complexa e perigosa, é uma tarefa para muito anos - desde a ratificação da Convenção, em 1997, apenas 80% dos arsenais existentes no mundo foram desactivados, e tanto a Rússia como os EUA ainda não a concluíram.

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