"A arquitectura está saturada de homens brancos de sucesso"

rita chantre
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rita chantre

Não haverá exposições de arquitectura tradicionais na terceira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, que começa na quinta-feira, anuncia a comissária Beatrice Galilee.

A terceira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa arranca na quinta-feira, com a inauguração de uma das suas grandes exposições: Futuro Perfeito, no Museu da Electricidade. Serão três meses nos quais se vai pensar a arquitectura de uma forma diferente do que é habitual. Não há exposições sobre projectos, há jantares, debates, encontros, jogos, descobertas. E muitos jovens com vontade de provar que o que fazem também é relevante. "O que estamos a fazer não é para as "tribos" da arquitectura portuguesa", diz a curadora-geral, a britânica Beatrice Galilee.

Há dois anos, quando foi apresentada como curadora-geral da Trienal de Arquitectura de Lisboa, disse que ia partir à descoberta da cidade. O que aconteceu nestes dois anos, o que é que aprendeu sobre Portugal e como é que isso se vai reflectir na trienal?

Sabíamos que queríamos mostrar diferentes tipos de prática arquitectónica e usar a trienal para fazer avançar a disciplina e não apenas para fazer exposições de arquitectura.

Ao mesmo tempo, queríamos que fosse um acontecimento internacional, com relevância além das fronteiras de Portugal, mas também poderoso e importante para Lisboa. Uma das formas de fazer as coisas seria nós próprios pesquisarmos e tentarmos encontrar as pessoas. Outra forma é dizer que podem entrar em contacto connosco. Fizemos ambas as coisas: as open calls e os contactos.

Temos, por um lado, um programa como o da Mariana Pestana [curadora da exposição A Realidade e Outras Ficções, no Palácio Pombal], que é muito baseado em Lisboa, no património, na história do edifício, e de Portugal. Mas conseguimos também ser esta espécie de farol que atraiu muita gente e conseguiu reunir coisas muito interessantes, seja através das bolsas Crisis Buster, em que convidámos pessoas a apresentar ideias para Lisboa, ou dos projectos associados em que convidámos todos os que quisessem a ligar-se à trienal.

Foi muito importante perceber que não estávamos a falar em circuito fechado. Quando planeámos o guia da trienal, contámos com páginas para 15 projectos associados. No dia em que terminou o prazo, olhei para o dossier e havia 160 candidaturas. De repente, pensei: "Oh, meu Deus, isto não é um programa de nicho, não é arquitectura alternativa, é um programa mainstream e popular".

E como se concretiza a dimensão internacional?

Eu venho de Londres, tal como o Liam Young [curador de Futuro Perfeito, a exposição do Museu da Electricidade], a Mariana e a Danni Admiss [curadora da exposição O Efeito Instituto, no MUDE], o José Esparza Chong Cuy [curador do FórumNovos Públicos] viveu em Nova Iorque e agora vive no México. Por todo o lado, toda a gente está a falar de Lisboa. Perguntam: "Vais a Lisboa, quem vai a Lisboa, quando é que vão a Lisboa?"

Esperam, então, muitos visitantes estrangeiros?

Sim, porque recebemos muitas perguntas, pedidos e manifestações de interesse. É muito excitante, de repente, toda a gente saber desta pequena trienal. E ela nem sequer começou. Julgo que é por ser uma equipa jovem e um programa que tem a ver com a investigação em torno de uma disciplina, mas que é também incrivelmente inclusivo, porque o que nós dizemos é que não são só os arquitectos que afectam a arquitectura. Os escritores, os críticos, os curadores, todos afectam a prática da arquitectura, a paisagem, a forma como as pessoas entendem as coisas. Estamos a oferecer a disciplina a outras pessoas, e isso é um gesto generoso.

Há muitos jovens estrangeiros a trabalhar como voluntários na organização da trienal?

Sim, temos pessoas que vieram de Istambul, de Hong Kong, pessoas que leram sobre o projecto e quiseram trabalhar nele. No programa Crisis Buster e nos concursos, as pessoas são todas muito jovens, há muitas jovens mulheres, e estou muito orgulhosa com isso, porque sinto que o que fazemos é realmente diferente. Habitualmente, o que as exposições de arquitectura fazem é celebrar arquitectos que são homens, velhos, brancos, ricos e com sucesso. A arquitectura está tão saturada de homens brancos bem-sucedidos. Se for um deles, provavelmente achará que o programa Close, Closer não é para si, mas tudo bem.

Sente que isso está a acontecer em alguns meios da arquitectura em Portugal?

É difícil, porque não sei o que é que se anda a dizer. Não vou às festas onde as pessoas possam discutir isto. Tenho a sensação de que muitas estão a pensar: "Mas que raio estão eles a fazer? Estão malucos?" Mas eu não podia estar mais feliz com este programa nem acreditar mais nele. E nem sequer me ocorreu que fosse uma questão o facto de não haver arquitectos portugueses famosos nas exposições. Isso não está sequer no nosso radar. O que está em causa é algo muito maior do que a política local.

O que estamos a fazer não é para as "tribos" da arquitectura portuguesa. Nós nem sabemos quem elas são. É essa a vantagem de virmos de fora, não sabemos em que domínio estamos a pisar, quem é que estamos a ofender ou o que estão a dizer de nós. Queremos fazer isto apenas porque acreditamos.

Mas pensemos, por exemplo, em jovens estudantes de arquitectura. Não poderão eles estar interessados em ver obras, em conhecer projectos de outros arquitectos?

Não é difícil encontrar sítios para ver arquitectura. Pode-se andar pelas cidades e ver os edifícios de Siza. Andem pelas ruas e vejam-nos. Todos os museus de arquitectura do mundo têm exposições em que se pode ver arquitectura. Não faltam publicações sobre arquitectura. Há tanta coisa, tantas formas de compreender o que é a arquitectura, online, blogues, sites, fóruns, pode-se descarregar toda a informação necessária, pode-se ver conferências, ler entrevistas. Quem é que precisa de uma exposição para isso?

A cada três anos, temos um evento ligado à arquitectura. Por que é que quereríamos usar essa oportunidade para mostrar coisas que se podem ver de outras formas? Não fará mais sentido usar os recursos que se têm para fazer uma coisa completamente única, totalmente feita para esse momento, para si, como visitante de Lisboa?

As pessoas vêm porque não podem deixar de vir. Não podem ir ao Futuro Perfeitoonline. Não podem ter a experiência dos jantares no Palácio Pombal online. Para se ir ao FórumNovos Públicos, tem que se vir a Lisboa.

Quando se faz uma exposição de arquitectura faz-se uma coisa sobre hoje, sobre o futuro e não sobre o passado. Devem experimentar-se coisas novas. Como curadora, quero testar as fronteiras, ver até onde se pode ir. Claro que pode ser um desastre completo, pode não vir ninguém e chover, e tudo cair, é possível que nada funcione. Mas ao mesmo tempo todos sentimos que estamos a tentar fazer uma coisa totalmente original.

É uma nova geração a ocupar o espaço do discurso sobre arquitectura?

Há sempre uma nova geração, a questão é que esta geração não está a reagir à anterior. Não é uma homenagem, não é estarmos a dizer "detestamos o que vocês fazem". É um caminho paralelo. Ninguém está a dizer que queremos fazer o contrário da geração anterior e talvez seja isso que crie algum desconforto. De certa forma, eles são completamente irrelevantes nesta conversa.

Estamos a mostrar outro mundo que não tem habitualmente visibilidade e a dizer que ele também é válido. Não temos que falar sempre das histórias de sucesso, podemos falar da luta de ser um jovem arquitecto em Lisboa. Os Artéria, que são um atelier português, estão a tomar conta de uma montra de uma loja na Praça da Figueira e a fazer workshops para ajudar os arquitectos a conseguir empregos. Os Unipop estão a fazer uma série de seminários, como se fosse um pequeno curso universitário.

Todos estes projectos generosos são pensados como reacção às condições em que estamos a viver, como jovens arquitectos mas também como apenas pessoas que vivem na cidade. Há uns arquitectos [Filipe Magalhães, Ana Luísa Soares] que viveram numa torre metabolista no Japão, e que se candidataram para um projecto associado, e eu disse "o que é isto?" e depois comecei a perceber que estes tipos são fantásticos. O que fazemos é revelar coisas. Não vejo isto como uma tomada de posição de uma nova geração. É uma forma de dizer: isto também está a acontecer.

Apanharam um país mergulhado numa crise profunda. Como é que isso se reflecte na trienal?

A ideia da Crisis Buster surgiu por estar sempre a ouvir as pessoas a dizer "não podemos fazer isto ou aquilo por causa da crise". Todos os dias pareciam surgir paredes à nossa frente, e, de repente, eu tive esta ideia de fazermos as bolsas Crisis Buster.

Sim, houve alguns programas específicos que surgiram da crise. Mas acho também que continuámos a fazer o que queríamos fazer. Sinto que o principal que fizemos como reacção foi continuar, não desistir. Ficámos. Há a sensação de que a produção cultural nos dias que correm é uma espécie de organização de guerrilha, temos que encontrar uma forma de fazer as coisas, apesar de tudo. Estamos aqui, vai abrir, isso é quase suficiente para mim.

Teve a experiência de trabalhar na Ásia, antes [na bienal de Shenzhen, na China, e na de design de Gwangju, na Coreia do Sul]. Imagino que tenha sido completamente diferente.

A Ásia é um continente que acredita nele próprio. A nossa visão aqui é do Velho Mundo, e isso sente-se. Há todas estas questões, como a de saber o que é que os arquitectos mais velhos vão pensar, se não seria suposto fazer as coisas de outra maneira? Não chega a ser pesado, mas há esta consciência de que há certas convenções e expectativas, enquanto na Ásia isso não acontece. Há muito mais investimento na juventude e muito mais entusiasmo em relação a ideias novas.

Mas há, ao mesmo tempo, aqui uma forte vontade de ultrapassar as dificuldades.

O que é extraordinário é que não há praticamente dinheiro envolvido nos projectos que estamos a fazer, é quase tudo feito com base na força de vontade. As exposições não teriam sido possíveis numa época em que não houvesse crise, porque as pessoas iam achar impossível. Mas, por causa da crise, dizem: "Claro, vamos fazer, vamos arranjar soluções". Há uma força de vontade que nasce de uma resistência à crise.