Crítica

A escultura como medida

A linha é tão fina que o olho, apesar de armado com uma lupa, imagina-a ao invés de vê-la

O trabalho de Leonor Antunes (LA) caracteriza-se por uma relação intensa com os espaços que habita. Uma relação não fechada sobre a arquitectura enquanto coisa material e objectual, carregada de sentidos e sintomas culturais e civilizacionais, mas enquanto espaço que se pode habitar, percorrer e que, num certo sentido, se pode apropriar. Pode dizer-se tratar-se de uma espécie de relação primitiva, desintelectualizada, directa com o espaço, com a arquitectura e, claro, com o corpo.

Um dos gestos mais característicos desta artista é a medição. Esta acção tem dois sentidos principais: primeiro, uma ideia de performatividade dada pelo movimento da artista a medir os espaços onde expõe e que são uma parte importante do seu projecto reflexivo, o qual se prolonga no movimento do espectador (para se dar conta dessas medidas e do modo como traduzem abstractamente a estrutura material da arquitectura precisa percorrer o espaço e, por exemplo, seguir uma linha); segundo, medir é uma forma de compreender, conhecer e, sobretudo, representar uma grandeza espacial tornando-a comunicável, transmissível, partilhável.

Aquelas características não esgotam as dinâmicas criativas e reflexivas do trabalho de Antunes, mas permitem o acesso a uma espécie de lógica racional que regula uma parte importante da sua obra e que preside à ambição de desenvolver um trabalho claro, rigoroso, directo e, sobretudo, não excessivo. Mesmo sendo possível filiar Leonor Antunes nas famílias de artistas ligadas ao minimalismo e ao conceptualismo, não está em causa a reprodução imediata e directa do mote minimalista do less is more, nem a pesquisa conceptual do conceito certo, mas uma espécie de ética criativa iluminada pela recusa de adicionar mais e mais objectos ao mundo. Um princípio de negatividade com a função de dirigir a adestrar a atenção para os detalhes e pequenas existências e que é uma forma de tornar a atenção mais rigorosa e acutilante.

Por isso muitas vezes as suas obras são gestos que não se traduzem em performances, mas materializam-se, por exemplo, numa linha dourada que percorre uma parede. E percorrer uma parede é percorrer a sua orografia, descobrir os seus acidentes, observar os detalhe. Uma disciplina poética da atenção que, muitas das vezes, se traduz em coisas quase invisíveis, como é o caso de Chão I em que uma linha dourada percorre a sala e acompanha as paredes, os vãos, as imperfeições construtivas. Um acompanhamento ditado por um levantamento minucioso e muito rigoroso do local em que a linha se estende e que invoca não só a ideia originária do fio de Ariadne, mas desenvolve o pressuposto que medir é uma forma de chegar ao mundo.

Nesta exposição Leonor Antunes não partiu do diálogo directo com a arquitectura do espaço expositivo para o desenvolvimento das obras, mas as 4 esculturas formam-se a partir do jogo entre ver e imaginar que o título da exposição anuncia. E este é um jogo com a vocação perspectivista do olhar humano. O que implica interpretações e adaptações dos objectos de forma a se poderem acomodar ao olho e das quais muitas vezes resultam duplicações e ilusões. Não que as esculturas queiram denunciar, desconstruir ou eliminar essas ilusões; mas Leonor usa-as como elementos que desenvolve nas suas esculturas.

As esculturas são estruturas de madeira rectangulares sobre as quais estão suspensas linhas que lembram as redes de pescadores (recorde-se a manualidade da sua construção, utilização e manutenção), são uma espécie de molduras ou ombreiras de grandes portas que tornam consciente a presença de um vazio e as ideias de limite, confinamento e transposição. Esculturas estas que conferem a esta exposição uma importante dinâmica: de um lado as linha percorrem a sala reforçando a suas escala, grandeza, volumetria e existência, por outro os umbrais activam a presença do vazio que não se pode medir, mas só pressentir. E esta relação entre figura e vazio, volume e ausência é essência no trabalho desta artista.

Para além desta exploração das forças activas na arquitectura e no espaço, esta exposição vive de uma intensa encenação. A disposição das esculturas e a iluminação conferem ao espaço expositivo uma dimensão teatral (a lembrar os l-beams de Robert Morris) que reforça o modo como é o corpo do espectador que activa o corpo da escultura, que o mede e dele se apropria. Desta forma pode dizer-se, como síntese, que a escultura é para Leonor Antunes sobretudo uma forma de medir o mundo e de fazer face às suas existências.