Miguel Gomes e o cinema que não dispensa o mundo

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O novo filme de Miguel Gomes contará um ano da vida portuguesa PEDRO CUNHA

Ao longo de um ano, as histórias do Portugal contemporâneo serão a base para o argumento do novo filme do realizador

É Miguel Gomes, realizador que gosta de ver confundido no seu cinema a ficção e a realidade, quem diz que "o cinema não pode dispensar o mundo". O cinema, acredita, "vive de conflito" e a situação na qual hoje vivemos, em Portugal, claro, porque é do Portugal contemporâneo que fala o seu cinema, "tem um potencial enorme de conflito". Por isso, ainda que não exista filme até Março de 2015, durante um ano haverá histórias para contar, tal como Sherazade contava ao rei Shariar. O rei é, claro, Miguel Gomes, que ontem, em conferência de imprensa, apresentou As Mil e Uma Noites, título de um filme que quer encontrar "as personagens extraordinárias" de uma sociedade "que vive sob um resgate financeiro" (ver PÚBLICO de 28 de Agosto de 2013). Sim, as noites serão as portuguesas, porque, como o realizador escreveu quando foi director por um dia do PÚBLICO, o país vive "num momento em que realidade e ficção aparentam estar completamente interligados. Há uma troika que manda no país como num conto de As Mil e Uma Noites; muitas das histórias que ouvimos e lemos não nos parecem "reais"". Por isso, Miguel Gomes ensaiou ontem um possível início que incluiria as consequências das acções de "um conjunto de sábios" que, "num país distante", teria convocado "outros senhores" para os ajudar.

É o modo como essas histórias podem chegar ao ecrã que é novidade. Ao longo de um ano, três jornalistas, coordenados por Miguel Gomes, o produtor Luís Urbano e Maria José Oliveira, ex-jornalista do PÚBLICO, escreverão as histórias dessas "personagens extraordinárias" que, depois, servirão de material de inspiração para a equipa de argumentistas. E o processo será aberto porque Miguel Gomes considerava "egoísta" guardar o que irão descobrir. O quê ainda não sabe mas no site que desde ontem ficou disponível (www.as1001noites.com) vai ser possível ler a vida do país e acompanhar a camada ficcional que estará na base do filme. Para Miguel Gomes, é "importante ter elementos de fantasia mas não recusar o que está na origem do filme". E ainda que, por enquanto, não se saiba de que modo a realidade vai condicionar a ficção, há a intenção de que este site, "que não quer competir com os sites de informação", possa "reflectir, directa ou indirectamente, a situação actual", acrescentou na conferência de imprensa a jornalista Maria José Oliveira.

Para já, e porque os dossiers de pedido de financiamento "são altamente complexos" e solicitam elementos que o próprio realizador ainda não conhece, Miguel Gomes definiu três personagens, a partir das histórias da obra original, das quais apenas uma já encontrou corpo: Sherazade, que será interpretada por Crista Alfaiate. Nem o rei nem a irmã de Sherazade têm ainda rosto. E menos ainda se sabe quem será a quarta personagem indicada no dossier: os portugueses.

Quando o realizador Miguel Gomes foi director por um dia do jornal PÚBLICO, na edição de 5 de Março de 2013 escrevia que a ficção "é o lugar onde confluem desejos e medos, frustrações e esperanças, fantasmas e dobras de realidade". Ontem, perante os jornalistas, dizia que "o cinema não pode perder a relação com a realidade". E porque "é difícil ficar indiferente à situação caótica que vive a sociedade portuguesa", As Mil e Uma Noites será tanto o retrato de um país quando a "não-renúncia à ficção" será um passo em frente num discurso cinematográfico onde a imaginação nunca escondeu o desejo de ser real.

As Mil e Uma Noites conta com um orçamento total de 2 milhões e 700 mil euros, do qual mais de 50%, garantiu o produtor Luís Urbano, são assegurados pelos co-produtores franceses e alemães.