Roçar na Grossa

À primeira audição, Gancho, o disco mais celebrado no universo do rap tuga, hoje, da autoria do discreto mas constante MC Lisboeta Regula, soa-me abençoadamente fresco. Económico, do jeito que eu gosto, o que foge dos padrões do rap cá do sítio.

As onze faixas com que nos brinda, neste seu terceiro álbum, é o que poderíamos designar de rap com bolinha vermelha, explícito e sem papas na língua. Narra a trajectória deste músico que nasceu para o ofício quando percebeu que a língua de Camões era suficientemente elástica e apelativa para caber na prateleira do rap. Da Weasel, Boss AC, SuperShor, Valete, Sam The Kid, são alguns dos nomes que lhe provaram ser possível rimar em português e soar bem. E foi assim que, em 2002, este MC do Catujal se fez aos discos. 1ª Jornada, o seu primeiro álbum, passou meio despercebido, ainda que fazendo parte da colheita de 2002, o melhor ano para o hip hop tuga. E como prova temos os - agora clássicos - Suspeitos do Costume, Rimar Contra Maré, Educação Visual e, claro, Sobre(tudo), onde figurava o hino desta geração de músicos "faça você mesmo", o Não Percebes (O Hip Hop).

Vivíamos momentos excitantes e, por momentos, acreditámos que seria desta: o rap passaria, finalmente, a ser levado a sério. Não foi. A coisa meio que estagnou e, nos anos que se seguiram, nem o irrepreensível Pratica(mente) de Sam The Kid, nem os coliseus a cantar em uníssono todo o repertório de Boss AC fizeram a coisa espevitar. Senti como se tivéssemos regredido, voltado à estaca zero, só que agora sem o Repto do José Mariño para nos dar alento. Isto até olhar para a revolução que estava a acontecer online e ver uma luz ao fundo do túnel. Aqui, onde o barómetro de popularidade é o Youtube, é onde rappers como Regula ou NGA conseguem passar a barreira das 800 mil visualizações, sem o budget e os planos de marketing das multinacionais. Se calhar alguma coisa nos está a escapar, questiono enquanto varro o Google à procura de artigos sobre o trabalho destes novos líderes do movimento hip hop na imprensa especializada. Sem sucesso.

Gancho tem malhas suficientes para fazer abanar a cabeça de qualquer aficionado do género. Parte do apelo deste disco (sem descurar as rimas) reside nos beats, cortesia de produtores desconhecidos como o Here"s Johnny e Dre Day, dois dos artesãos que emprestam os instrumentais que lhe servem de base. E não há nada melhor do que ver/ouvir um MC em forma, cuspindo no instrumental certo, como acontece nos temas Berço D"Ouro, Cabeça de Cartaz, Ice Grill e no bem-humorado Casanova, de onde destaco a pérola com que termino esta crónica: "De Lisboa para Kingston até Saragoça/ Duas garrafas na mão, tou a roçar na grossa/ Uns 10 minutos a roçar na grossa/ Praí uns 10 minutos a roçar na grossa/ essa é tua princesa, agora é nossa sócia/ Tá a dar de stick não é só roça roça."