Ainda há segredos por desvendar no Douro

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A Quinta do Vesúvio é uma das mais emblemáticas do Douro. Foi propriedade de Dona Antónia Adelaide Ferreira e hoje pertence ao grupo Symington FOTOS: PAULO RICCA

Agora que as vindimas se aproximam a passos largos, talvez valha a pena tentar descobrir alguns segredos (ainda) bem guardados no Douro. A mítica Quinta do Vesúvio, por exemplo, onde viveu D. Antónia Adelaide Ferreira. Sandra Silva Costa

Chegar de barco à Quinta do Vesúvio e ver o edifício branco, austero e dramático aproximar-se devagar, ainda por cima debaixo de um céu de chumbo, parece coisa de filme. É certo que um barco mais romântico combinaria melhor com o cenário "Douro mais Douro não há" que nos entra olhos adentro, mas neste voo rasante às águas do rio quase podemos imaginar James Bond ao leme e vê-lo, minutos depois, com um Porto na mão e a beber sem pressas a paisagem em redor.

Por disparatada que seja, temos esta visão durante os poucos minutos que separam uma margem da outra. Ameaça chover a qualquer instante e também por isso saltamos borda fora num ápice. Não é essa, porém, a razão primordial: já lemos muito sobre a magia do Vesúvio, é a nossa estreia neste pedaço de terra encantada e, sim, temos pressa de a descobrir.

Pés ao caminho, portanto, e escolhemos palmilhar a horta em lugar de aceitar a boleia que nos oferecem de jipe. Sentimos o cheiro das laranjas e daqui a nada estaremos a prová-las, cortesia de José Álvares Ribeiro, director executivo da Symington Family Estates - que detém o Vesúvio desde 1989 -, que arranca umas quantas da árvore e nos oferece em gomos gordos e sumarentos. É a primeira de muitas delícias que provaremos na quinta, a coisa promete.

É com isto na cabeça que chegamos à entrada da lendária casa e detemo-nos por momentos a mirá-la de alto a baixo. O edifício impõe respeito - isso e as letras brancas que encimam o portão de ferro, D.A.A.F., que é como quem diz, Dona Antónia Adelaide Ferreira, "Ferreirinha" para o Douro. É um momento quase solene, este em que entramos naquela que terá sido uma das quintas favoritas de Dona Antónia. E daqui a nada julgamos perceber melhor a razão pela qual fez do Vesúvio residência habitual. Por mais Douro que já tenhamos visto, sentimo-nos quase comovidos com a tela viva que temos aos pés. O rio segue o seu curso ali em baixo, as nuvens abriram caminho a um sol de fim de tarde que se reflecte nas águas plúmbeas e ilumina os montes à volta e o silêncio, que aqui é mesmo (D)ouro, é cortado apenas pelo comboio que acabou de chegar à estação de Freixo do Numão (Vila Nova de Foz Côa), uns metros acima de onde estamos, dentro dos limites da quinta. Haveremos de brindar a esta paisagem esmagadora em breve, mas entretanto entramos na enorme casa e temos direito a escolher o quarto onde passaremos a noite.

Estão dez quartos à disposição, mas convém referir que o Vesúvio serve sobretudo a família e convidados dos Symington - somos privilegiados, já se viu. Antes de subirmos as escadas de madeira, detemo-nos a observar a reprodução do mapa O Douro Portuguez e Paiz Adjacente, da autoria do barão de Forrester (1848). Sabemos que esta cartografia está em praticamente todas as quintas da região, mas também sabemos da amizade que unia Joseph James Forrester a Dona Antónia - e, aliás, também sabemos que terá sido do Vesúvio que ambos embarcaram na viagem fatídica que culminaria na morte do britânico, no Cachão da Valeira, em 1861. O lugar onde estamos "obriga" a que olhemos atentamente para o curso do rio como o imortalizou Forrester.

Deixamo-nos estar por aqui uns minutos e quando finalmente subimos já perdemos o quarto com namoradeiras junto das janelas. Optamos, por isso, por um com varanda sobre o Douro - e logo mais, quando o breu da noite se tiver abatido sobre nós, perceberemos melhor por que é que o Vesúvio tem esta aura misteriosa que não se explica, só se sente.

Uma quinta, uma lenda

Já passa das 17h, mas ainda assim estamos no seio de uma família inglesa: servem-nos um chá no varandim resvés rio e assim nos deixamos estar a folhear algumas páginas da história do Vesúvio. Rezam as crónicas que António Bernardo Ferreira comprou a quinta em 1823, quando ainda era conhecida como Quinta das Figueiras. Percebendo de imediato o potencial da propriedade, António Bernardo contratou, em Novembro desse mesmo ano, 100 homens que começaram o trabalho faraónico de construção da vinha - dois anos mais tarde, eram já mais de 1000 os braços que, lê-se no Guia de Portugal de Trás-os-Montes (Fundação Calouste Gulbenkian), "cacharam as ilhargas dos montes, levantaram os muros dos socalcos e plantaram os bacelos". A construção dos patamares que ainda hoje dominam a paisagem do Vesúvio levou 13 anos.

Em 1845, já viúva de António Bernardo Ferreira e depois de ter rebaptizado a quinta como Vesúvio, Dona Antónia tomou conta da propriedade e fez dela morada frequente. Durante a praga da filoxera, que devastou muitas quintas do Douro, nunca cruzou os braços e mandou plantar no Vesúvio amendoeiras, oliveiras e laranjeiras. Os muros de xisto que, aqui e ali, ainda hoje são visíveis na quinta, foram construídos justamente nesta altura: em lugar de dispensar os trabalhadores, a Ferreirinha optou por mantê-los ocupados com a delimitação da propriedade - uma tarefa também ela hercúlea, sobretudo se pensarmos nos (actuais) 325 hectares de Vesúvio, que se espraiam dos 130 aos 530 metros de altitude.

Houve, naturalmente, altos e baixos na história da Quinta do Vesúvio. Em 1989, o grupo Symington - detentor, entre outras, das marcas de vinho do Porto Graham"s, Warre"s, Dow"s - comprou-a, com o objectivo de lhe "restaurar a glória". "Esta não é uma quinta, é uma lenda", gosta de dizer Paul Symington, presidente do conselho de administração do grupo, para assim explicar a ambição "de devolver à propriedade o estatuto que o peso do seu nome impunha". Houve lugar a replantações várias, a área de vinha quadruplicou -138 hectares plantados, num universo de 325 de área total - e a decisão inicial foi a de produzir no Vesúvio exclusivamente vinho do Porto vintage. Vinte anos depois de ter comprado a propriedade, a Symington entrou no mercado dos DOC Douro: hoje tem o Quinta do Vesúvio e o Pombal do Vesúvio, que experimentamos ao jantar, com direito a explicações técnicas de Mariana Brito, gestora Douro DOC da Symington, que nos acompanha nesta visita.

A partir de 16 de Setembro, centenas de braços começarão a colher as uvas que crescem pelos socalcos que avistamos por todo o lado. No Vesúvio, todas as uvas são vindimadas à mão e transportadas directamente para os lagares de granito da adega que José Álvares Ribeiro nos mostra agora. São, depois, integralmente pisadas a pé - esta é uma das últimas grandes quintas do Douro que mantém a pisa tradicional, chegando cada lagar a ter grupos de 50 pessoas. Os enormes lagares de pedra estão, por ora, vazios, mas em breve encher-se-ão de homens e mulheres que, trajando camisas xadrez e a um ritmo compassado, calcarão sem dó nem piedade os cachos retirados da vinha.

Diz quem já viu que este é um espectáculo inesquecível, mais um daqueles momentos mágicos que se vivem no Vesúvio. Não vimos, mas não temos por que duvidar.

A Fugas esteve na Quinta do Vesúvio a convite da Symington Family Estates