A mão de Bernardo Bertolucci no palmarés do Festival de Veneza

O documentário Sacro GRA recebeu o Leão de Ouro. Um palmarés em que o presidente do júri se cumpre como homem do underground infiltrado no mainstream — é assim que ele se gostaria de ver.

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O realizador Gianfranco Rosi e Bernardo Bertolucci na entrega do Leão de Ouro
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Sacro Gra, de Gianfranco Rosi
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O realizador Gianfranco Rosi no Festival de Veneza REUTERS/Alessandro Bianch

É a primeira vez, em 15 anos, que um filme italiano leva a consagração máxima no Festival de Veneza: Sacro GRA de Gianfranco Rosi, recebeu o Leão de Ouro da 70.ª edição, atribuído este sábado no Lido de Veneza — Così ridevano, de Gianni Amelio, foi o italiano anterior.

Dir-se-ia que anda aqui a mão (italiana) do presidente do júri, Bernardo Bertolucci, que ainda escolheu uma compatriota como melhor actriz: Elena Cotta, em Via Castellana Bandiera, de Emma Dante. Talvez ande, mas que não se acuse Bernardo de excesso de patriotismo. Goste-se mais ou menos dos filmes premiados, problematize-se as dificuldades (ou não) de Gianfranco Rosi em tornar as personagens e as suas histórias — que procurou durante seis meses de investigação — emanações de um lugar, o Grande Raccordo Anulare (GRA), 64 quilómetros de autoestrada à volta de Roma; veja-se no prémio do júri a Stray Cats, de Tsai Ming-liang, a confirmação da acusação de que o malaio, que até faz irromper no seu universo descarnado a fábula e a infância (homenagem a A Sombra do Caçador, de Charles Laughton), está a filmar para os festivais... questione-se tudo isso, e até os dois prémios a um filme grego, Miss Violence, que sacrifica (quase) tudo em favor do “efeito choque”... Mas é irrecusável que este é um palmarés inquieto, que procurou, que arriscou.

Arriscou nos filmes mais idiossincráticos da competição, e é preciso então referir ainda o silencioso mas traumático The Police Officer’s Wife, Philip Groning, Prémio Especial do Júri, e do lote o mais bem logrado — e uma forma de estar ao lado da violência, como algo que não escapa ao humano, o que em tudo é o oposto do que faz o filme grego.
E faz mais o palmarés do júri de Bertolucci: ao consagrar o filme de Rosi, realizador que se estreou na competição de Veneza depois de aí ter dado sinais de si, em secções paralelas, com Below Sea Level e El Sicario Room 164 (melhor filme no DocLisboa 2012), sinaliza a força mais irreprimível em várias secções deste festival: o do documentário ou das chamadas ficções do real. A 70ª edição de Veneza vai ser lembrada por ter sido o ano em que apresentou, fora de competição, At Berkeley, de Frederick Wiseman e ‘Till Madness do Us Part, de Wang Bing: a partir do olhar sobre a mítica universidade californiana, e as suas dificuldades orçamentais, no primeiro caso, e com a imersão num hospital psiquiátrico chinês (o segundo, o filme maior de todo o festival), o americano e o chinês entregaram-nos serenas e tremendas visões do humano, da sua capacidade de se reformular. E podemos ainda incluir e contar com o plano final de Via Castellana Bandiera, quando os figurantes de um filme atravessam literalmente o plano da ficção com as suas vidas, a de habitantes de um bairro de Palermo.

E porque tudo isto faz sentido, a César o que é de César: reservar para Philomena, de Stephen Frears, que durante todo o festival foi o objecto consensual, o prémio que de facto merecia: o de argumento e não outro, o Leão de Ouro que muitos defenderiam. O filme de Frears, em que um jornalista cínico ajuda uma mãe crente a encontrar o filho que a Igreja católica irlandesa lhe tirou, cinquenta anos atrás, é uma maquinaria aperfeiçoada com os requintes do calculismo. E pronto, foi assim que Bernardo, retratado em Bertolucci on Bertolucci, belíssimo documentário de Walter Fasano e Luca Guadagnino, cumpre a sua visão de si como homem do underground infiltrado no mainstream.
 
 

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