Quatro galerias contra a crise

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Alda Galsterer, que ainda não tem 30 anos, começou a ponderar abrir uma galeria em 2008, justamente o ano em que a crise rebentou: procurou um "modelo novo"

Em contraciclo com o espírito do tempo, há galerias a nascer em Portugal - de Lisboa a Coimbra, um novo itinerário.

Alda Galsterer ainda não tem 30 anos, mas sempre sonhou ser galerista. Quando a crise rebentou, em 2008, pediu conselhos. "Houve uma pessoa que me disse: "É agora, que há crise, que deves abrir. Procura um modelo novo. As oportunidades estão aí.". E assim foi. Avançou e, com o apoio financeiro de um sócio, arranjou um primeiro andar num edifício dos anos 40 da Rua Castilho, em Lisboa, muito diferente do "cubo branco" das galerias tradicionais: foi mantida a traça do antigo apartamento de habitação, e os tectos com estuques trabalhados Art Déco interferem activamente com as obras apresentadas nas salas de exposições. A galeria Belo-Galsterer abriu as portas no final de 2012 e já dá cartas no meio artístico da capital.

O caso de Alda Galsterer não é único. À primeira vista, parece loucura abrir uma galeria em Portugal nestes tempos de austeridade. Quem conhece bem o meio percebe os sinais de que as coisas vão mal, mesmo muito mal. Há galerias a fazer promoções - "obras da semana" que se pretendem vender a preço de saldo. Outras deixaram pura e simplesmente de expor, ou quando expõem é a um ritmo duas ou três vezes inferior ao habitual. Artistas de qualidade sussurram que pouco ou nada vendem há meses. Ao mesmo tempo, as galerias que mais apostaram no circuito internacional, casos da Cristina Guerra e da Vera Cortez, continuam a viajar e a mostrar os seus artistas nas grandes feiras internacionais. Tudo está em crise, e ao mesmo tempo percebe-se que tudo está a mudar no nosso meio artístico. Hoje, o mercado faz-se sobretudo, e vai continuar a fazer-se, fora de fronteiras.

Alda Galsterer foi uma das convidadas por Miguel Amado a falar da sua experiência de jovem galerista no Pavilhão de Portugal da última Bienal de Veneza. Contou como estabeleceu parcerias com empresas geograficamente próximas para poder suportar os custos de uma programação que se quer nacional e internacional. Falou também de como captou alguns nomes consagrados - Miguel Branco e Pedro Sousa Vieira - e os combina com outros, não necessariamente desconhecidos, mas com garantias sólidas de que farão um percurso artístico coerente. Marcelo Costa, também português, junta-se ao moçambicano Mário Macilau, à australiana Mel O"Callaghan e à alemã Juliane Solmsdorf para completar uma carteira de artistas que apostam sobretudo na reflexão sociológica como base do seu trabalho. Alda Galsterer recebe também projectos pontuais, como New Work, do escultor Rui Sanches (que, juntamente com O Caso do Verde Primário, de Marcelo Costa, pode ser visto até amanhã), e promove seminários, visitas guiadas e viagens ao estrangeiro de âmbito cultural. Neste mês, por exemplo, organiza uma visita a Berlim - e faz a sua rentrée no dia 26, com as inaugurações de Ensemble, de Mel O"Callaghan, e How to stay alive in the woods, de Ana Jotta.

O caso de A Pequena Galeria é diferente. É pouco maior do que uma entrada de prédio, fica na Avenida 24 de Julho, também em Lisboa, e dedica-se exclusivamente à fotografia de pequeno formato. Sendo propriedade de um conjunto de sócios (Alexandre Pomar, Carlos M. Fernandes, Guilherme Godinho, Carlos Oliveira Cruz, Bernardo Trindade e Ágata Xavier), quem fala por todos é o crítico de arte Alexandre Pomar, que segue aqui as pegadas pouco usuais do "pai" da crítica de arte em Portugal, José-Augusto França, que foi também proprietário de uma galeria na década de 50. "Sempre gostei de fotografia", afirma Pomar, antes de salientar que o seu espaço preenche uma lacuna no meio artístico português. "A fotografia estava a ser cada vez mais vista em Portugal como um objecto fotográfico, de grandes dimensões, semelhante a uma pintura, o que a torna caríssima e inacessível. As galerias tinham como principal objectivo a venda destes objectos a instituições, em vez dos pequenos coleccionadores que, no estrangeiro, compram muita fotografia de pequeno formato." Abriram a 22 de Março e, segundo a página que mantêm no Facebook, desde então fizeram "dois salões, duas exposições colectivas, um leilão e três individuais."

Quando a visitámos, mostrava um conjunto de trabalhos dos fotógrafos José Cabral, Luís Basto, Moira Forjaz e Rogério Pereira. "O comércio não é o único objectivo da galeria. Nesta exposição, por exemplo, há 12 trabalhos que são meus e não estão à venda. E há também empréstimos do Centro de Arte Moderna, que obviamente também não são para vender." Nenhum dos sócios tem na galeria a sua actividade principal. "Eu, por exemplo, faço aqui sobretudo mecenato", acrescenta Pomar. Foi ele quem acompanhou a itinerância de uma exposição do chamado "Grupo de Évora" a Évora e a Sines, , onde poderá ser vista no Centro Cultural Emmerico Nunes até dia 28, com trabalhos de António Carrapato, J. Cutileiro, Pedro Lobo, José Manuel Rodrigues e David Infante.

Ainda em Lisboa, a Bloco 103 abriu em 2011 num rés-do-chão da Rua Rodrigo da Fonseca, e possui um espaço engraçado, dividido em cubículos, obviamente com uma vocação mais tradicional para a apresentação de pintura e fotografia. Propriedade de Miguel Justino Alves com dois sócios, rejeita também a vocação exclusivamente comercial para se centrar no "cruzamento de autores", procurando ter "um espaço aberto, disponível para ouvir, conhecer e interagir". Miguel Alves diz que é "pouco dado a uma visão afunilada", mas que mesmo assim procura ter um crivo de qualidade na sua selecção de artistas. Entre estes, destacaremos Justino Alves, pai do galerista, pintor e professor importantíssimo para gerações de alunos da ESBAL, e Pedro Chorão, que aqui teve uma belíssima exposição de pintura há alguns meses. Outros nomes da carteira da Bloco 103 incluem Vítor Pomar, Mário Rita, Inês Winhorst e Miguel Navas. Promovem também actividades extra-galerísticas, como viagens culturais, e pretendem, no futuro, projectar o seu trabalho em feiras internacionais.

Mais longe, em Coimbra, na Rua Alexandre Herculano, fica a Mercearia de Arte Alves & Silvestre que, como o nome indica, não se posiciona como uma galeria de arte tradicional, mas mais como uma "galeria, agência e livraria de arte" que vende artigos diversos. De certa forma, recorda os começos da galeria Arte Periférica, nos anos 90, que também nunca abandonou a loja de artigos para artistas. Projecto de dois primos, Pedro Beja Alves e António João Silvestre, um ex-livreiro e outro artista plástico, a Mercearia de Arte tem um programa ambicioso. "Para além da Galeria 7, não há galerias de arte contemporânea em Coimbra", diz António João. "É aqui que pretendemos marcar lugar."

Quiseram começar com artistas jovens, em início de carreira, e assim foi. Mariana Sampaio e Pedro Zamith, por exemplo, integram uma carteira com 30 nomes, onde se encontram desde street-artists a ilustradores, designers, fotógrafos e outros de designação incerta, tendo em comum a juventude e o eclectismo das práticas e dos talentos. Em duas salas de dimensões medianas, juntam-se sempre obras de diversos artistas ("não são exposições colectivas", salienta António João), objectos artesanais, velinhas e sabões, e sobretudo o enorme entusiasmo dos proprietários. "Queremos chegar ao público que normalmente não frequenta galerias", afirmam. As ambições institucionais e a projecção internacional ficarão para mais tarde. Fazem muita coisa, desde lançamento de livros a workshops, e serão sem dúvida os mais distantes do conceito tradicional de galeria deste pequeno grupo.