Paulo Ribeiro sozinho com Ingmar Bergman no estúdio

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Gorada uma nova criação com Beatriz Batarda, o coreógrafo e bailarino regressa para um último solo DANIEL ROCHA

Regressar ao palco para um solo - o último, diz ele - com Ingmar Bergman na bagagem, tardes a fio a ver filmes do realizador sueco e a "ouvi-lo" em entrevistas. "O que fazer com tudo isto quando tudo isto se parece tanto com a dança?", pergunta o bailarino e coreógrafo Paulo Ribeiro, que está em estúdio a trabalhar numa peça com estreia marcada para o Inverno (nada de datas precisas, para já, mas a estreia acontecerá em Viseu, no Teatro Viriato, e o solo passará depois pelo Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, o Teatro Nacional São João, no Porto, e o Centro Cultural de Belém, em Lisboa).

Paulo Ribeiro habituou-se a olhar para os filmes de Bergman como para longos duetos que expõem um universo sinuoso, "marcado pelo afecto e pela distância", em que parece não haver saída para as relações humanas. A ideia de trabalhar este universo surgiu há quatro ou cinco meses, depois de dificuldades financeiras terem inviabilizado uma nova criação que estava a preparar com a actriz Beatriz Batarda. "Quando penso no cinema do Bergman penso sempre no peso das palavras, porque até os longos silêncios que encontramos nele estão cheios de palavras. Têm um eco, a ressonância de um estado de alma que parte de uma relação forte prestes a resolver-se ou a destruir-se de vez", explica o coreógrafo ao Ípsilon.

Dança e cinema são duas coisas que gosta de misturar. Já foi assim com Du Don de Soi, em que explorou a galáxia do cineasta russo Andrei Tarkovsky. "Mexer nestes realizadores poéticos é atraente para um coreógrafo porque boa parte das suas preocupações é comum à dança, como a da possibilidade de criar, perante uma audiência, uma certa interioridade, uma intimidade que se possa partilhar, nem que seja de longe." Bergman, lembra, dizia que através do cinema podia falar directamente à alma, uma ligação directa que motiva Paulo Ribeiro a regressar ao estúdio na qualidade de criador-intérprete.

Numa época em que se sente rodeado de palavras inúteis, o cineasta sueco fá-lo regressar ao essencial. "O Bergman é voraz quando fala de pessoas e daquilo que as faz andar. Dá-nos dentadas na alma, no coração. Diz coisas cruéis da maneira mais natural e isso põe-nos a pensar no que valem as palavras." Como é que toda a reflexão à volta do cineasta vai passar para o palco e o corpo, Paulo Ribeiro ainda não sabe. Para já tem apenas a certeza de que quer pô-lo a falar: "As palavras de Bergman na voz de Bergman."

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