Há um turbo novo para alimentar este culto

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Os Linda Martini fazem férias em Setembro: regressam a 5 e 12 de Outubro, para os concertos de apresentação do novo disco DUNYA RODRIGUES

Afirmaram-se na última década como um dos fenómenos nacionais mais catárticos em palco, e assim geraram um efeito de pertença pouco comum por cá. Dia 30 lançam o novo Turbo Lento, que promete ser um dos fenómenos da rentrée. Eis os Linda Martini em discurso directo, apanhados em pleno salto de gigante.

São um dos fenómenos musicais nacionais que mais culto geraram nos últimos anos e vão lançar novo álbum no próximo dia 30 - desta vez, salto de gigante, numa multinacional. Por ambas as razões, Turbo Lento, dos Linda Martini, é naturalmente um dos discos mais aguardados da segunda metade de 2013. Com dez anos de actividade, três EP e dois álbuns (Olhos de Mongol, de 2006, e Casa Ocupada, de 2010), foram-se consolidando, em grande parte devido a concertos de grande intensidade sónica, na velha tradição do rock enquanto exposição sem simulacros. No novo registo, navegam entre canções ríspidas e intensas, celebrando o rock directo (Juárez ou Tamborina fera), e outras onde há uma construção mais complexa, mudanças de intensidade e tempos rítmicos mais tranquilos (Volta ou Febril).

Turbo Lento é também o primeiro álbum para uma grande editora, a Universal, algo que André Henriques (voz e guitarra), Pedro Geraldes (guitarra e voz), Cláudia Guerreiro (baixo e voz) e Hélio Morais (também dos If Lucy Fell e PAUS, bateria e voz) encaram com naturalidade, nestes tempos em que a indústria da música passa por profundas transformações.

Fomos ter com eles, imaginando que tinham acabado de chegar de férias, como a maior parte dos mortais. Mas não.

Como foram as férias?

Cláudia Guerreiro - Começam só amanhã!

Hélio Morais - Estamos bronzeados, mas porque ontem estivemos a filmar um vídeo na Cova do Vapor.

Pedro Geraldes - As férias oficiais são em Setembro porque andámos a tocar em Agosto e agora não há muitos concertos.

C.G. - Mas também é verdade que Agosto é a melhor altura para estar em Lisboa.

Em Julho estiveram em estúdio a registar o novo álbum. Alguma vez sentiram que gravar um disco no Verão ou no Inverno poderia ter algum tipo de reflexo no resultado final?

C.G. - Não tem influência. Poderia era ter sido mais agradável no Inverno por causa do calor.

P.G. - As canções foram sendo feitas ao longo de meses, algumas mesmo ao longo de anos; atravessaram por isso todas as estações, embora as gravações tenham ocorrido no Verão. Mas não tem influência.

De qualquer forma o estar em estúdio é sempre um tempo em suspenso, um corte com o quotidiano. Como é que o vivem, tendo em atenção que têm fama de se sentirem mais à vontade em palco?

H.M. - Tentamos ao máximo recriar em estúdio aquilo que transportamos para os concertos. Mas neste disco até decidimos não ser fiéis às gravações à primeira e fizemos muitas dobragens de guitarras, por exemplo. Tínhamos feito isso no Casa Ocupada, mas o estúdio não é o sítio onde estamos mais confortáveis. A cena é mesmo ao vivo.

P.G. - Mesmo quando estamos a ensaiar, as coisas saem de outra forma. Libertamo-nos mais. Em estúdio sabemos que aquilo vai ser gravado para sempre, é o que vai perdurar, o que implica pressão extra. Existe essa pressão de tocar bem, de não errar, enquanto ao vivo essa procura perfeccionista não acontece. Existe outro brilho.

Não seria então mais indicado expor os temas novos ao vivo, consolidando-os, e depois sim gravar, em vez de o processo ser ao contrário?

C.G. - Isso era perfeito, porque quando se vai gravar as canções já estão amadurecidas e foi-se percebendo o que eventualmente poderá não funcionar. O processo aqui foi ao contrário. Ainda vamos perceber o que funciona ou não. Mas por outro lado vamos dar uma coisa nova ao público e quando começarmos a tocar vamos sentir as canções pela primeira vez. Se fosse ao contrário, quando saísse o álbum já poderíamos estar fartos de as tocar.

H.M. - Não existem modelos ideais, precisamente porque existe imensa coisa que alteramos e quando as canções chegam ao palco ficam diferentes. Não é que nos arrependamos do que gravámos, mas é sempre possível melhorar.

Quando partem para um novo disco conversam para decidir o que fazer, no sentido de projectarem algo diferente ou continuarem qualquer coisa antes desenvolvida?

André Henriques - A ideia é sempre tentar fazer diferente.

C.G. - Falamos, sim. Dizemos que "vamos fazer qualquer coisa mais na onda do álbum X ou Y", mas no fim isso acaba por não acontecer.

P.G. - Passa também por aquilo que estamos a ouvir. Quando começámos a compor este álbum, provavelmente estávamos a ouvir coisas simples e cheias, acordes de guitarra sem muitas complicações. Acabou por influenciar. Depois existiu uma fase em que retomámos aspectos do Olhos de Mongol, mais baseado numa ideia de viagem, de qualquer coisa mais contemplativa.

H.M. - Há quase sempre uma reacção ao último disco que se acabou de gravar. Como antítese queremos sempre fazer a tal coisa diferente que não seja uma simples continuação. Neste caso, fomos buscar coisas que já nos eram familiares do primeiro disco, essa componente mais contemplativa.

C.G. - Mas tem coisas bastante diferentes, ainda assim. O Febril não tem nada a ver.

P.G. - Foi a última música, talvez por isso seja aquela que sai mais fora do baralho.

H.M. - Durante o processo de composição vamos suprindo necessidades. No início do Casa Ocupada tínhamos duas músicas mais rock e outras duas numa linha mais de viagem. Nessa altura sentia que o disco iria sair mais calmo, mas acabou por sair uma coisa bem mais directa.

P.G. - Nessa altura estávamos sempre a ser catalogados como banda pós-rock, o que nos fazia confusão, daí talvez essa reacção também.

A.H. - Podemos ter uma ideia inicial e durante o processo desviamo-nos dela. Mas existe sempre essa ideia nuclear de fazer qualquer coisa nova, diferente e revitalizante.

Isso do ponto de vista sonoro. Enquanto indivíduos passaram certamente por muitas experiências ao longo da última década e estão diferentes. Como é que integraram essas transformações nas letras?

H.M. - As letras são normalmente feitas pelo André, apesar de opinarmos também.

P.G. - Funcionam como os acordes de guitarra ou o som da bateria, toda a gente opina sobre tudo. Não existe nada sagrado.

A.H. - Quando começámos tínhamos 23 anos. Hoje temos outras motivações, o percurso de vida é outro e escrevemos sobre coisas diferentes. Neste disco as letras até têm mais destaque do que no passado. Deixámo-nos levar por elas. Na fase mais pós-rock tínhamos temas de cinco ou seis minutos e só havia uma frase forte. Neste disco, por termos optado por uma linha mais próxima da canção, existe mais espaço para a palavra. Para além da diferença de estrutura, sinto-me hoje mais à vontade a escrever e a musicar em português. Não havia muitos exemplos em Portugal quando começámos: os Xutos & Pontapés e os Ornatos Violeta, pouco mais. É difícil quando se começa a escrever e a contornar os obstáculos da língua, porque o português não parece tão redondo como o inglês. Talvez essa aparente limitação tenha contribuído para encontrarmos a nossa identidade, com frases curtas. O facto de estarmos mais à vontade na escrita contribuiu para que fizéssemos coisas diferentes. Mais literais, não tão ambíguas.

Há preocupação de reflectir a realidade exterior, o tempo convulso que vivemos em Portugal e no mundo?

H.M. - Enquanto pessoas faz, enquanto banda não temos agenda política. Mas o contexto acaba por reflectir-se no que fazemos.

A.H. - Partimos de nós, mas também olhamos em volta. Neste disco existem algumas coisas contaminadas pelo contexto actual, embora uma canção como Ratos, que fala de emprego e relações de poder, seja relacionada pelas pessoas com o contexto económico, quando eventualmente até é uma das canções mais pessoais do disco, enquanto outras que poderão ter um fundo mais contemplativo têm um cunho mais político. Ou seja, as letras acabam por se tornar ambíguas, até pelo contexto musical.

É Setembro e estamos na ressaca dos festivais de verão. Há um núcleo de grupos portugueses que poderia ocupar o palco principal dos festivais em horário nobre, mas raramente acontece. Como é que encaram isso?

P.G. - É uma engrenagem montada há muito e difícil de contrariar, apesar de não nos parecer justa.

H.M. - Já tocámos nos palcos principais de quase todos os festivais, embora não no horário nobre. Às vezes existem bandas de fora que não têm grande influência aqui, ao nível dos discos vendidos e dos fãs, mas que pertencem a uma grande editora ou agência e chegam lá. Enquanto algumas bandas portuguesas, com uma grande legião de fãs e com potencial, acabam por ser relegadas para outros palcos. Não sei se não terá a ver com relações de poder entre agências, promotoras e editoras junto dos festivais.

P.G. - E também continua a subsistir a ideia que o que vem de fora é que é bom, apesar de esse posicionamento se ter esbatido.

Quando começaram, a indústria da música dava sinais de grande transformação. Acabaram por beneficiar da revolução digital, criaram uma comunidade de seguidores que se reconheciam no vosso posicionamento artístico e ético. Receiam ser censurados, agora que passaram para uma grande editora?

H.M. - Não são coisas que nos passem ao lado. É óbvio que já esperávamos algumas reacções menos positivas quando assinámos pela Universal, mas isso faz parte. O sentimento de pertença de quem nos acompanha desde sempre vai mudando.

A.H. - O nosso posicionamento ético é o mesmo. Quem nos critica é porque não está a par do contexto - do mercado e da banda. Quem coloca os discos nas lojas é outra instância, mas a estética e o processo de composição não se modificaram. Não houve cedências. Existiu apenas um entendimento entre duas entidades para lançar um disco. Mas nada disso condicionou o plano criativo.

C.G. - As coisas estão diferentes. Talvez no passado existisse esse tipo de concessões quando uma grande editora contratava uma banda. Mas hoje as grandes editoras mudaram muito a sua postura.

H.M. - Chegámos à Universal já com um público estabelecido, uma carreira com anos e uma identidade. Não estou a ver uma editora a querer mudar a nossa identidade nesta fase. Como não fizeram, por exemplo, com os Mão Morta. Pelo contrário, até desejarão que se reforce.

A propósito dos Mão Morta, como é que olham para o passado do rock feito em Portugal em termos de uma possível genealogia?

A.H. - Se existe um modelo a seguir é o dos Mão Morta, no sentido estético, na contracorrente, no terem sempre feito o que lhes apeteceu, independentemente das editoras e das expectativas. Têm um público fiel. Na altura do Nus não tinham editora e acabaram por formar uma para o lançar. Por outro lado têm outras actividades, o que também é modelar para nós. Depois surgimos na altura em que os Ornatos Violeta acabaram e essa coincidência geroumuitas comparações. Quando eles acabaram beneficiámos de fazer rock nessa lógica de cantar português numa linha mais contemporânea. Mas há dez anos existiam poucas referências.

Os Xutos & Pontapés vivem da actividade gerada pelo grupo, enquanto os membros dos Mão Morta, como apontaram, têm outras profissões. Não preferiam viver da música?

H.M. - Não. É óbvio que viver só da actividade da banda é uma coisa romântica, mas sentimos que nos faz falta ter outra actividade, até para termos um escape.

C.G. - Não me passa pela cabeça deixar de fazer outras coisas. E a questão não é apenas financeira.

P.G. - Cada caso é um caso, mas desta forma acabamos por sentir que não fazemos cedências.

H.M. - Se tiveres em mente que tens de fazer coisas com reconhecimento é provável que, mesmo inconscientemente, acabes por seguir um caminho diferente do que seguirias se não estivesses dependente de vender discos para pagar a renda.

Os discursos do rock baseiam-se muito na naturalidade do gesto, na espontaneidade, mas num concerto inevitavelmente existem elementos de construção. Há momentos de maior intensidade, por exemplo, que são preparados. Os chamados picos. Como é no vosso caso?

C.G. - Às vezes, em conversa com o Rui Carvalho (Filho da Mãe), falamos sobre essa tendência de acabar os temas sempre em crescendo. Parece que as músicas têm de acabar em cima, mesmo no caso de Filho de Mãe, que é um projecto não-rock. A mesma lógica acontece na construção de um concerto. Queres começar, desenvolver e acabar em grande. A memória que as pessoas guardam é essa. Parece que se a última música for boa o concerto foi bom. Constrói-se um concerto como se constrói uma música. Vais construindo uma coisa para chegar a um ponto culminante. Para deixar uma sensação boa em nós e no público.

Por falar em espontaneidade, como é que lidam com os encores? Terminam a última músicadizendo adeus, mas sabendo que minutos depois vão regressar?

C.G. - Não. Mas já o fizemos.

H.M. - Sentimo-nos mal quando isso acontece. É a pior coisa despedirmo-nos sabendo que ainda vamos tocar mais duas músicas. Ultimamente até dizemos logo, antes das últimas três, que não temos encores.

C.G. - Por mais que queiramos explicar-lhes, as pessoas não percebem. Sentem-se defraudadas. É uma coisa que é dada como garantida.

A.H. - Há sítios em que as pessoas se revoltam mesmo se não voltamos, porque é isso que se convencionou. Mas tem mais piada quando é espontâneo.

H.M. - Já fizemos encore sem o programar e isso é diferente.

C.G. - Também pode acontecer que um encore acabe por dar cabo do concerto, principalmente se não foi preparado.

Ultima pergunta: há algum disco ou concerto que aguardem com expectativa nesta segunda metade do ano?

H.M. - Os novos discos e respectivos concertos de apresentação de Capitão Fausto, Peixe:Avião e Filho da Mãe. Os Capitão Fausto porque o futuro da música portuguesa passa por eles, os Peixe:Avião porque voltaram com um grande disco e o Filho da Mãe porque é um dos músicos mais extraordinários que conhecemos.