Filme de Wang Bing é a experiência mais avassaladora de Veneza

"Till Madness Do us Part, de Wang Bing, foi exibido Fora de Competição no Lido (imagens da esquerda e do meio). Donald Rumsfeld em The Unknown Known, de Morris, na competição de Veneza
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"Till Madness Do us Part, de Wang Bing, foi exibido Fora de Competição no Lido (imagens da esquerda e do meio). Donald Rumsfeld em The Unknown Known, de Morris, na competição de Veneza GABRIEL BOUYS/AFP

Um hospital psiquiátrico na China. Quatro horas de duração. Com os filmes de Wang Bing percebemos até onde a experiência humana se desmultiplica sem deixar de ser isso mesmo, humana

É uma reprise do que acontecera em 2012: um filme de Wang Bing é a experiência mais avassaladora do Festival de Veneza. O ano passado aconteceu com Three Sisters, exibido na secção Orizzonti - filme que depois venceria o Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Longa-Metragem da Competição Internacional do DocLisboa. Este é o ano de "Till Madness Do us Part, exibido Fora de Competição no Lido. À margem do que é oficial, e é esse o lugar onde está sempre o cinema do realizador chinês. Que autoproduz os seus filmes que na China só são vistos através de DVD pirata. Mas há uma coisa que nele é central e incontornável e deve ser para isso que ainda serve o cinema: com os filmes de Bing, como em filmes de alguns outros cineastas, somos capazes de perceber o que somos, até onde a experiência humana se desmultiplica sem deixar de ser isso mesmo, desassombradamente humana. Há um misto de euforia e de medo perante isto que acontece: nós. Somos uma epopeia. Há um misto de euforia e de medo perante "Till Madness Do us Part.

"Till Madness Do us Part... ou, na tradução italiana, Amore e Folia... histórias de um asilo psiquiátrico no Sul da China... São dois títulos que parecem ir em sentido contrário: a loucura como princípio de destruição, o amor como possibilidade de recomposição. O documentário de quatro horas que Wang Bing rodou num hospital psiquiátrico, onde chegou como o estrangeiro que vinha do Norte, de Pequim, abraça as duas coisas. A loucura que se intrometeu numa vida conjugal, separando um marido da sua família, substituindo a conjugalidade que existiu entre os corpos por uma paciência tensa, um ressentimento que parece sem remédio nem consolo - e pela dificuldade de um pai, doente, em encarar de frente o filho adolescente, como se tivesse vergonha de uma traição; ou então aquele homem, acabado de chegar, que uiva à noite, à mulher, porque é que o internou. "Não estou louco, tira-me daqui, como me pudeste fazer isto?" Mas há aquele outro que insiste em dormir na cama dos companheiros de quarto e que lembra que a pele enrugada e a barba grisalha não significa, que não se possa regressar a uma Primavera - e as cantilenas que se entoam naquelas celas imundas onde se urina para as paredes e em que aparentemente o humano desertou trazem uma promessa de recomposição.

Foram internados pelos familiares, que descobriram serem incapazes de lidarem em casa com a desordem do desequilíbrio emocional. Ou foram enclausurados pela polícia, encontrados na rua, dados como perigosos para a ordem e segurança pública... no genérico final de "Till Madness Do us Part, e como ele costuma fazer só mesmo no final dos filmes, é que Wang Bing particulariza os dados do que acabamos de ver. Como se até aí quisesse envolver o espectador numa experiência universal, que lhe dissesse respeito e não fosse uma história do "outro". Esta não diz respeito só à China, é verdade. Mas, fundamentalmente, não diz respeito só aos "loucos". Wang Bing dizia, em conferência de imprensa, que quando começou a filmar - depois de quinze dias em que precisou de se ambientar ao espaço concentracionário e depois dos três meses em que escolheu as personagens cujo quotidiano e história queria contar - deixou de lidar com "doentes". "Não me senti diferente deles. Foi como falar com amigos." Não é retórica de Wang Bing. Como naquela sequência extraordinária em que um internado no hospital, figura de irreprimível energia (a não ser quando duas gotas de medicamento o deixam prostrado mas em pé), decide correr como se estivesse no ginásio, o cinema tem de se submeter ao ritmo e aos gestos de quem filma - e "Till Madness Do us Part não tem outra hipótese a não ser correr com ele.

Wang Bing confessa que começa por sentir, ao início, a dificuldade de quem, por um lado, filma o que vê e de quem, por outro, reflecte sobre aquilo que vê. Como uma contradição a resolver. Mas há um momento, e esse é o seu lema de cineasta, em que passa a ser uma testemunha do que acontece à(s) vida(s). "Eu estou lá", diz. "Sou parte do meu cinema." Isso pode ser uma resposta que se não nos elucida tudo sobre os mistérios dos protocolos estabelecidos por este pequeno gigante chamado Wang Bing, apazigua-nos sobre a possibilidade de o cinema ainda dar conta de nós. Somos uma epopeia.