Envelhecimento do parque automóvel atira idade dos carros para os 11 anos

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Quase 60% dos automóveis estão concentrados em cinco distritos: Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Setúbal miriam lago

As vendas voltaram a crescer, mas para trás ficam dois anos de contracção do sector, que agravaram a idade média dos automóveis em Portugal. Em 2012, o número de veículos nas estradas baixou em quase 66 mil

A queda abissal nas vendas de carros nos últimos dois anos começou a ser invertida de forma progressiva em 2013 (as vendas de ligeiros cresceram 5,8% até Agosto), mas deixou marcas no parque automóvel português. A contracção do mercado fez não só cair o número de veículos em circulação nas estradas portuguesas, como deu um empurrão na idade da própria frota automóvel.

Os veículos ligeiros de passageiros registavam, no final de 2012, uma média de 11,1 anos de idade, valor que não se observava desde a abertura do mercado automóvel, em 1988. E, em dez anos, a idade média aumentou quase três anos e meio. Segundo dados cedidos ao PÚBLICO pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP), havia mais de 5,8 milhões de veículos registados em Portugal no final do ano passado - menos 65.900 do que a frota de 2011. Mais de três quartos são ligeiros de passageiros (77,4%).

Como estratégia para dinamizar as vendas, as duas principais associações do sector reclamam um novo plano de incentivos ao abate de carros, e chamam a atenção para as questões ambientais de um parque automóvel mais envelhecido.

A maior percentagem é a de carros com idades entre os dez e os 15 anos. Em 2012, havia mais de 1,2 milhões de ligeiros de passageiros (27,7% do total) neste escalão. A segunda maior fatia (25,9%) pertence aos carros com idades entre os cinco e os dez anos. E há já 17,6% no escalão dos 15 aos 20 anos (quase 791 mil veículos).

O parque automóvel português chegou a ser um dos mais jovens da Europa - o que foi possível com a liberalização do mercado de carros dois anos depois de Portugal aderir à CEE, em 1986, com o aumento das vendas a que então se assistiu.

Da juventude ao envelhecimento da frota foi uma questão de anos. A idade do parque automóvel está a subir, pelo menos, desde o ano 2000, altura em que a média estava nos 7,2 anos. A rota ascendente continuou - mesmo com os programas de incentivos ao abate de carros - e, dez anos depois, a média de idade ultrapassava uma barreira histórica: os dez anos. Em 2011, fixou-se nos 10,5, passando agora para mais de 11 anos. "Quando o parque circulante de ligeiros de passageiros passa os dez anos é considerado envelhecido", diz o secretário-geral da ACAP, Hélder Pedro.

"Velhos e mal reparados"

Ao encontro das preocupações do sector, uma resolução da Assembleia da República, de Julho, recomenda ao Governo que seja estudada a criação de um programa de incentivos ao abate de carros em fim de vida (o último terminou em 2010). Tanto a ACAP como a Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA), os dois principais representantes do sector, defendem um novo plano de apoios à compra de um carro novo em troca de outro mais velho. As duas calculam que o Estado arrecadaria receita fiscal suficiente para compensar os incentivos.

Para além da dinamização que, sustentam, o sector está a precisar, isso teria a vantagem de "retirar de circulação veículos com 17, 18 anos, que são mais poluentes", enfatiza Hélder Pedro. O mesmo diz o secretário-geral da ANECRA, Jorge Neves da Silva, que considera necessário "tudo fazer para minimizar as consequências da segurança e ambientais".

Do contacto com os associados, garante, é perceptível que a crise económica, a queda do rendimento disponível e o clima de austeridade vieram adiar a compra de carro novo por parte dos particulares, assim como aumentar em circulação o número de carros "velhos e mal reparados".

Dados da empresa de leilões de automóveis BCA, relativos a 2010 (um ano de crescimento nas vendas) mostram que, por cada mil habitantes, eram vendidos em Portugal 72 carros usados, a mesma média registada na Bélgica e ligeiramente abaixo da Alemanha e de França. Seja novos, seja usados, os veículos comerciais ligeiros representavam, já em 2012, 20,1% do total. Menos peso têm os pesados, que apenas representam 2,5%. Mas é neste segmento que estão os veículos com mais idade. O parque de autocarros tem, em média, 14,1 anos e não muito distante estão, com 13,2 anos, os pesados de mercadorias.

É, apesar disso, nos veículos ligeiros que se encontra uma idade média mais baixa. Se nos ligeiros de passageiros estava nos 11,1 anos, nos comerciais ligeiros a média baixa para 10,7 anos.

As diferenças populacionais reflectem-se na distribuição geográfica dos automóveis. Mais de um terço está concentrada em Lisboa e Porto. E perto de 60% em apenas cinco distritos: Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Setúbal. com Luís Villalobos

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