A frequência das mega-secas na Península Ibérica está a aumentar

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As secas extremas têm graves consequências socioeconómicas NELSON GARRIDO

Estudo liderado por cientista português confirma que as emissões de gases com efeito de estufa de origem humana estão a contribuir para o aumento da frequência destes eventos climáticos extremos.

A revista Bulletin of the Meteorological Society publicou ontem um número especial dedicado aos eventos climáticos extremos do ano de 2012. Da seca extrema no Midwest norte-americano, às ondas de calor na Europa e no Leste do EUA, passando pelo furacão Sandy que assolou Nova Iorque e as chuvas diluvianas na China, Nova Zelândia, Austrália ou Japão, são um total de 19 análises, feitas por 18 grupos de cientistas e utilizando variadas metodologias, a tentar explicar as causas de 12 eventos extremos desse ano.

Um dos estudos, da autoria de uma equipa luso-espanhola liderada por Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, foca-se na seca extrema que se verificou em toda a Península Ibérica no Inverno de 2011-2012.

Não foi a maior seca do século a afectar Portugal e Espanha, mas andou perto disso. "A de 2004-2005 foi ligeiramente mais forte", disse ao PÚBLICO Ricardo Trigo, acrescentando que aquele evento de há quase uma década é provavelmente o recordista dos últimos 100 anos. Seja como for, "entre Setembro de 2011 e Agosto de 2012, a precipitação acumulada sobre a Península Ibérica desceu para cerca de 50% da média climatológica de pluviosidade, de 1950 a 2000, sobre o Sudoeste da Península", escrevem estes cientistas no seu artigo (ver mapa). E os quatro meses de Dezembro a Março, que normalmente são os de maior pluviosidade nesta região, foram excepcionalmente secos. Tal como a de 2004-2205 (e a de 1998-1999), a seca de 2011-2012 atingiu toda a Península Ibérica, ao contrário das secas mais comuns, que costumam afectar apenas 20 a 30% do território.

Isto aconteceu, segundo o estudo, devido a uma configuração desfavorável dos fenómenos climáticos naturais que controlam a força e a direcção dos ventos, tais como as flutuações da diferença de pressão atmosférica entre a Islândia e os Açores - mecanismo designado por Oscilação do Atlântico Norte, NAO na sigla em inglês -, que influencia os ventos de Oeste. Por sua vez, isso provocou uma brutal diminuição da humidade normalmente transportada até à Península Ibérica a partir do Golfo do México, das Caraíbas e do Atlântico Norte.

Todavia, a questão central não é a existência esporádica de secas extremas, mas a de saber se a frequência das secas extremas está ou não a aumentar. E esta é precisamente a principal conclusão do estudo. De facto, ao passo que, nos anos 1960, o intervalo de tempo entre duas secas desta dimensão era superior a 40 anos, hoje ela está mais perto dos 30 anos. "Três das maiores secas dos últimos 60 anos [na Península Ibérica] aconteceram nos últimos 15 anos", resume Ricardo Trigo.

Ora, quando se verifica um aumento de frequência de um evento climático extremo, salienta, torna-se essencial conhecer as suas causas. "Esta é a novidade aqui", diz Ricardo Trigo: "Tentar separar a variabilidade climática natural das alterações climáticas associadas às actividades humanas."

E esta era também uma das perguntas a que todos os estudos ontem publicados em conjunto queriam responder. Resultado: "Cerca de metade das análises encontraram indícios de que as alterações climáticas de origem humana estão a contribuir para a ocorrência do evento extremo em causa", lê-se na revista científica, na introdução aos artigos. Sem esquecer, contudo, que "os efeitos das flutuações naturais do tempo e do clima também desempenharam um papel crucial em muitos destes eventos extremos."

Uma das análises que deu resposta positiva à pergunta foi justamente o estudo da seca extrema de 2012 na Península Ibérica: se essas emissões não fossem tidas em conta nos modelos que os cientistas utilizaram para simular a evolução do clima, o aumento observado na frequência das mega-secas na Península Ibérica não teria surgido nos resultados das simulações. "A frequência das mega-secas na Península Ibérica está de acordo com o facto de terem sido emitidos gases com efeito de estufa e o seu aumento decorre em parte do aquecimento global devido a essas emissões, porque quando corremos os modelos sem as emissões, esse aumento de frequência [observado na realidade] não se verifica", conclui Ricardo Trigo.